sábado, 29 de junho de 2013

Diálogos imaginários publicáveis

Dia desses, enquanto eu curtia um sushi de lula em um restaurante na Liberdade, o Laerte entrou com alguns amigos e se sentou à mesa ao lado da minha. Depois de todo "aimeodeosdocéo o Laerte está aqui do lado vou tomar um litro de saquê e falar com ele (corações)" que obviamente não aconteceu, fiquei imaginando como eu explicaria o Laerte para dona Pierina, filha de italianos nascida na roça há uns 100 anos, também conhecida como minha falecida avó.

Vó: Mas ele é homem?
Eu: É homem sim.
Vó: Por que ele se veste de mulher?
Eu: Porque ele gosta. Porque ele tem vontade de saber como é ser mulher.
Vó: Então ele é travesti.
Eu: Mais ou menos, vó, travesti é uma pessoa que se identifica com o sexo oposto, que se sente como alguém do sexo oposto. Ele só gosta de se vestir de mulher.
Vó: Mas ele gosta de... namorar homens, então.
Eu: Também, eu acho. Mas ele tem uma namorada. Uma mulher. Ele é bissexual.
Vó: Mas pode isso? Ou você gosta de homem ou gosta de mulher.
Eu: Pois é, tem gente que gosta dos dois.
Vó: No meu tempo não tinha isso.
Eu: Tinha sim, vó, só que as pessoas tinham que fazer isso escondido, e hoje elas podem contar pra todo mundo que fazem.
Vó: É, né?
Eu: É. Quer dizer, nem pra todo mundo, ainda tem uns imbecis por aí que acham que é doença.
Vó: Hoje em dia o povo acha que tudo é doença, né?
Eu: Pois é.
Vó: Mas me explica isso aí direito, Paulinha, pra ver se eu entendi - ele é homem, mas gosta de se vestir de mulher. Mas ele não quer ser mulher. E ele namora uma mulher que não liga dele usar saia e maquiagem. Mas ele já namorou homem também.
Eu: É mais ou menos por aí, vó.
Vó: E depois vocês dizem que velho é que complica as coisas, francamente...

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Manual do manifestante de facebook

Os protestos chegaram com tudo e prometem ser a grande onda desse inverno, junto com o fondue gourmet de queijo de cabra albina e a calça do Beetlejuice. Se você não quer ficar fora dessa mas não curte aglomerações ou mora em Conceição do Mato Dentro, aqui vão algumas dicas para mostrar sua revolta contratudoissoqueestáaí nas ~redes sociais~ e evitar blocks desnecessários.

1) Antes de compartilhar qualquer coisa dê uma pesquisada. Sua mão não vai cair, prometo. Existe um site maravilhoso chamado Google que te conta em segundos se aquela história da renúncia da Dilma saiu em algum veículo oficial de informação ou foi inventada pela gangue dos comentaristas de portal de notícia.

2) Aprenda um pouco de história. Só um pouquinho. Nem precisa ir longe não. Caso você seja muito novinho, rola perguntar para a sua mãe se nos anos 90 o Brasil era, tipo assim, a Suíça, antes de ficar postando que  o Lula foi o único que fodeu tudo.

3) Longe da tia aqui ser a paladina da norma culta na internet, mas montagem com erro de português tem grande chance de ser falsa. E ainda te deixa mal com os caléga.

4) Por último, e o mais importante. Nunca, jamais, em tempo algum  faça isso. O gigante acordado vai pegar seu cobertorzinho e chorar na cama de desgosto se der de cara com uma coisa dessas. O que, pensando bem, não seria uma má ideia.

#vemprarua

terça-feira, 18 de junho de 2013

Beijo para a vizinhança

Vocês sabem que meu condomínio é o puro creme do milho e amor no coração, né? Amo todos que moram lá, menos as crianças que berram na minha janela e os comentaristas do Facebook.

Como eu já contei antes, moro no térreo. Morar no térreo, apesar das crianças gritonildas, tem suas vantagens, a saber: um quintalzinho de 2 por 2 e uma vista para o gramado, o que é muito mais agradável do que uma vista para a marginal Tietê. O quintalzinho 2 por 2, aliás, recebeu recentemente uma cobertura daquelas tipo zetaflex.

