quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Vida de busão

Lá estou eu no Aeroporto-Perdizes em direção à minha segunda jornada de trabalho quando o coletivo foi parado por dois policiais. Os mesmos embarcaram no ônibus e começaram a fazer perguntas:

"Está tudo bem por aqui?"

"Ninguém deu falta de um celular nem nada?"

Fuçam daqui, fuçam dali, acabaram abordando um rapaz e achando cinco celulares na mochila dele. Desceram com o fulano e a viagem seguiu.

O moço atrás de mim resolveu fazer discurso para a pobre da tiazinha ao lado dele. Aquela coisa de "a polícia é truculenta e blábláblá... acho que o rapaz nem fez nada e blábláblá... porque o Brasil está crescendo às custas deles (o rapaz era peruano) e blábláblá..." da Consolação até Perdizes. Tiazinha interagindo com o clássico "é complicado..." e o sujeito não calava a boca. Perto do meu ponto me dirijo até a porta a tempo de ouvir:

"A SENHORA DEVERIA LER UM TEXTO DO FOUCAULT..."

Quase lamentei ter que descer ali. Não é todo dia que a gente topa com cidadão mandando pobres tiazinhas lerem Foucault no transporte público.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A lesma e a aula de inglês.

Dando aula para o segundo ano. Calor matando suavemente, molecada agitada por conta da feira de Ciências amanhã, tudo muito lindo. Após um esforço hercúleo para fazer todo mundo ficar quietinho e terminar o exercício paro para respirar um segundo. E não consigo.

"TIIIIIIIAAAAAA!!! OLHA LÁ NO TETO!"

Olho. E vejo uma lesminha verde, do tamanho do meu dedo mínimo, se arrastando preguiçosa pelo teto. Bem em cima da cabeça da menininha mais chata e gritonilda da escola.

"ELA VAI CAIIIIIIIIIIR!"

"Não, fulaninha, não vai. Termina a lição."

Ela não termina. Ao invés disso, fica olhando fixamente para o teto esperando qualquer movimento do pequeno gastrópode para soltar um guinchinho de desespero. As coleguinhas do lado, tão pequenas e já tão maléficas, resolvem se divertir às custas da chatinha e começam:

"Vish, fulaninha, descolou um pedaço da lesma!"

"TIIIIIIIAAAAAAAAA!"

"Vai cair já já, bem na sua cabeça!"

"TIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAA!"

"Se grudar no seu cabelo vai ter que cortar!"

"TIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!"

Mudo miss gritonilda de lugar. É tarde. A comoção pela lesma já tomou conta da sala:

"Tia, a gente pode jogar sal nela?"

"Claro que não, coitada da bichinha, não fez mal pra ninguém. Aliás, quem aqui sabe como se diz lesma em inglês?"


"Mas é nojeeeeeento."

"Eu já joguei sal em lesma. É engraçado."

"Ninguém vai jogar sal na lesma, pronto!"


"TIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAA, ELA ESTÁ VINDO PRA CÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!"

"AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!"

Desgraça de lesma que se instalou no teto. Na parede estivesse, eu teria dado um jeito de despejá-la no jardim a bordo de uma folha de sulfite. Respiro fundo.

"Chega desse assunto de lesmas. Ela não vai cair, ela não é nojenta, é só um bichinho como qualquer outro. Quem quer brincar de forca?"


"EEEEEEEEEEEUUUUUUUUUUUU!"

"Já pensou um ataque de lesmas pela janela?"

"TIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!"









Essa é minha vida. Esse é meu clube.