quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Voltei

Deve ser resquício de adolescência problemática (oi, pleonasmo?), auto-estima padrão Nelson Ned, etc., mas eu desenvolvi essa necessidade de agradar, essa dificuldade absurda de dizer não e de magoar os outros. Mas aí eu percebo que estava preocupada em passar uma boa impressão à pessoa do post anterior e em seguida descubro que ela é na verdade uma grandessíssima FDP. E passo a não me importar mesmo em ser considerada um cu.


Eu tento ser uma pessoa melhor, mas tem gente que não é gente mesmo. Ai, desabafei.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A duas mulheres sábias

Minha mãe costuma dizer que a pior invenção da humanidade foi o "me desculpe." Porque depois do "me desculpe" todo mundo passou a se achar no direito de fazer a merda que for que estas duas palavrinhas vão resolver tudo.

Hoje eu tive que pedir desculpas. E foi pior que o normal, porque foi para alguém que eu mal conheço. Mas eu fui grosseira com essa pessoa e ela, com todo direito, se ofendeu. E por conta destas picuinhas corporativas eu hoje tive que dizer "eu fui grossa, me desculpe, não vai acontecer outra vez."

Na verdade, mesmo que eu não me importe com essa pessoa, é péssimo ser julgada por um dia ruim. Eu apenas pedi desculpas, mas minha vontade era dizer: "Olha, eu não sou essa pessoa horrível que pareci naquele dia. Eu sou agradável. Eu tive um minuto de mau humor e não acho justo que de hoje em diante você me julgue exclusivamente por isso."

Mas eu não disse nada. E terei que aceitar como verdade o que uma professora de análise do discurso nos disse, no meio de uma aula, certa vez:

"Você é o que os outros acham que você é."

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

M. e as baratas

Durante cerca de três anos eu dividi meu aluguel com uma veterinária que chamaremos aqui de M. Veterinários, como vocês devem imaginar, são profissionais acostumados a lidar com situações que para nós, pobres mortais, se assemelhariam a uma prova do "No Limite". Certa vez M. me narrou, com um sorriso no rosto, as horas que passou exterminando colônias de larvas de mosca alojadas no canal auditivo de um pastor alemão.

Embora fosse uma moça muito destemida, M. tinha seu calcanhar de Aquiles no mundo animal - as baratas. Não tratava-se de medo ou nojo. A relação dela com as cascudinhas de seis patas só pode ser explicada através dos episódios que narrarei a seguir, dos quais fui testemunha.

Certa noite, M. tomava banho enquanto eu e o namorado dela assistíamos TV na sala. De repente ouvimos um grito que só podia vir das profundezas de uma alma atormentada e, meio segundo depois, M. apareceu enrolada na toalha, com uma expressão no rosto de quem tinha visto o próprio capiroto.

"Tem uma barata no meu quarto..." Balbuciou, sem forças.

Eu, que nunca me incomodei com as periplanetas (a menos que ataquem em bando, claro), me juntei ao namorado dela na missão de mandar a coisinha-ruim para o quinto dos infernos. Munidos de chinelo e Baygon vasculhamos o quarto de cima a baixo e nem sinal do bicho. Como morávamos num sobrado, calculei que ela tinha escapado pela janela aberta.

"Eu não entro lá enquanto não pegarem o demônio!" Decidiu M. E não entrou. Dormiu na sala por quatro dias. Foi preciso que o namorado, decidido a dar um fim naquela situação, matasse uma barata genérica e a apresentasse como vinda do quarto para que ela concordasse em pisar lá outra vez, não sem antes fazer uma faxina digna de epidemia de peste negra. 

Em outra ocasião cheguei em casa por volta das 9 da noite e encontrei M. sentada na soleira da porta da frente. Cabe aqui explicar que morávamos num sobrado daqueles com garagem no térreo e porta lateral que dá numa escada conduzindo à sala no primeiro andar.

"Esqueceu a chave, M.?"

"Não... É que tem uma barata no topo da escada..."

Basicamente minha roommate estava na calçada desde as 6 da tarde, incapaz de entrar por causa do mini-monstro.  O namorado estava fora da cidade e os transeuntes abordados se recusaram a subir achando que era pegadinha, que um sujeito vestido de gorila os estaria esperando lá em cima, sei lá.

Entrei, matei a barata na sapatada, joguei o corpo no lixo e passei um paninho no chão. Daquele dia em diante M. nunca mais entrou em casa com a mesma confiança de sempre.

Eu me pergunto até hoje como é que ela se virou depois que eu fui embora.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As mulheres-escorpião e a festa da GV

Olha só, vou contar uma coisa da qual não me orgulho mas, né, minha vida anda chata e corrida então resolvi desenterrar uma história que já estava quase decomposta.


