terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O povo do centrão

Estou lá tomando meu café no balcão de uma lanchonete no Copan. Um senhor bem vestido, de calça chino, camisa polo e óculos escuros entra no recinto e, apontando para uma das três formas de pizza vazias dentro da estufa de salgados, pergunta, muito sério:

"Essa pizza aqui é de quê?"

Ao que a moça responde, com a maior naturalidade do mundo:

"É de vento com água. É a mais gostosa daqui."

Quase perguntei se ela tinha colocado alguma coisa no meu expresso, juro.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Eu confesso

Amiga Bruna Maria está de mudança e, ao chegar na parte de encaixotar os calçados, se questionou de onde teria saído tanto mau gosto. A amiga Bruna Maria, vale ressaltar, já foi um dia a feliz proprietária de uma bota decorada com motivos andinos (não encontrei uma foto mas imaginem um retalho de poncho peruano costurado numa bota de camurça marrom) e de um par das famigeradas botas de rave, mais conhecidas como "quebra pé". Estes tempos passaram, mas diante do desgosto dela com seu armário de sapatos, devo concluir que alguns remanescentes desta época obscura ainda dividem espaço com itens mais aceitos socialmente.
Mas vejam, quem sou eu para falar alguma coisa? Quando o assunto é moda, carrego comigo uma lista de crimes inafiançáveis cometidos em nome de algo que eu equivocadamente chamava de "estilo". E hoje decidi limpar minha consciência e expor aqui minha ficha corrida.
Eu, Cheshire Cat, confesso diante deste tribunal que já usei:


  • Bota branca depois de adulta.
  • Jaqueta de napa combinando com a bota.
  • Moleton do Piu-piu.
  • Top de biscat daqueles que só tem um fiozinho nas costas.
  • Mocassim de bolinha na sola da 775.
  • Cinto fininho rosa bebê combinando com a sandália.
  • Jaqueta jeans com calça jeans.
  • Bolsa de crochê.
  • Calça baggy em 1998.
  • Sandália dourada de amarrar na perna (Globeleza feelings).
 E, por fim, o HORROR! O HORROR!
  • Calça de poliéster.
Podem me declarar culpada e aplicar a punição cabível. Eu mereço. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

33

Quando eu tinha 13 anos, como todo mundo, eu gostava de imaginar como seria minha vida em tão distantes 20 anos. Estaria casada com o Joey McIntyre? Teria filhos? Conheceria a Europa? Teria finalmente aprendido a usar um abridor de latas? Ficava pensando em como seria bom se tudo estivesse completamente diferente porque olha, confesso, meus 13 anos não foram fáceis não (os de alguém foram?). Eu era tímida, intolerante e solitária. Tinha uma auto estima do tamanho do Nelson Ned e aquele péssimo hábito de me apaixonar pelos meninos cabeludinhos mais velhos que não estavam nem aí para mim. Não sabia me pentear nem me vestir e morria de vergonha das minhas pernas finas. Teria sido bom naquela época ter ouvido uma palavra de apoio, ter alguém me garantido que ia melhorar. Se eu pudesse escrever uma carta para mim aos 13 anos, ela seria assim:

Oi Paula, tudo bem por aí? Ok, é uma pergunta retórica, já estive "por aí" e sei que tá fácil não. Eu aqui em 2011 até que estou bem. Não me casei com o Joey, mas olha, tudo bem porque taí um cara que envelheceu mal, viu? Aliás, daqui a pouco você vai descobrir que gastou muitos cruzeiros reais com essa tranqueirada do New Kids on the Block e eles nem eram tão legais assim. Se bem que diante das opções de hoje, os caras eram gênios. Na verdade eu não me casei com o Joey nem com ninguém, mas depois de alguns corações partidos e uma período de vacas magras conheci um cara incrível, bonito, engraçado, adorável,  que me ama e que me faz cada dia tentar ser uma pessoa melhor. E isso é tudo que a gente precisa mesmo nessa vida: ter alguém por quem ser melhor.
Os filhos ainda não vieram também. Talvez venham. Talvez não, esse tipo de pressão não me incomoda nem um pouco, mas acho que isso você já sabe. Aprendemos muito cedo a lidar com o peso que é não ter opiniões iguais às da maioria.
Eu ainda não fui à Europa, mais por medo do que qualquer coisa. Se eu pudesse mudar alguma coisa, inclusive, diria para você não ter medo de nada. Mais: diria para você não deixar nunca que alguém diga que você não consegue. Isso é um puta clichê mas a verdade é que a maioria das decisões idiotas que a gente toma na vida tem a ver com esse "você não consegue". De qualquer maneira, a Europa está lá, as passagens estão baratas e eu não tenho mais medo, então esse cenário deve mudar em breve. Mas não se chateie, porque eu até que já viajei bastante, conheci lugares lindos com gente que eu amo demais. E tenho essas lembranças como as mais preciosas.
Diga ao pessoal aí em casa o quanto você os ama. Sempre. Eu sei que essa coisa de demostrar sentimentos não é muito a noss cara, mas acredite: um dia você vai carregar o peso de não ter feito isso o tanto quanto gostaria.
Sua vida vai ser ótima. Você vai aprender a cultivar as amizades e a aceitar os defeitos dos outros um pouco mais (mas não muito, tem coisa que não dá, eu sei). Vai fazer o que gosta, descobrir as roupas e o cabelo que te caem melhor e vai, um dia, achar legal ter pernas finas, eu juro. Vai dar tudo certo, talvez não da maneira como você imagina, mas de um jeito muito bom de qualquer forma.
Deixo como último conselho algo que pode te garantir noites bem dormidas e consciência limpa no futuro: vodca e tequila não são para você. Estou falando sério.

