sexta-feira, 28 de novembro de 2014

Meu número e stand up

No Ru Paul's drag race (não conhece? Então corre coleguinha, tem no Netflix, melhor reality show do universo) um dos desafios eliminatórios clássicos das drags é fazer um número de stand up. E eu detesto stand up (menos o Seinfeld, eu amo o Seinfeld, desculpem o clichê), mas adoro os números atrapalhados que as drags fazem. Esses dias fiquei pensando em como seria o meu stand up se eu fosse obrigada a fazer um. E eu fiz, my very own número de stand up. Se não tiver graça, beleza, eles quase nunca tem mesmo.

(Subo no palco e fico dois minutos com aquele sorriso abobado enquanto a platéia bate palmas apenas porque eu subi no palco)

Então gente, eu me formei em Letras na USP. O curso de Letras da USP pertence à Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, conhecida pelos íntimos como fefeléche.

Para estudar na FFLCH não basta passar no vestibular. Depois de aprovado, você só consegue fazer sua matrícula se apresentar uma foto do seu guarda-roupa provando que ele contém pelo menos uma calça xadrez e uma par de sandálias de couro fedido. Se for mulher deve conter também uma saia indiana e uma par de molecas pretas, de pano. Atualmente as molecas podem ser substituídas por uma par de alpargatas, mas as mesmas devem estar bem puídas, indicando que sua dona as usa desde que elas não eram moda. 

Na FFLCH não tem trote de pintar os calouros com guache e fazê-los pedir dinheiro no sinal. Na FFLCH os recém-chegados tem que cantar "Morena Tropicana" inteira enquanto viram shots de Jurupinga. Se errar a letra, começa de novo. O último a ficar de pé ganha 10 reais de crédito no xerox. Isso no meu tempo (sou velha, gente), quando xerox era liberado e maconha proibida. No meu tempo a gente tirava tanto xerox e demorava tanto que eu conheço gente que se conheceu, casou, teve filhos e entregou projeto do mestrado na fila. Dizem que teve um cara que ganhou na mega sena e conseguiu quitar sua dívida no xerox - do primeiro e do segundo ano.

Na FFLCH você só é aprovado nas matérias do primeiro ano se provar que sabe enrolar um baseado. Não adianta reclamar: na improbabilidade de você ter prestado vestibular para um curso de humanas sem saber fazer isso, teve um ano para aprender. Mas eu não vou cair nesse clichê de chamar todo estudante de humanas de maconheiro. Alguns são bebuns também. Tanto que as festas na FFLCH se chamam "Manifesta" e a única bebida alcoólica além de Jurupinga é Catuaba Selvagem devidamente servida em copos de plástico. Aliás, nas excursões da FFLCH a Jurupinga já está incluída no valor do pacote. Também não é verdade que todo estudante de humanas é ruim em matemática, mas na FFLCH as notas são em conceitos para não ter confusão. A, B, C, vocês entenderam. 

As pessoas que trabalham na secretaria da FFLCH também não lidam muito bem com números, tecnologia, essas coisas. Por isso, depois de fazer sua matrícula online para as matérias escolhidas, você tem que ir lá e corrigir tudo num papelzinho na semana da retificação. Sim, porque eles tem tanta certeza de que vai sair tudo errado que eles já programam uma semana de retificação de matrícula. Daí você vai lá, pega outra fila enorme mas tudo bem, porque você já está acostumado com a do xerox. Aliás, você não devia estar na fila do xerox? Enfim. Se tem uma coisa com a qual o pessoal da FFLCH se acostuma logo é com super lotação, porque todo ano entram 800 alunos só no curso de Letras. 800 pessoas só no primeiro ano de Letras, se somar todo mundo deve dar mais que a população de Osasco. Se bem que Osasco, né? Quem mora em Osasco gente? Aaaah, o carinha ali de vermelho riu, certeza que mora em Osasco. Mas Osasco é legal galera, tem um cachorro quente massa, a gente gosta de lá. Agora cês me dão licença que eu tô fazendo um curso extra na FFLCH de Sintaxe da Língua de Sinais Aplicada ao Pós-Modernismo Literário Angolano e já estou atrasada, beijos.

(Saio correndo do palco com aquele sorriso abobado enquanto toca uma musiquinha besta e a platéia bate palmas)

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

E o salário ó

Eu tinha um aluno adulto que, toda segunda-feira, ao ser perguntado sobre o fim de semana, respondia: "It was funny, teacher." E o funny dele, toda segunda-feira, saía "FANNY".

Eu corrigia. Eu fazia repetir. Toda segunda-feira. 20 vezes. Até o dia em que percebi que ele não ia aprender enquanto eu não dissesse a ele o que significa fanny.

Sim, meus alunos me obrigam a ensiná-los como os britânicos dizem pepeka.

Hoje aconteceu de novo, em outro grupo de adultos. Estavam lá fazendo um quiz sobre esportes quando surgiu a belíssima palavra shuttlecock. Expliquei o que nossa inocente peteca, mas sempre tem o FDP que não se contenta:

"Mas o que é cock?"

Vou lá bem linda e explico em inglês que é o bicho que te acorda na fazenda, mas outro mais FDP ainda faz aquela cara de vou zoar mesmo e pergunta:

"Mas pode ser outra coisa, né, tchítcher?"

Meo deos do céo lá vou eu ter que ensinar como se diz piroca em inglês, mas ele mesmo se adianta:

"It's penis!"

Dois segundos e todo mundo rindo:

"E penis em português é um little cock HAHAHAHAHAHAHAHAHA"

Sob vinheta dos trapalhões.