Lá pelos idos de 2000 eu ainda estava na faculdade. Estava solteira, descobrindo as alegrias do álcool e rodeada por outras amigas solteiras tão sem noção quanto eu. Naquela época nós, de brincadeira, desenvolvemos o nunca publicado "Manual do Escorpião" (Porque tinha esse nome é uma história comprida e fica para outro post), que era basicamente um manual pós adolescente de "como se dar bem na balada"; "pegar geral", "arrasar corações" e, se possível descolar uma carona para casa. Sim, nós éramos completamente retardadas. Sim, eu tenho vergonha disso, mas quem não tem vergonha do passado que atire a primeira calça baggy. Devo dizer que só me lembrei do tal livrinho porque uma das envolvidas me ligou recentemente:
"Acabei de ver aqui na livraria o livro tal (não lembro o nome, mas era algo como "Manual da mulher poderosa", sei lá). A gente podia ter ficado rica com o Manual do Escorpião."

Poderíamos. Mas não ficamos. E embora os arquivos ainda existam, eu tenho 31 anos e não sou mais aquela demente de dez anos atrás, portanto não faria o menor sentido tentar publicar isso agora. Mas vou contar aqui a história do dia em que as mulheres-escorpião falharam.

O ano era o pré-histórico 2000. Em 2000 internet banda larga ainda era luxo, os Backstreet boys faziam sucesso e quem tinha um Audi A3 ainda era playboy e não mano. Em 2000 eu morava em república, trabalhava feito escrava e ganhava uma merreca. Eu era uma fodida, enfim. Minhas amigas idem. Mas falta de dinheiro nunca nos impediu de exercermos nosso dever de mulher-escorpião, que era nunca ficar em casa num sábado a noite.

Era um sábado de festa da GV - open bar, gatcheeenhos, música ruim - tudo que nós queríamos. Compramos os convites (caríssimos para o padrão estudante-sustentado-pelo-pai da época) para uma festa que sabe-se lá onde era. A única informação que tínhamos era que ficava em algum lugar na Marginal Pinheiros. Considerando que nos encontrávamos próximas à Marginal Tietê, era longe. Muito longe.

A carona do irmão de uma das envolvidas falhou. Teríamos que apelar para um táxi. Repito: estudantes fodidas. Táxi era o luxo do luxo, ainda mais para uma distância daquelas. Nada que nos desanimasse. Nos vestimos, nos maquiamos, nos perfumamos e descemos até o ponto de táxi em frente ao prédio munidas de nossa cara mais pidona. Convencemos o motorista a nos levar até a PQP por 25 reais. Quando nos demos conta da distância quase nos deu pena, mas né? Ele topou.

O combinado era encontrar uma carona para voltar. Achar um conhecido, descolar um ficantezinho para a festa inteira, sei lá. Eu sei, eu sei. Nós fazíamos isso. Passou, gente, eu juro que hoje sou outra pessoa.

Mas aí a festa começou, a vodca rolou, a noção foi embora e, quando nos demos conta, as luzes estavam se acendendo e as três mosqueteiras estavam ali, sozinhas, no meio da pista. Nem um conhecido, nem um namoradinho, nada. Ninguém para nos levar pra casa. Nem dinheiro para o táxi da volta. E agora Bial?

Agora era hora de pegar trem, minha gente. Não estávamos na Marginal Pinheiros? Então. Seis horas da manhã de domingo e as bonecas de salto e maquiagem cagada encarando uma composição da CPTM. Foi lindo ouvir os malacos dizendo: "Mulher bonita pula e grita" enquanto tentávamos nos esconder num canto qualquer.

O desastre terminou com um pastel no sacolão da esquina e as bonitas pulando janela porque a anta aqui fez o favor de perder a chave de casa na festa. Glamour zero. Ainda bem que a gente amadurece.

Oi, saudade dos tempos da faculdade? Tenho não.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A capital federal

Se a gente for parar para pensar, a idéia toda de Brasília é uma loucura. Coisa de nêgo megalomaníaco mesmo. Ir lá pros cafundós do Brasil, no meio do nada, só pó, e erguer uma cidade daquele naipe, só com uma mania de grandeza daquelas que nem Freud daria jeito.
Pois seu JK fez. E cinquenta anos depois minha irmã resolveu se instalar naquela terra atrás do marido funcionário do banco do Brasil. Porque lá, se não é funcionário público, está tentando ser. E a cidade é bonita, né? Diferente das que a gente está acostumado, diferente do aperto de São Paulo, com nossas ruas estreitas comportando duzentas faixas para carros. Porque na capital federal, onde paulistano enfia cinco faixas eles colocam três. E roda-se que é uma beleza.
Há claro, a secura, a terra vermelha que entra nos pulmões, nos olhos, nos cabelos, há fixação que aquele pessoal tem com carros amarelos - nunca vi tantos num lugar só. Mas no geral gostei bastante. Fiz os programinhas de turista, congresso, catedral, palácio da Alvorada. A simetria, a perfeição, tudo tão ajeitadinho, impressionaram essa paulistana acostumada com a bagunça e a sujeira dessa metrópole.

