quarta-feira, 23 de abril de 2014

Causos de dona Neide

Estou aqui no trabalho curtindo uma dor de ouvido nível jesus me leva e lembrei de uma história dessas que só mãe mesmo para protagonizar.

Era um feriado de Páscoa bem frio e eu tinha passado dois dias com essa mesma dor de ouvido. Já tinha tentado de tudo, todos os remédios, analgésicos, até a toalhinha quente old school e nada. No terceiro dia, fim de tarde, não aguentei mais e pedi arrego - minha mãe me levou ao hospital.

Feriado em hospital do interior né? Só mediquinho novinho residente. Aquele, por um acaso, calhou de ser bem bonitinho. Não que eu estivesse em condições, só quem já passou três dias com dor de ouvido nível arranca essa merda fora sabe do que eu estou falando, enfim. Expliquei meu drama e ele saiu para buscar o otoscópio na outra sala.

Doutor botou o pé pra fora, levei um peteleco da minha mãe:

"Você podia PELO MENOS ter penteado esse cabelo, né?"

Eu querendo morrer há três dias e ela querendo me arrumar namorado. That's dona Neide we know and love.



terça-feira, 22 de abril de 2014

Começando bem a semana

Eu sou uma eterna otimista e gosto de achar que o mundo é a minha TL do twitter, cheio de gente fofa, engraçada, interessante, que respeita as escolhas alheias e as diferenças. Infelizmente o munda tá aí esfregando diariamente na minha cara que oi, ele não é assim não. Não passa nem perto inclusive.

Aula particular. Aluna tem uns 30 e poucos anos, cargo de gerência em empresa grande, independente, etc e etc. Não sei bem em que momento o assunto chega em "adolescência". E aí começa o massacre:

"Olha, teacher, não sei não, mas esses adolescentes de hoje estão muito mudados. Quando eu tinha 13 anos não queria saber de namorar, tinha outras preocupações na vida. Outro dia fui ao shopping e vi duas meninas de mãos dadas, essa molecada tá perdida. Antigamente não tinha isso não, e olha, acho que é isso que está acabando com as famílias."

Bolsonaro mandou um abraço, risos.

Minha vontade é responder "Fia, você não é divorciada? Então, 40 anos atrás também não tinha isso não. Inclusive tinham certeza que era o divórcio que acabava com as famílias. Aliás, se tu fosse divorciada 40 anos atrás não tinha arrumado um namoradão bacana assim tão rápido porque né? Mulher divorciada era tudo puta."

Semana começa com Tati Bernardi, Pondé e aluna homofóbica, tá fácil viu.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

O famigerado argumento da inveja

Sábado embarquei no Cometão velho de guerra para visitar minha mãe no interior. Acho digno de nota o fato de que sim, eu estava num mau humor do cão, Sábado na firma é sempre um drama e eu tinha saído de lá correndo antes que mais um pepino despencasse na minha cabeça.

Enfim, estava lá na minha janelinha, curtindo um ar-condicionado e pronta para consumir mais alguns capítulos de Contato quando de repente alguns bancos atrás de mim surge um som que deve ser a trilha sonora da galera que atravessa os portões do inferno. Era uma cruza do capeta entre Calipso e Ninjas da Arrocha saindo diretamente do celular de um abençoado que percebeu exatamente o momento em que eu me virei e fuzilei o cidadão com o olhar.

O problema nem era o Arrocha, juro. Acontece que eu estou quieta no meu canto, cansada, doida pra terminar de ler meu livro e não quero ter que ouvir a música de ninguém, seja ela sertanejo ou rock. Dono do celular obviamente ignorou meu olhar de insatisfação e continuou com seu bailão particular. Olhei mais uma vez. Mais duas. Na terceira ele resolveu me desafiar e, além de aumentar o volume, começou a cantar junto. Aí achei vandalismo.

Fui até a cabine do motorista e pedi uma intervenção. Ele parou o ônibus no acostamento e se dirigiu ao DJ do Cometão.

"FOI AQUELA MULHER DE SAIA ROSA QUE RECLAMOU, NÃO FOI?"

"Senhor, não importa, o som está alto e todos os passageiros se incomodam."

"EI SEI QUE FOI AQUELA MULHER DE SAIA ROSA, É ASSIM MESMO, AS COISAS NÃO VÃO PRA FRENTE NA VIDA DAS PESSOAS E ELAS TEM INVEJA DE QUEM TEM AS COISAS!"

"Senhor, por gentileza, coloque o fone ou abaixe o volume."

