quinta-feira, 30 de junho de 2011

Não tem graça

Eu sei que eu reclamo bastante das coleguinhas pedabobas que trabalham comigo, mas depois de ontem devo considerar que ando sendo meio intolerante e injusta.

Professora do quarto ano chega na sala com uma pasta e diz que vai ter uma aluna nova no segundo semestre. Aparentemente o pai não havia gostado de algumas provas que a professora do colégio antigo tinha aplicado e resolveu transferir a menina. Pensei "lá vem mais um pai superprotetor que acha que a culpa da sua cria ir mal na escola é SEMPRE do professor." Pensei. Até a minha colega puxar da pasta as tais provas, que por mim mereciam ser escaneadas com o logo da escola e jogadas no Facebook para quem quisesse ver, tamanha obra de arte.

Era um teste de história de múltipla escolha. Compartilharei aqui as perguntas que consegui memorizar, mas garanto que de onde estas saíram havia muito mais.

1- Quem descobriu o Brasil?

a) Shakira
b) Restart
c) Pedro Álvares Cabral
d) MC Catra
e) n.d.a.

2 - Como é o nome do Cabo que o navegador português Bartolomeu Dias dobrou em 1488?

a) Cabo da panela
b) Cabo da Tormenta (sic)
c) Cabo de correr na hora do recreio. (oi?)
d) Cabo da faca
e) Cabo da dor de cabeça. (oi? oi? oi?)

3 - Como era o nome do escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral?

a) Xuxa
b) Gugu
c) Beyoncé
d) Justin Bieber
e) Pero Vaz de Caminha

Sério. Quer, dizer, sério mesmo. Perguntar quem descobriu o Brasil numa prova de quarto ano já é nivelar a coisa por baixo, mas desse jeito beira a esculhambação. Beira não, chegou lá. Passou. E com assinatura da coordenação. Numa escola particular. Essa louca está lá, tem diploma e anda "educando" os filhos de muita gente.

Não consegui nem achar engraçado.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Colegas de trabalho reloaded

Estou abrindo e-mails na sala dos professores quando solto um comentário sobre a pouca credibilidade de uma empresa que me manda mensagens escritas em Comic Sans. Professor retruca:

"Por que? É minha fonte preferida, eu SEMPRE uso."

Pausa para digressão - como se já não fosse suficientemente ruim ter que explicar a um adulto porque ele não deveria escrever e-mails profissionais em Comic Sans.

"Não tem problema nenhum. Se quem recebe seus e-mails tem sete anos de idade."

"Ah, que besteira, a letra é tão bonitinha."

I rest my case. Esse povo trabalha comigo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Centro auditivo Telex

Sogro passou por uma cirurgia sábado. Coisa simples, mas sempre rola uma preocupação, né? Ninguém curte hospital, operação, UTI, essas coisas.
Daí depois da aula de sábado estou no ônibus rumo ao interior (onde sogros e namorado moram) e ligo para queridão para saber da cirurgia:

"Como está seu pai?"

"Ah, tá fodido."

Morro do coração: "COMO ASSIM NAMORADO?"

"Aaaaaaah, você perguntou do meu PAI? Meu pai tá bem, meu PÉ é que está fodido com duas unhas encravadas."

E depois a surda sou eu.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A quadrilha

Peço perdão pela insistência no assunto, mas andei fuçando meu blog antigo e achei que essa postagem merecia um "vale a pena ver de novo". Vão com fé, coleguinhas.


Junho chegou e trouxe com ele minha nova atribuição como professora do ensino fundamental – ensaiar a quadrilha. Festas Juninas e o que elas implicam em geral me causam profunda agonia. Só de ouvir um “cada cavalheiro com sua dama!” ou avistar uma barraquinha de pescaria já estremeço, suo frio e tenho dificuldade de respirar, sintomas advindos provavelmente de algum trauma de infância relacionado ao assunto. A festa junina era, para mim, de longe o momento mais humilhante do ano, por uma série de motivos:


a) Não sei dançar. Nunca soube. Quando criança, minhas incursões pelas maravilhas de tão nobre arte não passaram de uma catastrófica primeira aula de balé (da qual ainda conservo uma cicatriz no queixo como lembrança) e de uma foto ridícula vestindo polainas listradas e colant roxo no melhor estilo “Flashdance” para uma aula de jazz que nunca se realizou em vista de um ataque de pânico na porta da academia. Não que uma dança de quadrilha seja algo extremamente complexo, mas ainda assim envolve música e passos ensaiados, o que, para alguém com minha coordenação motora, já é um desastre. 


b) Sempre havia mais meninas que meninos em todas as minhas séries do ensino fundamental. Com isso, era inevitável que duplas de garotas se formassem para completar a quadrilha. Tendo eu sempre sido uma das mais altas da turma, mais de uma vez fui obrigada a fazer o papel do cavalheiro, coisa que pode parecer insignificante agora, mas que é obviamente uma tragédia quando se tem oito anos e não se é, exatamente, a garota mais popular da turma.


c) Usar um vestidinho de chita remendado já é terrível. Usar um vestidinho de chita remendado em Junho, pleno inverno paulistano, com uma meia calça opaca horrorosa que pinica é simplesmente insuportável. 


d) Festas juninas envolvem rifas. Rifas envolvem perturbar parentes, vizinhos e até desconhecidos vendendo bilhetes. Anti-social como eu era (era?), fazer as vezes de criança simpática para vender rifa de espremedor de laranja era uma verdadeira tortura chinesa. 


e) Eu sempre odiei milho, paçoca, vinho quente e todas as outras iguarias folclóricas. Passava a festa toda morrendo de fome e rezando para que aquilo acabasse logo e eu pudesse ir ao McDonald’s (tanto sofrimento tinha que ter uma compensação no final). 
Devo ser justa, entretanto. Agora adulta, consigo compreender o valor educativo da quadrilha. Ela não é apenas uma maneira que as professoras inventaram para se livrar das crianças durante alguns períodos do dia – ela é uma preparação para a vida adulta. Uma quadrilha pode ensinar valiosas lições sobre como, no futuro, as coisas serão muito mais cabeludas do que os pequenos inocentes podem imaginar. 