Mas Brasília para mim é na verdade agora um cenário de novela mexicana. Desde que a minha irmã se mudou, em Junho, ela e minha mãe se comportam como se ela tivesse ido para a Finlândia,e não para um lugar a uma hora e meia de avião daqui. Ela chora quando eu chego, chora quando eu vou embora, chora se eu não telefono dzendo que cheguei bem. Minha mãe chora porque não está lá com as duas juntas, chora quando não está aqui, chora quando fica muito tempo lá longe daqui. E eu, que não choro, sou o monstro sem sentimentos.

Brasília, eu sei que você não tem nada a ver com isso, mas desse jeito vai ficar difícil gostar de verdade de você, viu?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cada um com seus pobrema

Porque tem dias que parece que o négocio é com você. Que o mundo inteiro se juntou e resolveu tornar sua vida um inferno.

Eu contei, achando até engraçado, que não passei na avaliação física da academia, né? Que por conta da minha asma precisaria passar por um médico de verdade para que ele atestasse que eu não vou morrer na esteira qualquer dia desses. Então.

Meu plano de saúde (que nomearei aqui com todas as letras para que os senhores corram dele - chama-se DIX A-MI-CO) comprou uma outra rede (ME-DI-AL) recentemente. Com isso dobrou o número de clientes e reduziu o número de médicos fechando diversas clínicas. Coisa de gênio. Daí que para marcar uma consulta na rede de hospitais próprios um pobre cidadão estava levando cerca de dez minutos ouvindo musiquinha de espera. Eu disse D-E-Z. Enfim. No dia em que me dispus a ficar ouvindo a tal musiquina ad eternum fui informada que, dos dois hospitais mais próximos de minha residência um não atendia mais clínica geral e o outro só tinha horário para dali a um mês. Oi, estava sendo atendida pelo SUS e não me contaram? Acabei marcando uma consulta no hospital da Vila Mariana, que ainda não sendo do outro lado da cidade já implicava em um certo transtorno, mas tudo bem. Achei que daria um sorrisinho para o clínico e ele assinaria um atestado me liberando para a academia.

Sonho meu. Parece que o doutor (que falava com um sotaque nordestino daqueles ininteligíveis) também ficou com medo de eu ter um treco portando um atestado assinado por ele e me encaminhou para um Pneumologista e um Cardiologista. Segue o drama.

Telefono para a central de marcação. Sete minutos de musiquinha. Cardiologista? Opa, tem sim, miraculosamente num hospital perto de casa, numa data próxima e num horário acessível. Fico até animada. Pneumo? Nesse hospital não tem não. Visando minimizar transtorno, pergunto se há Pneumo e Cardio no mesmo hospital em alguma unidade. Não senhora. Coisa de gênio outra vez, já que são duas especialidades que não estão nem um pouco relacionadas - é como ter Ginecologista em um lugar e Obstetra no outro.. Mas né, eu estava tão feliz por ter conseguido um Cardio com tanta facilidade que decidi não me irritar.

Pneumo perto de casa? Só daqui a um mês. E longe de casa? Só a tarde, de terça, quinta e sexta. Lembrando que chegar a essa conclusão levou cerca de vinte minutos entre idas e vindas da atendente ao computador.

Eu sou uma pessoa que trabalha sabem? Eu tenho alunos e faltar para ir ao médico é algo que causa um grande transtorno já que uma aula em grupo não pode simplesmente ser cancelada e substituição não é algo que tira-se do bolso. Faltar só se eu estiver morrendo, e ainda não estou. Só de raiva. Decido tentar a rede credenciada, que é pouca e quase sempre longe. Descubro um hospital pneumológico credenciado no meu bairro, coisa mais linda. Pergunta se atendem o telefone?

Basicamente é isso - ainda não consegui atendimento, que dirá marcar consulta. DIX AMICO, fica a dica: estatiza essa merda e bota uma placa do SUS, porque o nível está o mesmo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Só uma rapidinha

"Tchíííítcher, o que é bio... biode... biode...gra...dá...vel?"

