sexta-feira, 24 de julho de 2009

Deixem a Alice em paz!

Ao meu lado no ônibus senta-se um moleque de boné. Preparada para a viagem de uma hora e meia até Sorocaba, saco da bolsa um livro recém adquirido, grosso, com uma menina de vestido rosa estampada na capa dura amarela. Alguns segundos depois o moleque de boné pergunta: "É Alice no país da maravilhas?"
Se tem coisa que eu (oi, só eu?) detesto nesse mundo é conversar com desconhecidos no ônibus. Na tentativa de não dar muita trela, faço um sinal afirmativo com a cabeça e sigo minha leitura. O moleque insiste: "Pô, muito louca essa Alice, só nas drogas... E aquela lagarta fumeira?"
E aí eu me irrito genuinamente. Porque houve um momento, não sei exatamente quando, em que um infeliz com poucas sinapses viu as ilustrações de "Alice no país das maravilhas" (porque me recuso a acreditar que a pessoa em questão sabia ler) e chegou à brilhante conclusão de que o livro tinha alguma relação com drogas. E espalhou isso para o mundo inteiro. E desse dia em diante, "Alice" virou o livro preferido de maconheiros e noinhas em geral. Gente que nunca leu a história de Lewis Carroll anda por aí pregando que trata-se da descrição de uma viagem de LSD, que o chapeleiro maluco cheirava cola e que a lagarta estava era fumando maconha em cima do cogumelo. Pior - gente que leu o livro e sustenta essas merdas também.
Drogaditos, de uma vez por todas, ouçam a tia: a Alice não usava substâncias ilícitas. A Alice tinha dez anos de idade. Ela dormiu e sonhou com todos aqueles seres maluquetes e situações bizarras. Lewis Carroll era um cara genial, que fez nesse livro (e não só nele) jogos de palavras e desafios de lógica absurdos, fascinantes. O livro é muitíssimo mais do que só a estranheza que ele causa. E para aqueles que já estão salivando para ir aos comentários e mandar - ah, mas o Lewis Carroll era pedófilo! eu digo: não sei e não me interessa. A obra dele é muito maior que isso.

Termino com o trailer do filme do Tim Burton, que sai ano que vem. Não sei se gostei. Depois comento.
(Deixo o link, não consegui incorporar):
http://www.youtube.com/watch?v=EJd3EhLe6-Q

segunda-feira, 20 de julho de 2009

Chato "e eu"?

(post antigo reeditado a pedidos da coleguinha Bruna)

Depois de reler o post abaixo lembrei de um tipo de chato muito peculiar que vira e mexe atravessa nosso caminho. O chato “e eu?”. Eu poderia explicar o que é um chato “e eu?”, mas vou exemplificar com uma historinha do chato mais “e eu?” do universo: o Galvão Bueno. Todo mundo lembra o caos que o transporte aéreo virou nesse país logo depois do acidente com o avião da TAM em Congonhas, ano passado. Pois bem. Sendo questionado sobre o assunto, sr. Bueno comentou, indignado: “E eu, que pego três aviões por semana?”Sim, caros leitores. Centenas de pessoas tinham acabado de morrer num dos acidentes mais estúpidos na história da aviação desse país, e o Galvão Bueno estava era preocupado com o próprio umbigo. Isso é típico do chato “e eu?”. O problema dele sempre é maior que o dos outros. As histórias que ele tem para contar são sempre muito mais divertidas. Ele é incapaz de ouvir qualquer comentário sem replicar com as duas palavrinhas que o qualificam perfeitamente.

Uma amiga minha namorou um chato “e eu?”. Foi graças a ele que nos demos conta do quanto esse tipinho está disseminado por aí. Se eu chegasse toda feliz de uma viagem bacana e começasse a contar para ele como foi divertido, e tal, na primeira oportunidade o cidadão retrucaria: “E eu, que quando fui para Budapeste jantei no mesmo restaurante que o Bono Vox?”. O chato “e eu?” precisa sair por cima até quando a história é triste. Por exemplo, se você conta para ele que a sua tia está hospitalizada, teve um derrame, está mal e etc., ele fatalmente dirá algo do tipo: “e eu, que quase perdi um pulmão por causa de...”. O chato “e eu?” desconhece limites.

Preste atenção, caro leitor. Cer-te-za que você conhece um chato “e eu?”. Isso se não for um.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Maravilhas do mundo corporativo

Eu dou aula para o pessoal do marketing e da TI em uma empresa de telemarketing três vezes por semana. Como é sabido que telemarketing é um emprego desgraçado, que paga pouco, enche o saco e proporciona condições de trabalho aterradoras, a rotatividade de funcionários do, digamos, "baixo escalão" da empresa é enorme. Com isso, vira e mexe o pessoal tem que treinar hordas de novos coitados que permanecerão ali por, no máximo, um ano. O caso é que minhas aulas são no horário do almoço, invariavelmente em alguma sala de treinamento. O pessoal faz uma pausa e eu entro. Com isso, frequentemente dou de cara com cartazes de conteúdo "motivacional" confeccionados pelos "trainees" e colados nas paredes. A maioria inclui desenhos de árvores o bonequinhos com palavras do tipo: liderança, otimismo, entusiasmo, paixão e qualquer outro mantra de lavagem cerebral corporativa. Nem dou bola. Mas confesso que os cartazes dessa semana me intrigaram:




Em comum os dois cartazes têm as colunas: fácil de compreender, evidente e incrivelmente inteligente. Dentro de cada coluna os participantes escreveram coisas, sei lá, relacionadas a esses títulos (aparentemente os tais mantras corporativos e blá blá blá). Até aí eu nem tinha tentado entender a lógica do negócio. Mas agora eu preciso saber, coleguinhas:
Por que o pessoal do cartaz vermelho escreveu chapinha na coluna fácil de compreender, logo abaixo de alegria e educação? POR QUE?

