quinta-feira, 13 de maio de 2010

Venha ver o pôr do sol

Entrei na sala do nono ano e vi, perdida sobre a mesa, uma coletânea escolar de contos da Lygia Fagundes Telles - estre eles um dos mais famosos e meu preferido, Venha ver o pôr do sol. Devolvi a seu dono e eles me disseram que fariam prova do livro na segunda aula. Perguntei se tinham gostado. Respoderam que não porque, segundo eles, o livro "não tinha mensagem nenhuma."

O que eu poderia dizer? Talvez pudesse explicar que Lygia Fagundes Telles não desenvolve arquivos de pps nem escreve livros espíritas. Que literatura não precisa, necessariamente, ter uma mensagem - pelo menos não uma tão óbvia e clichê quanto a que eles estão acostumados nas letras do NXzero. Que uma boa história não tem a obrigação de ensinar nada, só de fazer pensar, só de atiçar a curiosidade para coisas maiores.

No final eu não disse nada. Tinha a idade deles quando li Lygia Fagundes Telles pela primeira vez e digo: essa mulher mudou minha vida. Ela me mostrou que havia um universo muito maior e mais importante do que a minha vidinha solitária e problemática de adolescente e que não, eu não estava sozinha - outras pessoas compartilhavam meus medos, minhas angústias e minha busca pelo pleno, pelo essencial. Parece piegas e clichê, mas aos 14 anos faz um sentido enorme.

Talvez a culpa seja nossa mesmo. Adianta atirar Venha ver o pôr do sol no colo deles, fazer uma prova e dormir tranquilo com a certeza de que "incentivou a leitura"? Eles pertencem a uma geração (que deve ter começado com a minha mas da qual eu tive a sorte de me desvencilhar) que foi treinada para só enxergar o óbvio - que recebeu tudo muito fácil, mastigado, e que não consegue ver a beleza e a profundidade das coisas nas entrelinhas das histórias mais simples, como as que eles tinham acabado de ler. Precisam de um guia. Precisam de alguém que os ajude a compreender.

E nós estamos falhando.

terça-feira, 11 de maio de 2010

Sessão pipoca pedagógica


Depois da semana de enganação (ops, recuperação) paralela, eis que a professorada se reune para decidir o que fazer com os alunos que não conseguiram atingir a média. Oras, como se a direção não soubesse o que fazer: passar todos de ano, claro.


Enfim, a reunião deste bimestre veio com lição de casa - assistir a um filme indiano chamado "Taare Zameen Par - Toda criança é especial". Pelo nome já da pra sentir o drama. É a história de um garotinho disléxico, muito esperto e talentoso para pintura mas que coleciona fracassos na escola e o famigerado clichê do professor-sensível-e-contra-o-sistema-vigente-que-toca-o-coração-e-muda-a-vida-de-seus-alunos.

Sendo justa, se eu não tivesse sido obrigada a assistir ao filme talvez até gostasse dele. É bonito, sensível, há umas animações engraçadinhas para ilustrar como funciona a mente do aluno e o garotinho é uma graça. Mas me dão licença de reclamar?



O filme tem duas horas e quarenta minutos. Destas, cerca de metade é gasta com cenas longuíssimas do menino observando peixes, poças d'água, chorando a partida da mãe que o deixou em um colégio interno, atravessando a rua. Tudo embalado por músicas indianas daquelas beeem tristes e intermináveis. Cenas de 15 minutos, no mínimo. A cena em que o professor aparece, passada já uma hora de história, então, é morte lenta e dolorosa. Ele surge tocando flauta vestido de arlequim, pulando e rebolando sobre as carteiras - e tome mais vinte minutos.


Não sei não, mas algo me diz que mais um clássico das reuniões pedagógicas acaba de surgir.