"É uma coisa que desaparece na natureza sozinha, Bruno."

"Que nem as torres gêmeas?"

Tá, minha explicação nem tinha sido muito boa mesmo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sexta a noite

Primeiro há todo o drama da massa - Está muito rala? Muito grossa? Quanto mais de farinha até o ponto desejado? Qual é é o ponto desejado?
Então você decide colocar mais farinha, e, para seu horror, a coisa dentro do liquidificador começa a parecer uma argamassa. Recomeça todo o processo - água, sal, tempero, bate mais um pouco. Após minutos de considerações que envolvem a temperatura ambiente, a pressão atmosférica e até a expressão da Palmirinha quando fez esta receita na TV, decide que aquilo é como uma massa de panqueca deve se parecer. Reza uma ave-maria, coloca a frigideira no fogo e prossegue.

Calma, ainda não. Primerio você precisa saber qual é a quantidade de óleo a ser despejada no recipiente. Muito transformará sua obra culinária num disco de borracha engordurado. Pouco fará com que a massa grude na panela de forma trágica e indelével. Mais uma vez aquele bom senso que você nem sabia que tinha entrará em ação, não antes de minutos de seríssimas elocubrações. E a temperatura? Será a ideal? Qual a quantidade de massa a ser utilizada para cada panqueca? São tantas decisões que você, por um momento, questiona a idéia imbecil de cozinhar aquilo ao invés de esquentar uma lasanha Sadia. Mas segue em frente, resoluto - jantará panquecas naquela noite nem que isso lhe custe lágrimas.

Ao despejar a primeira leva de massa você entende porque fez isso. A sensação de uma panqueca que dá certo é indescritível. Você é tomado por uma súbita alegria ao perceber que a massa fininha miraculosamente se desgruda da frigideira e consegue ser virada sem dificuldade, exibindo-se bela e douradinha. Sim, sua panqueca é uma realidade.

A segunda panqueca sai um pouco mais grossa que o planejado - há um cheiro de frustração no ar. Mas você, que bravamente chegara até lá, não vai desistir diante da primeira dificuldade. Assim faz a terceira e a quarta.

A quarta panqueca. Eis que ela surge para colocar sua vontade à prova grudando na frigideira. Sim, você esqueceu de colocar a segunda leva de óleo. Coragem! Não se deixe abater - há um liquidificador inteiro de massa crua esperando para se transformar em discos macios e tostados.

Sim, um liquidificador inteiro. Depois da décima panqueca você não aguenta mais ficar em pé, as pernas doem, a massa parece infinita. Você está desesperado para desgrudar a barriga do fogão e tomar uma cerveja, mas não pode. Tem uma missão. E ela será levada até o final.

Quando a massa por fim acaba você já perdeu a fome. Está cansado e quer dormir, mas ainda tem que rechear cada círculo, enrolá-lo, cobrir com molho de tomate e levar para gratinar. Você acha que não vai conseguir. Reunindo suas últimas forças você termina o trabalho, coloca a mesa e espera seu convidado.

"Ficou ótima, namorada".

Parece só uma panqueca. Mas é uma montanha-russa de emoções.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Srta. Língua Gigante ataca novamente

A amiga Bruna, que me conhece há mais de uma década (oi, velhice chegando), já foi testemunha da minha capacidade de me auto-constranger falando mais do que deveria. O problema é que padeço de uma condição até comum entre a população chamada "língua mais rápida que o cérebro." Eu poderia passar o feriado listando as vezes em que essa patologia me colocou em situações no mínimo embaraçosas, mas como tenho amor próprio bem como vergonha na cara, não o farei - me restringirei a narrar o último episódio no qual este problema se manifestou.

Sim, meus alunos do curso de idiomas são fofos. Mas, num universo de cerca de cinquenta pesssoas, é de se esperar que ao menos uma seja uma mala. E essa moça é daquelas bem pesadas. Sabem o tipo que interrompe a aula a cada dois minutos para falar, em português, de algum assunto completamente aleatório à lição? Esse mesmo.

Estava lá trabalhando um diálogo de lanchonete. Grudei na parede uma foto de um atendente feliz, fui colocando as falas na lousa, fazendo os alunos repetirem, e tal. Em determinado momento, quando o atendente diz: "Enjoy your meal", tive a brilhante idéia de fazer uma piadinha:

"Esse atendente tão simpático com certeza não trabalha no Burger King, né gente?"

Ao que a mala imediatamente responde:

"Eu já trabalhei no Burger King, tchítcher!"

Menos profissional fosse, teria respondido: "E você também era mal educada como TODOS os atendentes da quela joça?"