segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Tensão entre as partes


O texto a seguir foi escrito no longínquo 2006, no meu primeiro blog, hoje desativado. Ressuscito o mesmo aqui para celebrar o dia dos professores, meus colegas que além dos parabéns merecem um milhão de reais porque não tá fácil pra ninguém.

Suspiro dolorosamente. Depois de quatro horas com a segunda série, chego à conclusão de que, no fundo, a bruxa da história de João e Maria foi incompreendida. Afinal, a pobre mulher constrói a casa dos seus sonhos, toda de doces, para que um dia surjam dois pestinhas esfomeados e acabem com ela? Forno neles! E aposto que os irmãozinhos alemães seriam praticamente crianças de internato suiço perto dessas aqui, que nesse momento se ocupam colando no rosto umas das outras os adesivos que deveriam estar no livro. 

Procuro uma alternativa: mostro a eles meu material, para que vejam como ficou bonito com os adesivos coloridos todos nos lugares certos, mas é inútil. Grudar animais na testa dos colegas é obviamente muito mais divertido. Quando Matheus 2, o gordinho que vive de uniforme sujo, solta um berro agudo e contínuo porque Matheus 3 assoou o nariz em sua camiseta, chego a considerar a focinheira. Infelizmente, creio que métodos educacionais tão revolucionários ainda encontram certa resistência da parte de alguns pais conservadores. Me contento em dar um rolo de papel higiênico a Matheus 3 e mais uma cartela de adesivos a Matheus 2, que milagrosamente se cala e em seguinda enche o cabelo da garotinha da frente, que chorava copiosamente, com carinhas amarelas felizes. Prefiro acreditar que ele tentou alegrar a menininha. O papel higiênico se mostra uma tática igualmente genial: Me distraio por dois segundos separando uma briga e o rolo se torna artilharia pesada na guerra de cuspe que estourou no fundão. Já há baixa de cinco crianças quando consigo intervir, operação que demanda certa logística, uma vez que preciso me arrastar entre as carteiras para evitar ferimentos mais sérios advindos de uma bola de papel molhado bem colocada. Quando chego, quase ilesa (salvo uma tampa de caneta no olho), ao foco da batalha, sou cercada por uns vinte soldadinhos, todos com comunicados importantíssimos provenientes do QG:

"Tropas inimigas às 10 horas!"

"Baixa na trincheira 8!"

"Soltei um pum!"

"O Lucas 5 cortou meu cabelo!"

"O Caio está comendo cola!"

"A Talita não sabe amarrar o sapato!"

Me pergunto quem foi que disse que essas crianças têm que ir à escola? Aqui definitivamente não é o lugar delas. Deveriam estar no circo,no zoológico, ou no exército, locais que certamente contam com profissionais mais qualificados para lidar com situações desse tipo.

_ Bem, é para isso que elas vão à escola.- Argumentaria alguém.- Para se civilizar.

Pobre desavisado! Ignora o fato de que não há lugar menos indicado para ensinar a um pequeno a arte de viver em sociedade. A sala de aula é o próprio Vietnã, ou pior: Ambiente opressor, desconhecido, cheio de criaturas que surgem do nada dispostas a se degladiar por, sei lá, uma caneta que brilha no escuro.

Ouço um palavrão. Enquanto me ocupo limpando as crianças atingidas na terrível batalha de cuspe, um tênis passa voando a uma distância perigosa da minha cabeça, acertando em cheio a caixa de duzentos lápis de cor da menina da primeira carteira. Esta começa a chorar convulsivamente enquanto, no fundão, alguém grita:

"Tia, o Thomas falou bunda!"

Diante da menção da palavra proibida a sala vem abaixo. Os gritos histéricos provenientes de manifestações de apoio ou repúdio a tão desprezível vocábulo tomam conta do ambiente, e quem passa do lado de fora imagina que uma centena de rebeldes se apossam da classe nesse momento. “Bunda”! Isso é o melhor que você pode fazer? Conheci menininhas de primeira série capazes de proferir palavrões que fariam corar um caminhoneiro!

