quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Conselho de classe - a verdade

Esta é uma obra de ficção, mas não deixa de ser baseada em fatos reais.


Eu sabia que ia sobrar para mim quando a diretora me lançou aquele olhar de garoupa arrependida e perguntou se eu não podia arredondar a nota do Zezinho para cima. Só mais essa vez. Eu poderia argumentar que eu já arredondei tanto a nota do Zezinho para cima que daqui a pouco ela será candidata a uma cirurgia de redução de estômago, mas ao invés disso usei um golpe baixo - apelei para a única professora abaixo da de Inglês (eu, no caso) na cadeia alimentar do colégio:

"E em Arte? Ele não ficou de recuperação em Arte também?"

A colega imediatamente sentiu a puxada de tapete e retrucou:

"Mas o Zezinho não entregou nenhum trabalho esse ano e não veio na recuperação. Eu não posso simplesmente inventar uma nota para ele!"

Eu não me daria por vencida - era uma questão de honra.

"Como não pode? Claro que pode. Eu mesma inventei nota para uma meia dúzia de alunos nesse conselho no ano passado, não foi, diretora?”

Eu apelei, admito. Invocar favores prestados em conselhos de classe anteriores é perigosíssimo. Corre-se o risco de ressuscitar mágoas enterradas há anos em café frio e bolacha Maria. Mas a professora de Arte conseguiu apelar mais:

“A gente não pode reprovar o Zezinho dessa vez?”

Silêncio. No hay banda. A professorada se entreolha não acreditando que ela, logo ela, toda tímida e riponguinha, teria coragem de mencionar o imencionável. A diretora leva alguns segundos para processar o absurdo, toma um copo de água em um gole só e responde:

“Professora, como é que eu vou explicar para um pai que o filho passou em Matemática e mesmo assim vai repetir de ano?”

“Porque ele passou em Matemática, talvez...” Ela insistiu. O que o desespero não faz.

“ Mas o Zezinho teve um ano difícil, vocês sabem. Perdeu o voo para a Disney e o Ipad novo no mesmo dia. O menino ficou abalado. A gente precisa dar uma chance a ele...”

“Se ele reprovar em Arte nós podemos pelo menos alegar falta de talento. Não vou arredondar, Inglês que arredonde.”

Traidora. Quando eu achei que poderia contar com a solidariedade de outra professora-com-cuja-matéria-ninguém-se-importa, ela me passa uma rasteira dessas. Penso em tentar o terceiro representante dessa categoria, o professor de Educação Física, mas essa é a única matéria na qual Zezinho passou fora Matemática. Decido fazer drama.

“Mas pessoal, é por isso que ninguém respeita professor de Inglês. Vocês tem noção do que é ouvir quase diariamente ‘Inglês reprova?’ Isso abala a autoestima da gente.”

A colega traidora não se comove:

“Ué, com Arte é a mesma coisa.”

“MAS INGLÊS É IMPORTANTE DE VERDADE, PÔ!”

Digo e na mesma hora percebo que foi um pouco demais. Todos me olham como se eu fosse a pessoa mais sem coração do mundo enquanto a colega começa a tremer o beicinho e ameaçar choro. No momento em que ela começa a verter lágrimas percebo que perdi a batalha. Mais um ano e Inglês não reprovou ninguém. 

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

A fé e o conselho de classe

A pedido da coleguinha Juliana, estou ressuscitando um post do meu blog antigo sobre conselhos de classe. As vezes bate saudade do cafofinho, então de vez em quando vou fazer um vale a pena ler de novo do saudoso Tia Paula vai à guerra.


Último período letivo é sempre o mesmo calvário. Haja reunião de pais, trabalho extra, plantão de dúvidas para tentar salvar do inferno da repetência aquelas almas que passaram o ano todo vagando pelo purgatório da recuperação paralela, sem se preocupar muito em descolar um lugarzinho no céu da aprovação. Porque a verdade é que não há sermão no mundo capaz de convencer alunos infiéis de que o caminho da vida eterna após as provas finais será bem mais agradável se for pavimentado por boas ações (e notas) ao longo do ano. Não. Eles parecem preferir a penitência de ir à escola em Dezembro.

Mas, eu disse “infiéis”? Injustiça. São, ao contrário, muito devotos. Creem numa instância superior, acima do bem e do mal, capaz de decidir se serão abençoados com o meio ponto que falta ou condenados a continuar na mesma série no ano seguinte. Tal instância chama-se conselho de classe. Este, ao contrário de Santo Expedito, não se comove com orações e promessas, ou alguém já viu por ai alguma faixa com os dizeres: “AGRADEÇO AO CONSELHO DE CLASSE PELA GRAÇA ALCANÇADA”? Melhor mesmo é apelar para o santo da causas impossíveis  Mas, com tanta criancinha doente pra salvar, algo me diz que nem ele vai dar jeito nisso. Haja vela!

