terça-feira, 30 de junho de 2015

A irmandade do quilo

Eu sou professora de inglês e durante boa parte da minha vida trabalhei em 476 lugares diferentes ao mesmo tempo, o que significa que eu nunca tive um rotina para coisas básicas tipo: almoçar. Almoçava quando dava, onde dava, o que dava.

Hoje eu coordeno uma escola de idiomas e minha rotina ficou mais tranquila, então almoço todo dia no mesmo lugar, um quilo vegano a dois quarteirões da escola. Não sou vegana mas gosto de lá porque é barato, a comida é deliciosa e carne, ovo e laticínios não fazem muita falta na minha dieta, então tudo bem. E quando a gente almoça sempre no mesmo lugar e no mesmo horário parece que surge a ~irmandade do quilo~. No caso, do quilo vegano, o que traz ainda mais personagens para nossa confraria. Fazem parte da irmandade do Delícia Natural (sim, é esse o nome do restaurante) das 12h00 às 12h40:


- Os moleques com uniforme do colégio adventista que fazem um Everest de alface, tomate e cenoura no prato.

- As velhinhas que pegam um colherada de absolutamente TUDO que estiver no bufê.


- O casal hipster que bate altas DRs diárias. O moço guarda a mesa enquanto a moça se serve mesmo o restaurante estando vazio.


- As crianças do colégio adventista que pulam a salada e comem só macarrão e pizza. (Cês acham que vegano só come mato?)

- O gringo que escolhe cada folha de rúcula que vai colocar no prato como se a vida dele dependesse disso. Nunca fique atrás do gringo. Repito: nunca.



- A moça de cabelo super liso, super comprido e super preto que deve estar tentando converter a galera do escritório, pois cada dia aparece com um colega diferente.

- As professoras do ensino fundamental do colégio adventista que se sentam bem no cantinho para não ter que interagir com os alunos.

- A tiazinha que vai lá todo santo dia e ainda assim faz questão de perguntar o que é cada coisa quando não tem plaquinha.



- O homem que trabalha no banco e leva muito a sério esse negócio de irmandade do quilo porque outro dia faltou me abraçar na fila da Caixa Econômica.

- O professor de história do colégio adventista (Todos os adventistas são veganos gente? Me expliquem) que usa cachecol mesmo no calor e adora falar bem alto sobre como ele é idealista e vai mudar o mundo.

- A magrela que almoça sozinha, sempre repete a quiche de abóbora e nunca pula a sobremesa. (euzinha)

Acho que deveríamos elaborar um cumprimento secreto. Desses que só essa gente esquisita que não come carne, ovo ou laticínios conseguiria reconhecer.



segunda-feira, 29 de junho de 2015

O que aprendemos com a morte de Cristiano Araújo

*SPOILER ALERT*

Talvez não tenhamos aprendido nada, obviamente, porque a gente as vezes ~tem dificuldade~. E eu sei que já faz uma semana, desculpa gente, mas o Zeca Camargo foi lá desenterrar o morto e ao invés de fazer textão no facebook eu vim pro blog porque é pra isso mesmo que ele serve. 

Se você não está entendendo nada, o Zeca Camargo foi lá fazer textão nem sei onde pois nãoly e nemlerey, mas basicamente criticando a comoção nacional com a morte do rapaz e dizendo que o povo deve chorar por ídolos de verdade como a princesa Diana (HAHAHAHAHAHAHAHAHA meça sua referências de ídolo, parça), enfim. Mexeu num vespeiro, né? Foi xingado até umas horas e teve que ir lá fazer mea culpa no Vídeo Show. 

Vou contar um historinha: em 2012 eu estava de férias na Espanha. Liguei a TV do hotel e estava passando o Jersey Shore deles lá, o Gandía Shore. E nesse episódio o povo estava em uma balada e a música que estava tocando era o Bará bará bará berê berê berê. Eu nem sabia quem cantava isso mas sabia que era famosa, que tocava direto por aqui. E gringo adora essas coisas, né, vê o sucesso que Ai se eu te pego fez no mundo inteiro. 

Daí o rapaz tristemente morreu. E eu descobri que o Bará bará bará berê berê berê que fazia sucesso até na Espanha em 2012 era dele. E eu também descobri que ele era amado, idolatrado por milhares de pessoas e que o fato de eu nunca ter ouvido falar dele não mudava isso. A ignorante, no caso, era eu.

Na verdade então aprendemos alguma coisa sim, coleguinhas. Aprendemos que:

1) Não é porque você não conhece uma coisa que ela não existe
2) Não saber quem era Cristiano Araújo não faz de você uma pessoa mais culta ou mais legal
3) Tem gente se orgulhando de não conhecer nenhuma música do cara mas segue aí firme e forte ouvindo Velhas Virgens.
4) De repente o burro é você, né? 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Reminiscências

Ontem tinha um hippie tocando Gita no túnel da Lapa e eu lembrei do meu padrinho, o tio Valério.

O irmão mais novo do meu pai.
O único da família que usava óculos além de mim.
O tio que falava inglês e que me fez querer falar inglês também porque eu achava aquilo simplesmente mágico.
O tio que me apresentou Asterix e Tintin para me fazerem companhia nos dias de chuva nas minhas férias em Santos.
O tio que gostava de Raul Seixas e não sei por quê minha memória registrou especificamente "Canceriano sem lar" e uma versão em inglês de Gita.
O tio que tentou me ensinar a jogar xadrez.

