segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A vida de Peppa

Tem a humana e o humano. O humano sai todo dia muito cedo, não dá nem tempo de ir lá deitar na cara dele para acordá-lo. Tem dia que a humana sai cedinho junto com ele, mas não é sempre. Eu prefiro quando a humana sai mais tarde porque rola um colinho e um sol na varanda.

A humana me dá comida, água fresquinha e limpa meu banheiro, então acho que ela gosta mais de mim que o humano. Mesmo assim eu espero o humano na porta quando ele volta porque o colo dele é bem gostoso e ele sempre brinca comigo, mesmo me chamando de fedidinha. Logo eu, que sou tão higiênica, humpf. Mas no fundo eu acho que o humano gosta tanto de mim quanto a humana, só tem esse jeitão mesmo.

Falando em nome, acho que o meu é Peppa porque é assim que eles me chamam quando estão bravos comigo ou me procurando. Mas a humana, principalmente, me chama de mais um monte de coisas: gatuxa, princesa, delicinha. Queria que ela se decidisse porque as vezes eu me confundo.

Tem uns lugares no apartamento que eu gosto muito, mas eles nunca me deixam ficar lá. Um deles é uma caixa cheia de panos fofinhos e quentinhos que eu já aprendi que se chamam cachecóis. Tem dia frio que eu queria passar inteiro nessa caixa, mas a humana sempre me tira de lá. As vezes eu entro escondida e ela fecha a porta do armário e não me vê. Pensa que eu mio? Fico é bem quietinha pra ela não me achar. Mas aí ela percebe que eu sumi e vai abrindo todos os armários até acabar com a minha festa e eu tenho que me contentar em dormir no cobertor azul que fica em cima da cama. Mas até que o cobertor azul é bom também.

De vez em quando outros humanos aparecem por lá. Tem uma humana que vai uma vez por semana e liga um troço muito barulhento, odeio. Parece que o mundo vai acabar. Neste dia eu me escondo muito bem escondida porque morro de medo desse negócio. Nem vou dizer onde é porque vai quela me acha. Tem também uma humana que a minha humana chama de mãe. Engraçado que a minha humana também se chama de mãe quando fala comigo, será que as duas tem o mesmo nome?

Minha casa é legal. Tem comida, água, colinho e cobertor. E os humanos até que são gente boa. Outro dia ouvi uma conversa de arrumar um irmão pra mim. Cês sabem o que é irmão? É de comer?

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Olha, amo muito viu?

Conversa na secretaria:

Eu: "Esse aluno que vocês estão falando é um que tinha a barba tipo a do Ruben Ewald Filho?"

Secretária: "De quem?"

Eu: "Rubens Ewald Filho, aquele crítico de cinema. Joga aí no google pra ver quem é."

Secretária: "Beleza... Pera... Eita, acho que tem um bandido com o mesmo nome... CREDO TEM FOTO DO CARA MORTO!"

Eu: "Oi? Acho que não, deixa eu ver a busca..."


rubisvaldo.jpg


Olha, amo muito, viu? De coração.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

As palavras do meu pai

Caso alguém não tenha lido a home da UOL hoje, o Zé Dirceu foi preso de novo em uma operação chamada Pixuleco. Porque não basta ir para a cadeia, ainda tem a humilhação de ser pego em uma operação batizada com o nome do irmão craqueiro do Fuleco. 

Essa história toda apertou um botãzinho aqui na minha memória. Porque Pixuleco era uma palavra do meu pai. 

Sim, meu pai tinha palavras que eram só dele. Pelo menos era assim que eu as encarava quando era criança porque ele era a única pessoa que as usava. Pixuleco era uma delas: era como meu pai se referia a pouco dinheiro. Uma coisa barata tinha custado "uns pixulecos". Se eu queria um sorvete ele dizia: "vê aí se tem uns pixulecos na minha carteira". 

Para o meu pai as pessoas não ficavam tristes: ficavam sorumbáticas ou macambúzias, o que é absurdamente mais sério do que estar só #chateada. E aos domingos, dia de passear no meu lugar preferido do mundo, a feirinha do Masp (sim, eu era uma criança esquisita), ele me acordava de manhã dizendo "Vai tomar banho, Paulinha, que hoje é dia de ver os numismatas e os filatelistas", embora as barraquinhas de moedas e de selos nunca tenham sido minhas preferidas. E para o seu Adelphi os lugares não ficavam longe: ficavam na casa do chapéu.

É engraçado ver uma palavra que pra mim era só dele por aí, na boca de todo mundo. É reconfortante. também. É como se um pedacinho dele tivesse voltado para me dar um oi.