Coisas para se fazer antes do fim do mundo

Esclarecendo que listei apenas as ideias que podem ser realizadas até dia 21, descartando portanto coisas óbvias do tipo "pegar o Clive Owen".

- Nadar pelada (quem já fez garante que é ótimo).

- Fazer uma listinha de pessoas para mandar tomar no cu. (E mandar, pessoalmente, por telefone,. por sms, pelo facebook, como der).

- Assistir Conta comigo pela 5464756238 vez.

- Gritar "VAAAAAAAAIIIIIII CURÍÍÍÍÍÍÍÍÍÍNTIA" na janela da vizinha mala que reclama de barulho toda vez que tem jogo.

- Pintar o cabelo de roxo igual ao da Kelly Osbourne (me deixem).

- Usar o short de paetê que eu comprei para o ano-novo. (é lindo, um desperdício o mundo acabar e ele ficar na minha gaveta).

- Terminar de ler A rainha do castelo de ar. (Não é de se espantar que o Stieg Larsson tenha morrido logo depois de escrever esse livro. Se ler já é um sofrimento, imaginem como foi escrevê-lo).

- Aprender a cantar Elle me dit sem errar.

- Comer baião de dois e tomar cachaça no Mocotó.

- Comer  torta de damasco e bacon e tomar chupitos no Sancho.

- Cantar Roupa Nova com a minha irmã. (Eu te amo e vou gritar pra tooooodo mundo ouvir...)

- Tomar a última cerveja num boteco qualquer desde que tenha mesa de plástico da Skol.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

Parte II - Marselha e Lyon

Depois de quatro dias em Barcelona rumamos para a França. Pouco mais de 1000 quilômetros até Paris, que resolvemos dividir passando uma noite em Marselha e outra em Lyon antes de finalmente chegarmos À capital.

Os catalães bem que nos avisaram sobre Marselha com aquela cara de "Aff, mas o quê vocês vão fazer lá, pelamor" e até que eles tinham razão. Num dia ensolarado e sem as obras e os tapumes bloqueando a praia Marselha talvez seja mais agradável, mas confesso que deixar a colorida Espanha e chegar numa França cinza e esburacada foi um certo choque.

Almoçamos em um restaurante no que deveria ser a avenida do porto (se desse para ver o mar atrás dos caminhões e das barreiras), numa cidade meio bagunçada e cheia de torcedores de um time turco (namorado disse o nome um milhão de vezes, não adianta, não lembro) que jogaria naquela noite contra o Olympique de Marseille. Acho que os turcos ganharam. Só mais tarde descobrimos que as vielas por trás dali escondiam lugares muito mais agradáveis, com bistrôs fofinhos, fontes e ruas de paralelepípedo. Faltou só o tiozinho com o acordeom, mas esse vimos bastante em Paris. Marselha se redimiu nos 45 do segundo tempo e deixou uma vontadezinha de voltar um dia no verão.


Uma tentativa de jantar a beira-mar 


Ignorem os óculos tortos e foquem no fundo fofinho.


 É um porto, gente, eu esperava o que? Ibiza?

Dia seguinte toca arrastar mala até Lyon, mas só depois de um desvio programado de umas três horas para almoçar na Suíça (me senti o Vitor Fasano, agora). Passei pouquíssimo tempo em Genebra, muito menos do que o necessário para formar uma opinião real sobre o lugar, mas a que ficou foi que a cidade é muito... suíça. Arrumadinha, limpinha, certinha como um relógio. Comi um fondue igual a quase todos os outros que já comi na vida em um restaurante de portugueses (pois é pois é pois é), tirei umas fotos no lindo lago Genebra e seguimos de volta para o território francês. A Suíça ganhou um check-in bobo no meu trip advisor e vai ficar em stand-by. Posso dizer que pisei lá, mas não que conheci o lugar.


Sim, o lago é uma lindeza só. 



Riqueza define

Primeiro momento "desculpa, sociedade": se eu soubesse que Lyon era tão legal talvez tivesse pulado Genebra para chegar lá mais cedo. O fato é que, dividida por dois rios, Lyon tem uma cara linda de cidade antiga, tradicional mas moderna ao mesmo tempo. Fizemos a "turistada" que deu tendo chegado lá as seis da tarde - seguindo a recomendação da recepcionista do hotel, subimos de funicular até o topo da cidade velha para dar de cara com uma vista deslumbrante. De lá fomos descendo a pé, curtindo as ruazinhas com restaurantes antigos e outros mais descolados, lojinhas coloridas, gente velha, jovem, todo mundo aproveitando a noite de sexta. Terminamos em um bar cheio de adolescentes, tomando um monte de chope (nos confundimos com o cardápio, achamos que era uma jarra e na verdade eram 10 pints) enquanto na TV passava uma vídeo-retrospectiva de aniversário da Fanny, que a julgar pela moça emocionada na mesa ao lado, já viu dias melhores.


