terça-feira, 4 de junho de 2013

O julgamento final

(Baseado em um conto de Somerset Maugham, The Judgment Seat)

O cenário se assemelha a uma repartição pública. Ao fundo, vê-se uma mesa na qual um homem digita sem parar em um computador velho. Vez ou outra ele dá tapas no monitor como que para fazê-lo funcionar melhor. Em sua mesa há também uma pilha de papéis, vários carimbos e um souvenir de Bariloche, daqueles com um pinguim dentro. A esquerda há um banco de madeira comprido no qual várias pessoas estão sentadas aguardando sua vez. Na ponta mais à direita estão duas mulheres e entre elas um homem. A mulher da esquerda aparenta ser mais jovem que o casal, mas os três têm uma expressão ao mesmo tempo cansada e apreensiva. Além disso, o homem e a mulher da direita estão molhados.

Na ponta do banco vê-se uma mesa maior, mas igualmente bagunçada. Atrás dela, um homem magro e calvo fuma impacientemente. Sobre a mesma, além dos papéis e carimbos, há uma plaquinha na qual se lê: "Deus". Diante da mesa está um filósofo, este de barba grisalha, vestindo um blazer de veludo marrom com cotoveleiras de couro.

Deus (para o homem de barba): Então você não acredita em mim? (irritado, para o homem na outra mesa) Ôôô Gabriel, tinha que mandar esse cara pra cá logo hoje que teve naufrágio? (aponta para o banco) Olha como é que está isso aqui! (volta para o homem de barba): Não acredita mesmo?

Filósofo: Não.

Deus (suspira e olha para cima, desanimado): Sabe, tipos como você sempre existiram, mas de uns tempos pra cá eles têm aparecido TODO santo dia. Estou pensando em criar um departamento especializado. (Entrega uma ficha para o filósofo) Faça o favor de preencher esta ficha com seus motivos para não acreditar em mim e depois de protocolar no quinto andar você volta, certo?

Filósofo (pega a ficha e lê em voz alta):Marque o código correto. Você não acredita em Deus porque:
01 Foi vítima de uma grande tragédia e acha que se Deus existisse você não teria passado por isso.
02 Odeia acordar cedo aos domingos e acha que o ateísmo é uma boa desculpa para não ir à missa.
03 Está indignado com a miséria e as guerras e acha que se Deus existisse não permitiria atrocidades como essas.
04 Decidiu ser ateu para posar de bad boy e faturar umas menininhas na escola católica.
05 Acha que religião é coisa de gente inculta, pobre e a atrasada que não tem mais o que fazer da vida a não ser rezar e assistir novela.
06 Outro. Explique.


Eu fico com 06. (Devolve a ficha para Deus sem preencher)

Deus (irritado): Cidadão, um navio naufragou e matou dúzias de pessoas. Tá todo mundo ali, ó (aponta para o banco) aguardando atendimento. Desse jeito eu não consigo fazer o meu trabalho e, acredite: não tem ninguém que possa fazer por mim.

Filósofo: Você nega a existência do Mal?

Deus (impaciente): Não, não nego.

Filósofo: Pois é. O Mal existe e você não pode fazer nada para evitá-lo. Portanto, não é (faz aspas com os dedos) "Todo poderoso".

Deus (acende um cigarro): Lá vem...

Filósofo: MAS... Se você PODE evitá-lo e não o faz, você não é infinitamente bom.

Deus bate a cabeça na mesa.

Filósofo (triunfante): Eu me recuso a acreditar em um deus que não é (aspas com as mãos) "Todo Poderoso" nem infinitamente bom.

Com o cigarro na boca Deus preenche rapidamente a ficha recusada pelo filósofo.

Deus: Você acha que foi o primeiro a se achar espertão e chegar aqui com estes argumentos? Devia te mandar pro inferno por falta de originalidade, mas ok. Motivos aceitos. Passa lá com o Gabriel (devolve a ficha) que ele carimba e já te manda pro limbo. Tem uma van saindo daqui a 15 minutos. Próximo!

O filósofo pega a ficha contrariado e senta-se em um banco próximo enquanto Gabriel atende outra pessoa. A mulher e o casal molhado se aproximam da mesa de Deus.

Deus: Os três de uma vez? Ótimo, agiliza o atendimento. (Deus observa a poça d'água que se forma sob John e Mary) Gabriel, pega um paninho pra secar essa coisa, por favor. (Olha para John e Mary) Vocês estavam no naufrágio, eu suponho...