Beijos,

Paula.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ah, o transporte coletivo!

Peguei o Lapa - Praça Ramos lá pelas nove da manhã para ir ao Pilates. Estava meio cheio, então tive que ficar perto da catraca até o ponto seguinte, onde ele costuma esvaziar. Uma velhinha fica em pé ao lado de um banco reservado ocupado por duas mulheres que não deveriam estar lá.
Uma mulher retruca para uma das sentadas:
"Não vai dar lugar para a senhora não?"
Ao que a fina responde:
"Eu dou se eu quiser."
Daí em diante o que se sucedeu Foi aquela maravilha de diálogo travado em voz bem alta e que consistia em coisas tipo (tirem as crianças da sala, por favor):
"VOCÊ TÁ BEM ACABADA MESMO MAS AINDA NÃO TEM IDADE PRA SENTAR NESSE BANCO!"

"CALA A BOCA E PARA DE ENCHER O SACO, SUA PUTA!"

"TÁ MUITO GORDA, NÉ, NÃO AGUENTA COM O PRÓPRIO PESO E PRECISA FICAR SENTADA, SUA VACA!"

"OLHA QUEM FALA, BALEIA!"

"TÔ GORDA MESMO MAS EU ME GARANTO, TEM QUEM GOSTE!"

"SUA RIDÍCULA, VAI SE FODER!"

"TOMARA QUE QUANDO VOCÊ FICAR VELHA PEGUE UM ÔNIBUS E ROLE PELAS ESCADAS, SUA BISCATE!"

"VAI TOMAR NO CU, QUERO VER VOCÊ ME TIRA DAQUI SUA PELANCUDA MAL AMADA!"

"EU VOU MESMO! VOU TE ARRANCAR DAÍ SUA VAGABUNDA!"

"ATÉ PARECE, TU NÃO É MULHER PRA FAZER ISSO!"

Claro que eu adoraria ter ficado por perto para continuar ouvindo tanta elegância, mas um lugar vagou lá no fundo e resolvi sentar. A velhinha mesmo já tinha sentado em outro banco um ponto antes. A discussão parecia ter esfriado um pouco e assim o ônibus seguiu por mais uns dois pontos. Quando ele parou no terceiro, só vi as duas lindas se pegando lá perto da catraca e rolando pelo corredor do ônibus segurando nos cabelos uma da outra até a saída. O coletivo fechou as portas e seguiu viagem enquanto as duas continuaram brincando de UFC na Praça Cornélia. Estivesse eu na praça teria chamado a polícia, porque era bolsa, tamanco e soco pra tudo quanto era lado.

Quem pega ônibus NUNCA fica entediado gente. Fato.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ah, a juventude!

O ideal mesmo seria ouvir esta história da boca do meu aluno, um espanhol quarentão, hoje pai de família, que fala alto e gesticula loucamente. Para que vocês tenham uma vaga ideia do que é este cara contando uma história, ouçam o Italian man who went to Malta. 


Diz meu aluno que lá pelos idos de 1995 estava indo para a Bahia com quatro amigos. Dirigiam uma F-1000 a diesel, vão vendo. Um primo mais experiente os advertiu ainda em São Paulo: "Não levem maconha que é sujeira e lá na Bahia tem de monte pra comprar."

Seguiram para o Nordeste. No meio do caminho foram, obviamente, abordados por policiais, ou vocês acham que uma F-1000 com cinco caras dentro rumo à Bahia passaria incólume por um comando?

Puliça dá aquela geral nos caras, cheira a cinza do cinzeiro da caminhonete, abre malas, tira palmilha de tênis, desempacota tudo, faz e acontece. Uma hora e as autoridades lá, fuçando cada milímetro da bagagem dos moleques. Estavam mais limpos que "depois" em comercial de sabão em pó. Finalmente são liberados para seguir viagem sem maiores problemas.

Duzentos metros na frente o motorista respira aliviado:
"Pô, ainda bem que a gente não trouxe nada..."
Ao que é interpelado pelo meu aluno no banco de trás, abrindo a capa da máquina fotográfica:
"NÃO TROUXE NADA O CARALHO, ZÉ! NÃO TROUXE NADA O CARALHO!"

Quem nunca?