Eu sei que está desfocado, sou cega não, mas é da câmera alheia e no momento é o que temos.






Tudo lindo assim mesmo.

Rolou todo um apego com Lyon. Como eu disse antes, sou dessas. Precisa de pouco pra me conquistar, sou facinha.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Parte I - Espanha

Namorado observou com bastante propriedade que tirei muitíssimo mais fotos de Valls que de Madri. Porque sou dessas.

Situada a cerca de uma hora de Barcelona, Valls não é exatamente o que se pode chamar de "Espanha profunda", mas com seus 20 mil habitantes e praças com restos de pedras que datam do ano de 1300 (a cidade, segundo meu sogro, nascido ali há 77 anos, data do ano 800), ela não deixa de ser um assombro para essa moça vinda de um país que acabou de completar 500 anos. A medida que nos afastávamos de Madri a paisagem ganhava contornos diferentes, com touros gigantes no alto das colinas, casas de pedra ao fundo, novas cores nas árvores amarelas que crescem à beira do caminho (avelãs, disse o namorado sem muita certeza). Na cidade, bandeiras listradas de vermelho e amarelo pendem das sacadas centenárias e nas placas e no rádio surge uma língua bonita e estranha cheia de tês e de ós. Uma filha rebelde do Francês  e do Espanhol, o Catalão é cheio de personalidade e, para mim, um mistério completo. Os nativos se esforçavam para falar castelhano perto da brasileira que não sabe nada da língua deles de verdade. Eu vejo que não fácil para eles e agradeço a atenção enquanto aprendo um bona nit aqui, um si us plau ali.

Tô mentindo não, olha o touro gigante aí.

 A praça com pedras de 700 anos

De Valls seguimos para Masmollets, um vilarejo com meia dúzia de casas de pedra e um restaurante no qual sou apresentada à calçotada. A calçotada é o tipo de coisa que você só vai comer se conhecer um nativo de lá, pois é servida exclusivamente ali, entre Novembro e Janeiro. Trata-se de um tipo de cebola cultivada na região de um jeito que a deixa comprida e fina, com um formato próximo ao de uma cenoura. Só cresce no frio. Ela é cozida na brasa e comida com a mão, retirando-se a casca e a mergulhando inteira em um molho especial. Chega à mesa em enorme quantidade, faz um sujeira danada e é deliciosa. Para acompanhar, vinho servido no purrón, uma jarra coletiva da qual todos bebem mirando o líquido que sai do bico fininho sem encostar os lábios no mesmo. Eu não me arrisco e fico com a taça. Come-se calçotada até não poder mais e em seguida ainda temos cordeiro, alcachofra, linguiça e butifarra negra, uma espécie de embutido feito com sangue (esse eu pulei). De sobremesa, crema catalana, a versão deles do creme brulée. É toda uma celebração em torno da comida que é bonito de ver. Eu como demais, bebo demais, e volto para o hotel com a sensação de ter participado de alguma coisa especial.

Masmollets

 Calçots esperando para ir para a brasa

Calçots prontinhos para ser comidos e o purrón no meio

Daí a coisa das fotos. Madri é linda, opulenta. Ela se coloca na sua frente como aquela coisa monumental e diz: "Me admire". Valls e Barcelona, para onde rumei no dia seguinte, por outro lado, te abraçam e dizem: "que bom que você veio, fique a vontade." E a gente fica.

Sempre fui fascinada pela terra de Gaudí e ela não me decepcionou em momento algum. Apesar de ter o arquiteto por todos os lados Barcelona é muio mais que as curvas e mosaicos que ele criou. É lindíssima, amigável, acolhedora. Não é aquela cidade na qual você tropeça em turistas por todos os lados (menos na Sagrada Famíla, claro), é um lugar para realmente entrar no clima dos moradores de lá. Deixar a câmera de lado um pouco e enxergar a cidade como só olhos (e não as lentes) conseguem. Comer tortillas de todos os jeitos, descobrir que misto-quente lá chama biquíni e andar, andar, andar muito. Barcelona merece que você veja cada pedacinho dela.

Momento "foto de turista" em La Rambla 

Daí você está andando e tropeça em Gaudí, esse lindo .

Sim, eu tiro fotos de gatos aleatórios. Esse estava na lojinha de cacarecos do parque Güel.

E Barcelona me deu o show do Mika num lugar pequenininho e cheio de adolescentes. Só por isso ela já moraria o meu coração pra sempre.

Dá um sorrisinho, bé, vamos ver o Mika daqui a pouquinho.

(L) (L) (L) (L) (L)

No próximo capítulo - França.