"JÁ TÔ ABAIXANDO, MAS QUE CRIATURA MAL AMADA, NÃO QUER OUVIR MÚSICA FICA EM CASA UÉ!"

Não quer ouvir música fica em casa ~risos~. Nem vale a pena tentar argumentar que né, é exatamente o contrário meu senhor: quer ouvir música no volume que bem entender fica em casa.

Enfim. Só contei essa história para demostrar que se a gente já desconfiava que o argumento da inveja estava superado, agora a gente tem certeza.


sexta-feira, 4 de abril de 2014

Professor de Inglês - FAQ

Galera que me acompanha no Facebook e na vida real sabe que tenho passado maus bocados com alguns professores de Inglês que tem aparecido na minha equipe. Por isso, enquanto professora há 16 anos, elaborei um FAQ sobre ser professor de Inglês que todo iniciante deveria ler. Por favor, repassem:


P: Eu nunca dei aula na vida mas morei seis meses na Austrália, posso ser professor de inglês? 
R: Aí depende, coleguinha. Primeiro precisamos verificar se seis meses na Austrália deixaram seu inglês proficiente. Por proficiente, para os leigos, entendemos no mínimo 600 horas de estudo bem feitas. Se você lavava pratos, morava com não nativos e não fazia aulas regulares, acho pouco provável que você tenha atingido proficiência.
Mas digamos que tenha. Você, tecnicamente, também é proficiente em Português. Você se acha qualificado para dar aulas de Português? Então ser proficiente não basta.

P: Mas pra dar aula não é só seguir as instruções do livro do professor?
R: De novo, coleguinha, depende. Não sei onde você estudou Inglês, mas qualquer professor minimamente treinado sabe que livros são publicados, teses são defendidas, convenções são organizadas para se discutir o ensino de língua estrangeira. Se ensinar outra língua fosse realmente apenas seguir instruções, imagino que todos estes esforços estariam sendo poupados e 90% da população seria fluente. Você ensina um idioma para pessoas e seguir uma receita de bolo não vai funcionar com seres humanos. Pessoas diferentes, resultados diferentes.

P: Tá, mas eu preciso de uma chance pra começar, né?
R: Sim, todo mundo precisa de uma chance. Entretanto antes de mais nada eu preciso explicar que ser professor de Inglês é um trabalho como qualquer outro. Você deve cumprir horários, fazer relatórios, comparecer a reuniões,  planejar aulas, respeitar um cronograma, corrigir provas e tarefas. Não é só entrar na sala, abrir o livro e confiar no seu carisma. Se você faltar no seu emprego na ~firma~ o máximo que vai acontecer é seu trabalho ficar atrasado. Se você faltar na sua aula como professor, outras pessoas terão que se mobilizar para te substituir e seus alunos podem se sentir um tanto incomodados por ter aula com outra pessoa, o que eu acho compreensível. A relação professor-aluno é, antes de tudo, de confiança, e se você não corresponde a produtividade da turma fica comprometida. Ser professor de inglês é uma profissão, não é uma coisa que se faz nas horas vagas.

P: Professor de Inglês ganha mal?
R: Eu não quero enganar ninguém, meu amigo - ninguém fica rico dando aulas de Inglês. Você pode até encarar aulas de Inglês como uma coisa que você está fazendo enquanto não termina a faculdade ou não consegue um trabalho na sua área. Mas, no momento, dar aulas É o seu trabalho e todo mundo espera que seja feito com qualidade e dedicação. É o mínimo. Agora, se você decidiu que é isso que quer fazer da vida, como eu decidi, ajuda bastante aceitar o fato de que, na maioria das vezes, professor de Inglês é freelancer. Ganha por hora, mesmo que tenha registro em escola e tal. Isso significa que ele tem que se virar pra conseguir muitas aulas, ter alunos particulares, dar aulas em empresas, que costumam pagar o triplo do que as escolas pagam. Não pode escolher trabalho - professor que chega pra mim com mimimi não dou aula pra básico, mimimi não dou aula de sábado, já sei que não é profissional.
Se você estudar, se qualificar, for um bom profissional, formar uma boa rede de contatos e se destacar nesse mar de curiosos que habita nossa profissão, dá pra ter um rendimento bem digno e com horários bem flexíveis, fazendo um trabalho muito gratificante. Se você encara como um hobby, é assim que as coisas serão pra você - trabalhos esporádicos, três aulinhas por semana, hora-aula baixa.

É isso, coleguinhas. Se algum colega de profissão quiser adicionar um item nesta lista de perguntas e respostas, fique a vontade. Por um meio com menos curiosos e mais profissionais.