Pois bem. A colocação da cobertura em si foi uma novela, reunião aqui, discussão ali e no final decidiu-se que não, o quintalzinho NÃO é área comum do condomínio e portanto cada apartamento do térreo poderia colocar a sua da cor que bem entendesse.

Namorado colocou - telhas transparentes com estrutura bege, da cor das paredes. Vizinho de muro colocou também - a dele com estrutura branca. Tudo lindo, todo mundo feliz com a cobertura até que...

Até que um desocupado filho de uma que ronca e fuça tirou lá do apartamento dele uma foto das coberturas lado a lado e foi enchouriçar no facebook - cadê a padronização, virou bagunça, mimimi... Galera comentando revoltada, é, ninguém respeita, que várzea, imagina na copa, aff. E eu me segurando pra não responder educadamente sugerindo ao autor da denúncia que fosse carpir uns bons lotes já que todos nós sabemos que esse sim é o grande mal que assola essa nação - a falta de lote pra carpir. Sei que a revolta do zetaflex não durou muito e logo o tópico da cobertura ficou soterrado debaixo dos pedidos de indicação de faxineira ou reclamações sobre o estacionamento.

Mas eis que essa semana desocupado se empolgou com as manifestações, que lindo, o Brasil acordou, u-hu e resolveu pendurar sua bandeirona na varanda. Recebeu uma belíssima notificação porque, oi, cobertura de cor diferente pode, bandeira na varanda não pode, tá no RI, cabô.

O que uma pessoa civilizada faria? Deixaria a bandeira lá mais uns dois dias só pra atazanar e depois guardaria o lábaro estrelado, certo? Mas claro que essa opção não válida para o desocupado. Desocupado resolvei usar do expediente que todo escroto usa quando é pego fazendo cagada: apontar a ~cagada~ dos outros. Foi lá e desenterrou o assunto do zetaflex.

Tô aqui contando até 10 para não mandar nêgo praquele lugar, sério. Só não faço porque sou fina. E porque o bom senso me diz que não é legal ter inimigos que sabem onde você mora. 


quarta-feira, 5 de junho de 2013

Piri piri piri pi pi piri

Canta aí Gretchen, sua linda:



Não, pera. Não é desse piri piri que eu estou falando e sim da bela e pacata cidade do interior de Goiás chamada Pirenópolis, mais conhecida pelos locais como "Piri". 

Foi lá que tu pegou o Guilherme Fontes, Sandy, adianta negar não.

Então, Pirenópolis. Em Pirenópolis não tem Santander (beijo, Santander), não tem caixa 24 horas e tinha eu e minha irmã com 50 reais pra passar dois dias. A primeira reação foi "ah, beleza, a gente passa tudo no cartão". Depois da terceira tentativa frustrada de comprar cerveja começamos a nos sentir numa dimensão paralela na qual escambo ainda é uma forma de comércio e bateu aquele mini-pânico, que se dissipou no quarto restaurante, esse sim equipado com uma abençoada maquininha da Cielo.  

Aceita AmEx? 

Em Pirenópolis tem uma pousada na qual o dono apenas não tinha se ligado que era feriado prolongado e nos alugou um quarto por uma noite só a preço de banana. 


O dono é desligado, mas é limpinho, recomendo.

Em Pirenópolis tem ruas de pedra e empadão goiano recheado com frango, batata e uma linguiça apimentada de brinde ali no meio. Tem um inglês muito louco que faz o melhor molho de salada do universo (segundo a minha irmã - eu trouxe um vidro fechado pra casa e ainda não provei). Tem cachaça, licor de Baru (uma castanha local) e bate-bolas (só que sem as bolas) pedindo um real e fazendo uma vozinha fina por todos os lados.

Lindeza


Tiro foto de comida, me julguem.

Tem cachoeiras com prainha, tem Antártica que no Centro-Oeste é melhor que Brahma, tem as cavalhadas que eu fiquei chateadíssima de perder por uma semana. Os bate-bolas, aliás, são na verdade uma sobra das cavalhadas, já que as crianças usam as máscaras do cavaleiros. Tem igrejas centenárias, quase bicentenárias. Tem hippies, muitos, como era de se esperar. E tem o sotaque delícia do povo dali, uma coisa meio mineira, meio nordestina. 

Brasil profundo (L)


Sô adventure ~risos~ 


Gostei de ti, Piri. Volto logo, prometo. 