Humilhação pública: A vida de quando em quando nos colocará em situações tão vexatórias que a única saída digna seria a morte. Dançar de roupa remendada com os dentes pintados de preto e quem sabe até um coração colado no traseiro em frente a centenas de pessoas é apenas a primeira delas. 
Abuso de poder: Pois se existe uma coisa que certos chefes e alguns professores de Educação Física têm em comum é a leve desconfiança de que talvez Hitler tenha sido mal interpretado. 
Protecionismo: A filha da diretora que dança tão bem quanto o tio Julião depois de algumas cervejas se torna a noiva da quadrilha. A loira boazuda burra feito uma porta é promovida. Coincidência? Eu acho que não. 
Convivência forçada: Ensaiar durante um mês fazendo par com o gordinho que vive suando é na verdade um treino para futuras parcerias nada felizes, como dividir apartamento com aquela sujeita que só consegue dormir ouvindo Bruno e Marrone, fazer grupo de estudos com o cara que acha que “O Código da Vinci” é um clássico da literatura universal ou apresentar projeto com o fulano que, além de ter mau hálito, ainda dá em cima de você. 
Tolerância: Ou você acha que conseguirá passar ileso pela vida corporativa sem um sorriso forçado e um permanente ar de quem está achando o amigo-secreto de fim de ano divertidíssimo? Comece treinando na quadrilha. 
Frustração: “Olha a coooobra!” “Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!” “É mentiiiiiira!”. E os coitadinhos rebolando. 


A verdade é que, observando bem uma quadrilha, percebo que nem mãe Dinah seria capaz de tão fiel retrato do futuro quanto esta inocente manifestação cultural. No fim das contas todo mundo dança e quase ninguém sai feliz.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Da arte de se dar mal em festas juninas

Há duas coisas com as quais eu posso contar em Junho - minha rinite e as festas típicas. Sendo obrigada a trabalhar nas benditas celebrações do colégio todo ano, já adquiri certa experiência e sempre procuro maneiras de tornar a experiência o menos dolorosa possível. Se você, coleguinha, um dia for obrigado a trabalhar em uma festa junina, seguem aqui duas dicas valiosas de sobrevivência:

1 - A escolha do turno: Festa junina de colégio é dia de deixar a preguiça de lado e acordar cedo, pessoal. Sabendo que 99% delas acontecem aos sábados, é de se esperar que a família brasileira só acorde de verdade, se levante, arrume os filhos, coloque avó, cachorro e papagaio dentro do carro por volta das 11 da manhã, o que quer dizer a festa vai encher mesmo depois do meio dia, quando hordas de crianças famintas se dependurarão gritando no balcão de cachorro-quente. O primeiro turno, portanto, é o ideal.

2 - A escolha da barraca: Ainda que você tenha conseguido o turno da manhã, a escolha da barraca certa garantirá sua paz nas três ou quatro horas que você passará em pé ouvindo música sertaneja. Duas devem ser ignoradas logo de cara - a do churrasco e a do pastel. Motivo: não voltar para casa cheirando a feira livre. As barracas de comida salgada além disso costumam ser as mais procuradas, o que significa trabalhar bastante, última coisa que você quer fazer num sábado, não? Restam as bebidas, brincadeiras e doces. Analisemos.
Bebidas - também bastante procuradas, dão menos trabalho que a comida e não produzem odores. Basta abrir e fechar a geladeira. Podem ser uma opção em último caso.
Brincadeiras - nunca. Jamais. Em tempo algum. Nem considere se voluntariar para a pescaria ou a boca do palhaço. Você passará o dia ouvindo "tiiiiiiiiia", "tiiiiiiiia", "tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia", terá que consolar os ruins de mira que não ganham nada e convencer os mais ou menos que acertar uma bola só dá direito à saboneteira mesmo. Isso tudo e ainda se abaixar e se levantar centenas de vezes para resgatar bolas ou recolocar peixinhos. E reze para não ter prendas realmente boas na sua barraca - uma vez trabalhei a tarde em uma que tinha estalinhos. Não tive um segundo de paz.
Doces - convenhamos, quem come doce de festa junina? Criança não gosta de paçoca, pé de moleque, curau, doce de abóbora. A barraca dos doces é frequentada pelas avós, tiazinhas, gente calma, pacífica e que só vai aparecer lá uma vez. Parabéns, você descobriu a barraca perfeita.

Agora vejam a ironia da coisa, coleguinhas. Com toda esta experiência, eis que esse ano fui colocada no turno da tarde, no cachorro-quente. Antevejam o sábado que me espera e se compadeçam. Obrigada.