sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As mulheres-escorpião e a festa da GV

Olha só, vou contar uma coisa da qual não me orgulho mas, né, minha vida anda chata e corrida então resolvi desenterrar uma história que já estava quase decomposta.


Lá pelos idos de 2000 eu ainda estava na faculdade. Estava solteira, descobrindo as alegrias do álcool e rodeada por outras amigas solteiras tão sem noção quanto eu. Naquela época nós, de brincadeira, desenvolvemos o nunca publicado "Manual do Escorpião" (Porque tinha esse nome é uma história comprida e fica para outro post), que era basicamente um manual pós adolescente de "como se dar bem na balada"; "pegar geral", "arrasar corações" e, se possível descolar uma carona para casa. Sim, nós éramos completamente retardadas. Sim, eu tenho vergonha disso, mas quem não tem vergonha do passado que atire a primeira calça baggy. Devo dizer que só me lembrei do tal livrinho porque uma das envolvidas me ligou recentemente:
"Acabei de ver aqui na livraria o livro tal (não lembro o nome, mas era algo como "Manual da mulher poderosa", sei lá). A gente podia ter ficado rica com o Manual do Escorpião."

Poderíamos. Mas não ficamos. E embora os arquivos ainda existam, eu tenho 31 anos e não sou mais aquela demente de dez anos atrás, portanto não faria o menor sentido tentar publicar isso agora. Mas vou contar aqui a história do dia em que as mulheres-escorpião falharam.

O ano era o pré-histórico 2000. Em 2000 internet banda larga ainda era luxo, os Backstreet boys faziam sucesso e quem tinha um Audi A3 ainda era playboy e não mano. Em 2000 eu morava em república, trabalhava feito escrava e ganhava uma merreca. Eu era uma fodida, enfim. Minhas amigas idem. Mas falta de dinheiro nunca nos impediu de exercermos nosso dever de mulher-escorpião, que era nunca ficar em casa num sábado a noite.

Era um sábado de festa da GV - open bar, gatcheeenhos, música ruim - tudo que nós queríamos. Compramos os convites (caríssimos para o padrão estudante-sustentado-pelo-pai da época) para uma festa que sabe-se lá onde era. A única informação que tínhamos era que ficava em algum lugar na Marginal Pinheiros. Considerando que nos encontrávamos próximas à Marginal Tietê, era longe. Muito longe.

A carona do irmão de uma das envolvidas falhou. Teríamos que apelar para um táxi. Repito: estudantes fodidas. Táxi era o luxo do luxo, ainda mais para uma distância daquelas. Nada que nos desanimasse. Nos vestimos, nos maquiamos, nos perfumamos e descemos até o ponto de táxi em frente ao prédio munidas de nossa cara mais pidona. Convencemos o motorista a nos levar até a PQP por 25 reais. Quando nos demos conta da distância quase nos deu pena, mas né? Ele topou.

O combinado era encontrar uma carona para voltar. Achar um conhecido, descolar um ficantezinho para a festa inteira, sei lá. Eu sei, eu sei. Nós fazíamos isso. Passou, gente, eu juro que hoje sou outra pessoa.

Mas aí a festa começou, a vodca rolou, a noção foi embora e, quando nos demos conta, as luzes estavam se acendendo e as três mosqueteiras estavam ali, sozinhas, no meio da pista. Nem um conhecido, nem um namoradinho, nada. Ninguém para nos levar pra casa. Nem dinheiro para o táxi da volta. E agora Bial?

Agora era hora de pegar trem, minha gente. Não estávamos na Marginal Pinheiros? Então. Seis horas da manhã de domingo e as bonecas de salto e maquiagem cagada encarando uma composição da CPTM. Foi lindo ouvir os malacos dizendo: "Mulher bonita pula e grita" enquanto tentávamos nos esconder num canto qualquer.

O desastre terminou com um pastel no sacolão da esquina e as bonitas pulando janela porque a anta aqui fez o favor de perder a chave de casa na festa. Glamour zero. Ainda bem que a gente amadurece.

Oi, saudade dos tempos da faculdade? Tenho não.

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