Beijo do boi.

terça-feira, 4 de junho de 2013

O julgamento final

(Baseado em um conto de Somerset Maugham, The Judgment Seat)

O cenário se assemelha a uma repartição pública. Ao fundo, vê-se uma mesa na qual um homem digita sem parar em um computador velho. Vez ou outra ele dá tapas no monitor como que para fazê-lo funcionar melhor. Em sua mesa há também uma pilha de papéis, vários carimbos e um souvenir de Bariloche, daqueles com um pinguim dentro. A esquerda há um banco de madeira comprido no qual várias pessoas estão sentadas aguardando sua vez. Na ponta mais à direita estão duas mulheres e entre elas um homem. A mulher da esquerda aparenta ser mais jovem que o casal, mas os três têm uma expressão ao mesmo tempo cansada e apreensiva. Além disso, o homem e a mulher da direita estão molhados.

Na ponta do banco vê-se uma mesa maior, mas igualmente bagunçada. Atrás dela, um homem magro e calvo fuma impacientemente. Sobre a mesma, além dos papéis e carimbos, há uma plaquinha na qual se lê: "Deus". Diante da mesa está um filósofo, este de barba grisalha, vestindo um blazer de veludo marrom com cotoveleiras de couro.

Deus (para o homem de barba): Então você não acredita em mim? (irritado, para o homem na outra mesa) Ôôô Gabriel, tinha que mandar esse cara pra cá logo hoje que teve naufrágio? (aponta para o banco) Olha como é que está isso aqui! (volta para o homem de barba): Não acredita mesmo?

Filósofo: Não.

Deus (suspira e olha para cima, desanimado): Sabe, tipos como você sempre existiram, mas de uns tempos pra cá eles têm aparecido TODO santo dia. Estou pensando em criar um departamento especializado. (Entrega uma ficha para o filósofo) Faça o favor de preencher esta ficha com seus motivos para não acreditar em mim e depois de protocolar no quinto andar você volta, certo?

Filósofo (pega a ficha e lê em voz alta):Marque o código correto. Você não acredita em Deus porque:
01 Foi vítima de uma grande tragédia e acha que se Deus existisse você não teria passado por isso.
02 Odeia acordar cedo aos domingos e acha que o ateísmo é uma boa desculpa para não ir à missa.
03 Está indignado com a miséria e as guerras e acha que se Deus existisse não permitiria atrocidades como essas.
04 Decidiu ser ateu para posar de bad boy e faturar umas menininhas na escola católica.
05 Acha que religião é coisa de gente inculta, pobre e a atrasada que não tem mais o que fazer da vida a não ser rezar e assistir novela.
06 Outro. Explique.


Eu fico com 06. (Devolve a ficha para Deus sem preencher)

Deus (irritado): Cidadão, um navio naufragou e matou dúzias de pessoas. Tá todo mundo ali, ó (aponta para o banco) aguardando atendimento. Desse jeito eu não consigo fazer o meu trabalho e, acredite: não tem ninguém que possa fazer por mim.

Filósofo: Você nega a existência do Mal?

Deus (impaciente): Não, não nego.

Filósofo: Pois é. O Mal existe e você não pode fazer nada para evitá-lo. Portanto, não é (faz aspas com os dedos) "Todo poderoso".

Deus (acende um cigarro): Lá vem...

Filósofo: MAS... Se você PODE evitá-lo e não o faz, você não é infinitamente bom.

Deus bate a cabeça na mesa.

Filósofo (triunfante): Eu me recuso a acreditar em um deus que não é (aspas com as mãos) "Todo Poderoso" nem infinitamente bom.

Com o cigarro na boca Deus preenche rapidamente a ficha recusada pelo filósofo.

Deus: Você acha que foi o primeiro a se achar espertão e chegar aqui com estes argumentos? Devia te mandar pro inferno por falta de originalidade, mas ok. Motivos aceitos. Passa lá com o Gabriel (devolve a ficha) que ele carimba e já te manda pro limbo. Tem uma van saindo daqui a 15 minutos. Próximo!

O filósofo pega a ficha contrariado e senta-se em um banco próximo enquanto Gabriel atende outra pessoa. A mulher e o casal molhado se aproximam da mesa de Deus.

Deus: Os três de uma vez? Ótimo, agiliza o atendimento. (Deus observa a poça d'água que se forma sob John e Mary) Gabriel, pega um paninho pra secar essa coisa, por favor. (Olha para John e Mary) Vocês estavam no naufrágio, eu suponho...

