terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

Não é gourmet se eu consigo fazer em casa

Daí leio na Vejinha (onde mais?) a notícia da inauguração de uma pastelaria gourmet em algum bairro nobre aqui da capitar. Um dos itens do cardápio inclui um pastel de linguiça defumada com cogumelos e provolone. Diante da descrição dos ingredientes, sou obrigada a concordar com a colega (bem) mais entendida de cozinha que eu, a Ilá, que diz: "se eu consigo fazer em casa não é gourmet, pronto."

Aliás, qual a necessidade? É pastel. É gostoso, calórico, todo mundo ama e isso é tudo que eu posso dizer sobre ele. A dona Idalina, lá do bar do Luiz Fernandes na zona Norte, faz o melhor pastel de palmito do universo, recheio cremoso, massa sequinha. O de camarão leva purê de abóbora e catupiry. Melhor da galáxia. Vê lá se ela coloca no cardápio "pastel de camarão gourmet" e cobra 10 dinheiros por cada um? Claro que não. Dona Idalina sabe das coisas. Por acaso o pastel de pizza da Maria lá no Pacaembu (tomate temperado picado bem pequenininho, mussarela de primeira, puro amor em forma de fritura de imersão) leva um "gourmet" do lado?

Mas nããão. Na coxinholândia legal mesmo é pagar 15 reais num pastel porque tem champignon no meio e se sentir na obrigação de achar uma delícia porque né, custou 15 reais.Qual será o próximo passo? Churrasco grego gourmet, com file mignon e pimentões indonésios? Acarajé gourmet, frito no óleo trufado?

Por fim, o dono do lugar trabalhou 487 anos no Fasano. Amigo, você trabalhou 487 anos no Fasano e o máximo que conseguiu foi abrir uma pastelaria? Tá de parabéns. Agora deixem minha coxinha em paz, por favor.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quando Fevereiro chegar

Eu até devo ter passado por aquela fase pré-adolescente boboca que se acha melhor que todo mundo só porque descobriu o roquenrol e que por consequência detesta carnaval. Confesso que não lembro, mas pode ter acontecido. Fora estes dois ou três anos, o que eu posso dizer é que sempre amei a festa. Venho de uma família foliã, de primos que se vestiam de mulher atrás do bloco, mãe que fazia questão de costurar minhas fantasias, primas mais velhas que me levavam à matinê para garantir mais umas horas de bagunça, tio que passava a madrugada vendo e comentando o desfile na TV.

Pulei carnaval de clube, daqueles regados a muita marchinha e, mais na adolescência, axé.  Mais que isso, comi muito cachorro quente na saída e esperei o dia raiar na rua apenas porque "no carnaval podia".  Voltava para casa a pé, pendurada na minha irmã, levando pão e cumprimentando as tias que varriam as calçadas, coisa de quem morava numa cidade de 30 mil habitantes. O carnaval, aliás, é minha única lembrança boa dessa cidade.  Meu primeiro porre foi com bombeirinho num baile de carnaval, dei meu primeiro beijo atrás das coxias enquanto no palco rolava "Alô paixão, alô doçura." Fiz camisetas escrito "acho que vi um gatinho" na frente e "mas nem foi você" atrás e saí com as amigas pra levar litros de espuminha no cabelo. Já beijei um, já beijei dois, já beijei três em Ouro Preto. Encontrei o amor num carnaval.

Eu entendo quem não gosta, juro. Meu pai mesmo não curtia, sempre foi de ficar no canto dele, meio alheio à bagunça. Mas não condenava ninguém. Não fazia muxoxo quando alguém botava no desfile, não questionava a necessidade da minha mãe de costurar 1897 lantejoulas no meu bustiê de baiana, não passava quatro dias pregando a superioridade do rock sobre o samba. Não perdia tempo declarando que, oh, carnaval é coisa de desocupado, de país subdesenvolvido, é desculpa pra galera não trabalhar. Ele aproveitava para dormir até tarde, passar o dia inteiro de bermuda e chinelo e ler até o necrológio do jornal.

Acho que você já entendeu, coleguinha, que esse texto é pra você. Você que está lá no facebook classemédiasofrendo, reclamando do dinheiro que o governo gasta no carnaval, pregando que gente inteligente vai pro carnarock, fazendo slutshaming com quem está simplesmente exercendo sua liberdade de mostrar o corpo e beijar quem quiser não só no carnaval mas em qualquer época do ano.

Você não sabe o que está perdendo. E tem todo direito de continuar assim. Mas não é melhor que a galera que corre atrás do trio, assim, só pra te informar.