segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Conversa de salão

Ele tem uns sete anos. É gordinho e, como 90% dos meninos dessa idade, hiperativo. Entra correndo no salão de cabeleireiro na frente da mãe e pula na cadeira ao lado da minha, onde o Jura se ocupa de tosar meu cabelo.

"Juras, Juras, você vai cortar meu cabelo hoje?"

Adendo: o nome do salão é Jura's. Está escrito na fachada e não há quem convença o garoto recém-alfabetizado que o nome do cara que empunha as tesouras não leva s.

"Juras, Juras, você vai cortar meu cabelo que nem o do Neymar!" Gesticula loucamente: "Vai cortar aqui, aqui, pentear assim e fazer um moicano igual ao do Neymar!"

"Ok, eu vou, mas primeiro eu vou terminar o moicano dela."

"MAS ELA É MENINA!"

Fico feliz com o "menina" e resolvo interagir com o pequeno que não para de se mexer. Deve ter comido uma caixa de sucrilhos antes de sair. Estico para ele a foto que levei para mostrar ao Jura como queria meu cabelo.

Adendo 2: É um montagem minha e de queridão com Ronaldo, Dentinho e Roberto Carlos. Podem rir, eu espero.

"Você gosta de futebol? Quero ver se você sabe o nome desses caras na foto."

O gordinho olha, olha, olha e por fim retruca, desanimado, apontando para o Fenômeno:

"Só conheço esse aqui."

"Pra que time você torce?"

"Pro Neymar!  você?"

"Ué, pro Corinthians, lógico!"

"Esse do seu lado na foto é seu marido?"

"Não, é meu namorado."

"Ah, tá... Namorado rima com marido..." E três segundos depois: "Juras! Juras! Corta meu cabelo que nem o do Neymar?"

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sobre terrorismo médico

Uma vez escrevi sobre isso e acho que hoje é o momento oportuno e retomar o assunto. Gostaria de iniciar com uma pequena lista de coisas que você NÃO deve dizer ao me ver usando minha bombinha de asma:

"A prima do tia de uma vizinha morreu por causa disso aí, viu?"

"Nossa, mas sabia que isso vicia?"

"Eu conheço um remedinho homeopático que olha, vai acabar com essas crises na hora, melhor coisa."

Quanto à última frase, gostaria de esclarecer que eu não acredito em homeopatia. Ponto. A alopatia está aí há sei lá quantos anos evoluindo e, surpresa, curando as pessoas. Não me venham com aguinhas, floraizinhos e formulinhas milagrosas. Aos entusiastas da homeopatia, inclusive, recomendo que assistam a esse video e parem de me encher o saco:

As frases restantes enquadram-se no que eu chamo de terrorismo médico. Todo mundo já foi vítima dos disseminadores dessa filosofia segundo a qual tudo pode ser muito pior do que parece.

Exemplo: sábado esta pessoa inteligentíssima que vos escreve achou que seria legal ficar bem bêbada e dormir com as lentes de contato. Resultado: acordou com os olhos inchados, vermelhos e lacrimejantes, especialmente o direito, que parecia estar a prestes a cair da minha cavidade ocular. Como médico é coisa de bichinha, passei quatro dias usando óculos e achei que estava tudo bem Esperta que sou, ontem recoloquei as mesmíssimas lentes que haviam ferrado meus olhos no sábado.

Ao longo do dia meus olhos foram ficando vermelhos outra vez. Lá pelas seis a tarde uma aluna diz: "olha, é melhor você ver isso, porque meu marido pegou uma AMEBA no olho e quase perdeu a visão."

Quer dizer, agora não basta fazer terrorismo. Tem que ser um terrorismo do tipo bizarro, envolvendo seres microscópicos nojentos e cegueira.

Pessoa joga as lentes no lixo, dá mais duas aulas á la Mr. Magoo e amanhece hoje pior ainda, enxergando tudo embaçado e mal conseguindo abrir os olhos. Surta pensando na ameba assassina e planejando já comprar uma impressora braille. Corre ao hospital. Ganha um diagnóstico de córnea arranhada, um tampão por um dia e uma proibição de lentes de contato por uma semana. Não vai precisar de um cão guia, pelo menos por enquanto.

Vou sobreviver. Mas o próximo que vier com um "olha, cuidado, eu conheço uma pessoa que..." vai ficar falando sozinho. Na melhor das hipóteses.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Trabalhices parte X

Estou lá no órgão público esperando meu aluno das dez da manhã. Nove e cinquenta recebo um SMS:

"O Dr. Fulano (aluno das dez) cancelou uma aula mas não disse o dia. Pode ser que seja hoje. De qualquer maneira, pode marcar aula dada."

O ALUNO DESMARCOU UMA AULA E PODE SER QUE SEJA HOJE.

"O senhor terá que operar um cérebro E PODE SER QUE SEJA HOJE.."
"O senhor terá que fazer uma apresentação de duas horas em alemão E PODE SER QUE SEJA HOJE."
"O senhor terá que entregar uma dissertação de 80 páginas sobre a influência do galho seco na reprodução do macaco-prego E PODE SER QUE SEJA HOJE."

Alguma coisa está errada ou é impressão minha, gente?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre Finados

Quando eu era criança era assim: ia-se para o interior no feriado. Minha mãe e minhas tias (cinco mulheres, no total) se reuniam e iam ao cemitério lavar o túmulo dos meus avós. Os irmãos (quatro) nunca iam. Era trabalho das mulheres.

De vez em quando os pequenos iam. Para nós era só um programa meio chato, ter que ficar em um lugar onde não se podia correr ou gritar. Não tinha essa consciência do culto aos antepassados e nem minha mãe parecia fazer muita questão de me ensinar isso.

Meu avô não conheci, morreu quando minha mãe tinha três anos. Atropelado. Numa cidade que na época devia ter mil habitantes ou menos. Em 1956. Seria quase cômico se não fosse trágico.

Da minha avó tenho lembranças confusas. Ela se foi quando eu tinha cinco anos. Lembro de quando ela ficou em casa se recuperando após ter perdido uma perna por causa do diabetes. Minha mãe diz que um dia voltei da casa de uma amiguinha surpresa porque "a avó dela tinha as duas pernas." Nos meus quatro anos não ter uma perna era uma condição inerente a todas as avós.

Ao longo desse caminho perdi alguns tios, a avó paterna (mulher engraçada, vaidosa, de cabelo e batom muito vermelho, péssima cozinheira, o oposto do clichê da avó) e por fim, a perda mais dolorosa, meu pai, há 15 anos.

Depois da morte do meu pai nunca mais voltei ao cemitério. Nenhuma vez. Nem minha mãe, nem minha irmã. O túmulo deve estar lá, sujo, abandonado, nenhuma flor. Quem for lá hoje prestar suas homenagens aos mortos há de pensar "coitado desse homem, não tem ninguém que ore por ele depois da morte." Mal sabem eles.

Para mim é muito simples: meu pai, obviamente, não está lá. Não há nada dele lá. O que restou de seu Adelphi foram as coisas que ele fez em vida. As piadas, os livros do Henfil que ele me deixou, os discos de jazz. Tudo que ele me ensinou. A pessoa fantástica que ele foi. E lavar um túmulo ou colocar flores frescas lá não vai mudar isso.