John: Sim, Senhor.

Deus (para Ruth): E você, dona sequinha?

Ruth: Eu sucumbi de desgosto ao saber da morte do meu amado.

Deus: Vocês eram casados, então...

Mary(dando um passo a frente): Não Senhor, ele era casado COMIGO.

Deus (dando um sorrisinho sacana): Aaaahn, garanhão. Será que agora a coisa vai ficar animada por aqui?

John (ofendido): Senhor, por favor... Eu fui um marido fiel a minha vida toda...

Ruth (envergonhada): Nos apaixonamos, é verdade...

John: Como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Homero e Penélope...

Deus (impaciente): Tá, tá, corta. Então vocês dois nunca...

Ruth: Não, não, claro que não! Sou uma mulher decente e temente a De... ao Senhor! Eu jamais me envolveria numa relação pecaminosa com um homem casado. Ao contrário - escolhi dedicar minha vida aos outros (com uma ponta de orgulho) Eu cuidava de órfãos! Esqueci de mim, abdiquei de minha juventude e minha felicidade pelos pobres.

Deus (bocejando): E você, John...

John: Eu fui um bom marido, Senhor. Jamais abandonaria minha esposa ainda que isso custasse minha alegria. Eu também abri mão da minha felicidade em respeito aos valores morais.

Deus apóia os rosto na mão e cotovelo sobre a mesa. Está quase dormindo. Aponta para Mary.

Deus: E você não tinha idéia dessa história, imagino...

Mary (orgulhosa): Eu sabia de tudo, é claro. Mas aguentei calada até o final pois sou uma mulher cristã e o que De... o que o Senhor uniu, homem ou mulher nenhuma pode separar. Suportei a dor de saber que me marido era apaixonado por outra mulher porque sei que era isso que o Senhor esperava de mim...

Deus: Quer dizer que vocês três levaram uma vida de merda e estão descaradamente botando a culpa em mim? Tem graça!

John: Mas senhor... Nós estávamos apenas seguindo seus ensinamentos. Eu fui um homem bom... Eu poderia ter sobrevivido ao naufrágio se não tivesse tentado salvar minha esposa. No entanto...

Deus: No entanto... Imagine só que maravilha seria sua vida se ela tivesse morrido e você não. Você estaria livre dessa chata (aponta para Mary) e poderia se casar e ser feliz para sempre com essa... outra chata (aponta para Ruth).

Mary (indignada): Mas era dever dele como marido fazer de tudo para me salvar!Ainda mais tendo me feito sofrer como ele fez!

Ruth: Eu concordo com ela. Isso só prova que ele é o homem generoso e abnegado pelo qual eu me apaixonei.

Deus (rindo): Tá ouvindo, Gabriel? Quando esposa e amante concordam, é porque eu não posso fazer mais nada. (acende um cigarro)

John: Nós só estávamos sendo bons, senhor.


Deus (irritado): Bons pra quem, colega? Pra vocês mesmos é que não foi. (suspira) Olha, é um saco, isso. Vocês acham o que? Que foi fácil colocar o pessoal para escrever aquele monte de coisas? Foi um trabalho do cão! Séculos, milênios, pra quê? Pra nêgo ler de qualquer jeito e ainda interpretar como bem entende. Não sei por que galera acha que eu me preocupo tanto com essas coisas de sexo e tals. Tivessem prestado atenção iam ver que até simpatizo com uma certa... Irregularidade no assunto. Bando de gente burra! Se eu soubesse que ia ser assim, tinha prestado concurso pro Banco do Brasil.

O último comentário de Deus gera grande comoção entre os três, que começam a discutir entre si e com o Todo-Poderoso. Este, cada vez mais irritado, berra:

Deus: Chega! Acabou! Já deu! Chega aqui, filósofo!

O filósofo se aproxima. Deus aperta um botão vermelho sobre sua mesa. Imediatamente um alçapão se abre no chão e os três caem.

Deus: E aí? Sou ou não sou todo poderoso? Um botãzinho e puf. Livre o mundo desses infelizes. Fiz um favor à humanidade e isso prova que também sou imensamente bom. Gabriel, encerra por hoje que eu tô de saco cheio. Vamos tomar uma cerveja, filósofo?

Deus pega o casaco e sai de cena, seguido pelo filósofo. As luzes se apagam. Fim.