Competir com os gritos é inútil. Eles são trinta e dois e eu, apenas uma, exausta, descabelada, prometendo sair dali direto para uma clínica de esterelização. Mas como não pensei nisso antes? A psicologia reversa é a solução. Sento-me atrás da mesa e aguardo, em silêncio, que eles prestem atenção em mim. Afinal de contas os pequeninos são razoáveis. Não estou tratando com insurgentes iraquianos, mas com crianças espertas e absolutamente capazes de compreender que, em determinado momento, terão que se calar e acatar minhas ordens sem dar um pio. O barulho aos poucos vai se dissipando, acendendo em mim a esperança de que, com sorte, em mais duas horas conseguirei passar a lição de casa.

"Tia, o Thomas falou bosta!"

Monstrinhos! Em três segundos o quase silêncio que levou uma hora para ser estabelecido se retira como uma tropa derrotada e me abandona no meio da trincheira tomada, ferida, indefesa e a mercê de trinta e duas almas que, tão jovens, não têm mais salvação. Agora entendo que as janelas tipo basculante não são apenas fruto de uma arquitetura sacana que pretende matar professores e alunos sufocados pela falta de ventilação. São também uma maneira eficiente de impedir defenestrações, voluntárias ou não, de mestres e pupilos. Estou a ponto de me render, quando um som que só pode ter vindo dos céus anuncia o cessar-fogo e reestabele em mim a fé – o sinal que indica o fim da aula, e que traz com ele as tropas aliadas: As inspetoras de corredor. Os pestinhas se enfileiram como prisioneiros de guerra para seguir as abençoadas mulheres que os manterão afastados de mim pelo menos até amanhã. No caminho um deles, como num tratado de paz, me dá um bombom. Não são uns anjos esses meus alunos?

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

O mistério do 875-C

Eu moro na Lapa e dou aula diariamente na Faria Lima, o que significa que o 875-C, também conhecido como Lapa-Metrô Santa Cruz pelos não íntimos é meu companheiro de todas as manhãs. Eu gostaria menos dele se o pegasse no meio do caminho, porque ô ônibus para ficar cheio, mas como pego no ponto inicial vou sentada tranquilinha ouvindo minha música ou terminando o último livro da trilogia Millenium (um beijo literatura recreativa), então tudo bem.

Mas tem uma coisa que me intriga no 875-C, e são seus passageiros. Porque seus passageiros tem uma atração especial pela porta de saída do mesmo. Isso não é novidade, pensarão vocês, afinal, usuários de transporte público parecem mesmo se sentir compelidos a se instalar nos lugares onde causarão o maior transtorno possível, mas no caso do 875-C a coisa tomou proporções assustadoras. A ponto de o coletivo estar completamente vazio (com assentos disponíveis, inclusive) enquanto a galera se espreme de pé lá no fundo, mesmo que vá descer muitos pontos adiante.

Eu lhes pergunto, coleguinhas: por que? O que leva aquelas pessoas a rodear e se agarrar à porta de saída como se ela fosse uma tábua de salvação? Como se ela fosse a garantia deles para o reino dos céus?

Eu pensei em uma explicação possível. Eles tem medo de perder o ponto. Mais do que medo, eles tem uma verdadeira fobia de não conseguir desembarcar e serem condenados a passar toda a eternidade fazendo o trajeto Lapa-Metrô Santa Cruz. Aquele velhinho que senta no fundo do ônibus das 7 todo dia, por exemplo, perdeu o ponto na Joaquim Floriano em 1983 e hoje mora ali naquela assento. A família procura por ele até hoje e nem desconfia que ele foi tragado pelo 875-C. Milhares de paulistanos dados como desaparecidos nos últimos anos na verdade apenas não conseguiram descer do ônibus no ponto certo.

Só pode ser, gente.