John: Sim, Senhor.

Deus (para Ruth): E você, dona sequinha?

Ruth: Eu sucumbi de desgosto ao saber da morte do meu amado.

Deus: Vocês eram casados, então...

Mary(dando um passo a frente): Não Senhor, ele era casado COMIGO.

Deus (dando um sorrisinho sacana): Aaaahn, garanhão. Será que agora a coisa vai ficar animada por aqui?

John (ofendido): Senhor, por favor... Eu fui um marido fiel a minha vida toda...

Ruth (envergonhada): Nos apaixonamos, é verdade...

John: Como Romeu e Julieta, Tristão e Isolda, Homero e Penélope...

Deus (impaciente): Tá, tá, corta. Então vocês dois nunca...

Ruth: Não, não, claro que não! Sou uma mulher decente e temente a De... ao Senhor! Eu jamais me envolveria numa relação pecaminosa com um homem casado. Ao contrário - escolhi dedicar minha vida aos outros (com uma ponta de orgulho) Eu cuidava de órfãos! Esqueci de mim, abdiquei de minha juventude e minha felicidade pelos pobres.

Deus (bocejando): E você, John...

John: Eu fui um bom marido, Senhor. Jamais abandonaria minha esposa ainda que isso custasse minha alegria. Eu também abri mão da minha felicidade em respeito aos valores morais.

Deus apóia os rosto na mão e cotovelo sobre a mesa. Está quase dormindo. Aponta para Mary.

Deus: E você não tinha idéia dessa história, imagino...

Mary (orgulhosa): Eu sabia de tudo, é claro. Mas aguentei calada até o final pois sou uma mulher cristã e o que De... o que o Senhor uniu, homem ou mulher nenhuma pode separar. Suportei a dor de saber que me marido era apaixonado por outra mulher porque sei que era isso que o Senhor esperava de mim...

Deus: Quer dizer que vocês três levaram uma vida de merda e estão descaradamente botando a culpa em mim? Tem graça!

John: Mas senhor... Nós estávamos apenas seguindo seus ensinamentos. Eu fui um homem bom... Eu poderia ter sobrevivido ao naufrágio se não tivesse tentado salvar minha esposa. No entanto...

Deus: No entanto... Imagine só que maravilha seria sua vida se ela tivesse morrido e você não. Você estaria livre dessa chata (aponta para Mary) e poderia se casar e ser feliz para sempre com essa... outra chata (aponta para Ruth).

Mary (indignada): Mas era dever dele como marido fazer de tudo para me salvar!Ainda mais tendo me feito sofrer como ele fez!

Ruth: Eu concordo com ela. Isso só prova que ele é o homem generoso e abnegado pelo qual eu me apaixonei.

Deus (rindo): Tá ouvindo, Gabriel? Quando esposa e amante concordam, é porque eu não posso fazer mais nada. (acende um cigarro)

John: Nós só estávamos sendo bons, senhor.


Deus (irritado): Bons pra quem, colega? Pra vocês mesmos é que não foi. (suspira) Olha, é um saco, isso. Vocês acham o que? Que foi fácil colocar o pessoal para escrever aquele monte de coisas? Foi um trabalho do cão! Séculos, milênios, pra quê? Pra nêgo ler de qualquer jeito e ainda interpretar como bem entende. Não sei por que galera acha que eu me preocupo tanto com essas coisas de sexo e tals. Tivessem prestado atenção iam ver que até simpatizo com uma certa... Irregularidade no assunto. Bando de gente burra! Se eu soubesse que ia ser assim, tinha prestado concurso pro Banco do Brasil.

O último comentário de Deus gera grande comoção entre os três, que começam a discutir entre si e com o Todo-Poderoso. Este, cada vez mais irritado, berra:

Deus: Chega! Acabou! Já deu! Chega aqui, filósofo!

O filósofo se aproxima. Deus aperta um botão vermelho sobre sua mesa. Imediatamente um alçapão se abre no chão e os três caem.

Deus: E aí? Sou ou não sou todo poderoso? Um botãzinho e puf. Livre o mundo desses infelizes. Fiz um favor à humanidade e isso prova que também sou imensamente bom. Gabriel, encerra por hoje que eu tô de saco cheio. Vamos tomar uma cerveja, filósofo?

Deus pega o casaco e sai de cena, seguido pelo filósofo. As luzes se apagam. Fim.

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