O tio que está tão longe mas que se tem uma coisa que fez nessa vida foi dar um check em praticamente todos os itens da lista de "como ser um tio massa."


sexta-feira, 12 de junho de 2015

A cozinha da ~firma~

Mais uma vez o querido Felipe me inspira a fazer meus posts. Apareçam lá no blog dele para dividirmos a audiência, pfv. Foi graças a um post dele sobre um briga por causa de uma Becel mais minha experiência pessoal que cheguei à conclusão de que cozinha de ~firma~ dava praticamente uma sitcom. Ou uma séria de mistério, depende do ponto de vista.

Cozinha de ~firma~ Episódio 1
Quem comeu meu requeijão?



O requeijão e a margarina costumam ser mesmo itens de ninguém na geladeira da firma. O cara tá lá, comprou um pão francês, vê a Becel de bobeira e pensa: "só um pouquinho, ninguém vai perceber." O problema é que o cidadão faz isso todo dia, o que faz com que a margarina acabe duas vezes mais rápido do que normalmente acabaria. Sim, o dono vai perceber, colega. E roubar margarina está previsto como conduta irregular no manual da firma.


Cozinha de ~firma~ Episódio 2
Quem almoçou comida fedida? 



Daí você, que almoça mais tarde, chega na cozinha lá pelas duas horas e é recepcionado pelo cheiro da morte. O lixo está vazio, nenhum animal desencarnou no recinto nas últimas duas semanas, ou seja: saiu da marmita de alguém. Você poderia até se perguntar quem no universo comeria alguma coisa com aquele cheiro, mas está ocupado demais sobrevivendo no momento.


Cozinha de ~firma~ Episódio 3
Quem fez pipoca de queijo no microondas?



Quatro da tarde, você aparece para tomar um cházinho e encontra a cozinha cheirando a um pacote de cheetos. Sim, alguém decidiu que seu lanche da tarde seria uma deliciosa pipoca de microondas sabor queijo. Chame um pai de santo, porque esse odor só sai com sessão de descarrego.


Cozinha de ~firma~ Episódio 4
Quem lava a louça igual ao nariz?



No seu primeiro dia de trabalho, durante o tour pelas instalações da firma, seu guia já avisa: "Aqui é a cozinha. Quando vier almoçar não pegue talheres direto do escorredor porque tem alguém aqui só bate uma água na louça suja." Por via das dúvidas, traga seus talheres.


Cozinha de ~firma~ Episódio 5
De quem é o tupperware aniversariante?




Todo mundo conhece aquele tupperware. Está na terceira prateleira, atrás do requeijão do chefe, desde antes da Copa. Desconfia-se que o dono nem trabalha mais lá, mas por via das dúvidas ninguém mexe pois provavelmente seria necessário chamar a vigilância sanitária depois.


Cozinha de ~firma~ Episódio 6
Quem vai almoçar com o chato do RH?




Acontece. Você se programa direitinho, fica só de olho para ver que horas ele vai subir, espera ele voltar. Mas tem dias em que não dá: um reunião que se alonga, um pepino para resolver e quando você resolve almoçar, lá está o cara do RH que acredita em heterofobia e compartilha Revoltados on line no Facebook. O jeito é fingir que só foi tomar uma água e voltar mais tarde porque a vida é muito curta para dividir mesa com gente que curte a Rachel Scheherazade.


E esta foi a primeira temporada de "A cozinha da ~firma~" Agradeço pela audiência e aguardem nosso spin off : "O banheiro da ~firma~"


terça-feira, 9 de junho de 2015

Culinária-ostentação

Ontem eu estava voltando do almoço e passei na frente da Mundo Verde (uma rede de lojas de produtos natureba), como faço todo dia. Eu sou mega-natureba mas tenho pavor da Mundo Verde porque ela vende coisas caríssimas que a gente pode comprar por um terço do preço a granel no mercadão da Lapa (esse sim amor verdadeiro, amor eterno) e porque as vendedoras de lá tem cara de quem está permanentemente com hemorroidas. E ontem, na lousinha de ofertas da Mundo Verde eis que eles estavam anunciando um chá "detox-gourmet". Quase bingou a cartelinha das palavras sem sentido: faltou "glúten-free", "orgânico" e "sem lactose". Ou seja, tão gourmetizando até cogumelo do sol.

Falando em gourmetizar, Domingo fui a um desses estabelecimentos que tá pouco em São Paulo, tem que ter mais: um mercado chique-gourmet-diferenciado, o famoso Eataly.

Tinha fila para entrar. Num mercado. Vocês leram direito coleguinhas. Fila.para.entrar.num.mercado.

Galera, deixa eu contar uma coisa pra vocês: cês tão em São Paulo. Cês tão num dos maiores centros gastronômicos do mundo. Essa coisarada que vende aí no Eataly já deve vender há um tempão nos empórios e mercearias chiques da cidade, carece fazer fila só porque o lugar é de grife não.

Entrei, andei, tudo lindo e tudo caro e eu que sou natureba já não me impressiono mais com essas coisas de culinária-ostentação. E olha que eu gosto de comer. A gente queria almoçar, mas nos restaurantes dentro do Eataly as filas eram de uma hora e meia no mínimo. Naqueles que ainda tinham comida, porque duas horas da tarde do Domingo o moço já anunciava que a massa tinha acabado, só pizza agora. E eu acho que há certas regras com comida que simplesmente não podem ser quebradas: pizza só no jantar e fria no café da manhã. Almoçar pizza deve ser considerado pecado em alguma religião.

Desistimos. Passamos no caixa com um pacote de macarrão cada um e seguimos para um rodízio árabe sensacional lá Vila Madalena. Obrigada, falecida Mama Leila, saímos rolando e felizes de seu estabelecimento. Comemos muito melhor que um pratinho de massa de 50 reais.

Pelo fim da culinária-ostentação. Por mais Mamas Leila nessa cidade.