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Mais bobagem

Esta manhã passei pelo oftalmologista para me consultar sobre a possibilidade de me livrar definitivamente dos quase sete graus de miopia que evoluem junto comigo desde os oito anos de idade. Conversamos, ela me encaminhou para os exames necessários e assinou uma receita para óculos novos - aparentemente os que eu uso agora têm grau extra do lado direito. Recomendou o óbvio - que eu esperasse o resultado da avaliação cirúrgica para encomendar lentes novas, visto que as bichinhas são caras e perderão a utilidade caso eu efetivamente seja operada.
Na saída, sou abordada por uma recepcionista que me pede a receita para carimbar. Em seguida se oferece para me encaminhar até a ótica da clínica (ó que conveniente!) para fazer o orçamento dos óculos.
"Eu não vou fazer óculos agora. Pretendo passar por cirurgia."
"Mas você sabe que o grau não zera né?"

Considerações sobre o argumento da moça:

a) É bom ter um parecer tão otimista sobre um procedimento cirúrgico dado pela recepcionista da clínica.

b) Agora os diplomas de ensino médio incluem especialização em oftalmologia?

c) Ah, tá, então a ótica é tão avançada tecnologicamente que desevolveu meios de prever o grau de miopia que vai me sobrar depois do procedimento?

Sério, se a quantidade de besteira que eu ouço diariamente fosse deduzida do imposto de renda eu teria restituições nababescas.

quinta-feira, 9 de julho de 2009

A antimoda

Férias, já viu. Lá estava eu assistindo televisão no fim da tarde. Descobri que a TV Cultura, para comemorar seus 40 anos, está reprisando programas "crássicos" da emissora e me peguei ontem vendo "Confissões de adolescente".
Entendam, coleguinhas: eu vivi aquilo. Li o livro, fui ao teatro, acompanhei religiosamente TODOS os episódios da TV. Adorava. E ontem, depois de muito tempo, testemunhei o programa com olhos de adulta - e continuei achando incrivelmente bom e engraçado, tirando as atuações sofríveis da maioria dos coadjuvantes. E não pude deixar de reparar no visual das personagens.
Ah, o começo dos anos 90... No começo dos anos 90 era aceitável andar por aí desabelada, cheia de frizz, com a jaqueta jeans do seu irmão e uma camiseta enfiada por dentro da calça baggy. Tudo bem usar um top tye-dye com a alça do sutiã preto aparecendo, ou combinar um vestidão florido com coturno marrom. Todo mundo andava na moda porque a moda não existia. Nosso ícone de estilo eram as roupinhas brecholentas da Kelly, do "Barrados no Baile". Não havia chapinha, escova progressiva, indiana, de chocolate ou de sei-lá-o-quê, nem tinturas miraculosas. O máximo que fazíamos no cabelo eram os topetões arrumados com presilhas gordinhas da Pakalolo. As mais corajosas arriscavam uma tintura com papel crepon ou mechas descoloridas em casa com água oxigenada e recoloridas com azul de metileno ou violeta genciana. A moda dos anos 90 foi a antimoda. Ninguém nos dizia o que podíamos usar ou não, e de qualquer maneira tudo tinha cara de mal feito, mal costurado, mal ajambrado. Éramos mal vestidas juntas. Éramos livres, felizes e estilosas.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Estas são minhas alunas

Uma delas é psicóloga e trabalha no RH de um grande banco. Estava toda simpática dando orientações finais a um funcionário novo quando solta a seguinte frase:
"Então é isso, fulano. Precisando de qualquer coisa é só nos procurar. Aqui no RH nós nem temos portas, estamos sempre de PERNAS abertas para os funcionários."

A outra é fisioterapeuta. Na época de estudante estava estagiando na neurologia de um hospital e precisava iniciar a reabilitação de um paciente paraplégico. Sem ficha na mão, quis fazer a descontraída: "Seu fulano, assim que a doutora terminar a avaliação a gente manda bala no tratamento!"
Cinco segundos para vocês adivinharem a causa da paraplegia do rapaz, coleguinhas.

Minhas alunas: me matando de orgulho desde 2005.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Mistério

Um amigo meu, companheiro dessa sofrida profissão de "tchítcher", me contou a seguinte história. Diz que estava corrigindo as provas de uma turma de pré-adolescentes quando o moleque perguntou se tinha ido bem, e completou:
"É que eu já repeti na Catequese, tchítcher... Se eu repetir no Inglês minha mãe me mata..."

Agora eu lhes pergunto, coleguinhas: o que nosso herói fez para repetir na Catequese?

- Na pergunta "Qual a data de nascimento de Jesus?" ele respondeu: 6/6/66?
- Apareceu na aula com uma cruz virada de cabeça pra baixo no pescoço?
- Confessou que bebe sangue de bode?
- Espiou por baixo da saia de catequista?
- Recusou uma visitinha íntima na sacristia?