quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Sobre ser fascinado por alguma coisa

Don't ask me how mas entrei no buraco negro da internet e fui parar neste programa britânico chamado Mastermind:



Não tem legenda e eles falam super rápido com aquela delícia de sotaque britânico super fácil de entender, mas basicamente é um game show de perguntas e respostas onde os participantes tem 90 segundos para responder o máximo possível de questões sobre um assunto que eles dominam muito. Até aí nada de novo sob o sol, é um formato de programa que existe há muito tempo, mas olha, não deixa de ser fascinante. Neste episódio especificamente os participantes estavam respondendo sobre:

 - O período entre 1920 e 2007 de um time de futebol que pelo que entendi joga na segunda divisão inglesa
- Benjamin Britten, um compositor, maestro e pianista inglês falecido em 1976 (valeu wikipedia)
- A cidade de Veneza
- O período entre 1609 e 1960 na história de Ulster, uma província no Norte da Irlanda
- O período da lei seca nos Estados Unidos

E as perguntas, gente, elas são super difíceis. Não é nada tipo "Quando Veneza foi fundada?" não. É coisa nível "qual o nome do padre que caiu e quebrou a perna na ponte x de Veneza no dia 21 de Julho de 1842?"

Eu juro que eu entendo que uma pessoa seja fascinada por um time de futebol x ou por Veneza mas a lei seca? Como assim existe uma pessoa que sabe absolutamente tudo sobre a lei seca nos Estados Unidos (porque acreditem, pra responder essas perguntas tem que saber tudo). O mundo é tão incrível, tem tanta coisa incrível nele, por que alguém escolheria ser especialista na lei seca, gzuiz?

Desconfio que eu tenho algum nível de déficit de atenção porque não consigo me interessar nesse nível por nada, na verdade em nível nenhum. Eu me interesso por tudo, eu quero saber tudo. Se você estiver disposto a me explicar física quântica de um jeito que eu entenda eu vou querer saber. Eu não tenho hobbies porque pra mim ter um hobby implica em estar profundamente envolvido com alguma coisa e eu não consigo estar. Eu quero aprender a costurar, a fazer comida vegana, a correr direito, a falar Francês e nessa ânsia toda eu acabo não aprendendo nada, o que é muito frustrante.

Entretanto, eu estou verdadeiramente fascinada por esse programa. Talvez eu me torne uma especialista em Mastermind. Talvez um dia eu vá ao Mastermind responder perguntas sobre o Mastermind. Mas tem uns três episódios de Joana, a virgem pra eu assistir antes disso. E alguns capítulos de Uma breve história do tempo pra ler. E uns vídeos de culinária vegana e gatinhos. E uma fase do Candy crush pra passar. E talvez correr uns 3 quilômetros (tô fora de forma). E... e... e...

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

É tudo verdade

Vira e mexe eu conto os causos que acontecem aqui na escola e galera acha que eu invento, tipo o tiozinho que entrou só pra perguntar se era verdade que não pode comer Hellmann's porque Hellmman's significa homem do inferno. Mas eu juro, gente, é tudo verdade. Não tem fanfic nesse cafofo não e pro causo de hoje tenho ibagens.

Ontem uma mulher passou por aqui perguntando se estávamos contratando professores para o próximo semestre porque ela morava perto e tinha experiência na rede. Respondi que sim (se tem uma coisa que eu tô sempre precisando nessa vida é professor), ela agradeceu e disse que ia mandar o currículo.

Muito que bem.

Hoje tô quieta na minha sala, as meninas da secretaria me chamam: Paula, encomenda pra você.

Não é meu aniversário e eu não comprei nada pela internet ultimamente.

Chego na secretaria e já sou recebido por aquele cheiro pavoroso de perfume de tia velha que emana de uma sacola de presente embrulhada em papel celofane.

"Aquela mulher que falou com você ontem que deixou."

Gente.

Gente.

Não quero nem falar no quão inapropriado e sem noção é você mandar presentes para o responsável por te contratar para uma vaga de emprego. Vamos focar na encomenda.


Constavam no kit, caso vocês não consigam ver muito bem: 

3 bolinhas de plástico coloridas de 1,99
1 sabonete Francis
Meia dúzia de papais noéis feios
1 DVD do Hobbit
1 DVD Matrix Revolutions
2 cartões de natal que tocam musiquinha
1 caneta marca texto usada
3 plumas coloridas
1 bloco de papel com o nome e o e-mail da remetente carimbado em todas as folhas
O currículo da pessoa
Tudo isso coberto deliciosamente por um perfume que vai me acompanhar até as 9 da noite hoje, quando eu conseguir tomar um banho. 

Cogitou-se despacho pra arrumar emprego e daí eu me pergunto o que aconteceu com as boas e velhas velas e farofa, porque despacho com DVD eu acho ultra moderno. Na verdade a secretária da escola, que é crente, acreditou mesmo que era um despacho e soltou um "tá repreendido em nome de Jesus!" 

Depois dessa eu hoje tô só a Roberta Miranda:





terça-feira, 22 de novembro de 2016

Rocky Horror Show

Eu era adolescente quando assisti a Rocky Horror Show pela primeira vez, na TV aberta, numa madrugada insone dos anos 90. Eu fiquei fascinada pelos figurinos malucos, pela história nonsense, anárquica, meio trash e tosca como só os anos 70 seriam capazes de fazer. Também amei as músicas pegajosas e vivia cantando Time Warp e Hot Patootie. Rocky Horror Show era um ode à zuera quando a zuera nem existia. Na verdade Rocky Horror Show inventou a zuera. Como superar Tim Curry de corset rebolando e cantando "I'm a sweet transvestite, from transexual Transylvania"?



Aff 

Daí veio a montagem em São Paulo. Fiquei sabendo pelo irmão do namorado, outro fascinado pela peça. Quando ele me disse que o Marcelo Médici faria o dr. Frank-n-furter e sabia que eu tinha que ir de qualquer jeito. Sabe pessoa que nasceu pro papel? Ele mesmo. Na semana da apresentação cunhado me manda mensagem perguntando se eu ia fantasiada. A gente tinha visto no facebook fotos de um povo vestido de Magenta, Rif Raf e Columbia na semana da estréia e pessoas, não sei se vocês sabem mas se fantasiar tá no meu top 10 "coisas que eu gosto de fazer" ou seja: foi facinho me convencer. Corri atrás de uns apetrechos para me fantasiar de transylvanian (esse povo desmaiado que aparece no comecinho do vídeo): um terno preto, óculos de 1,99, chapéuzinho de aniversário. Era o que dava em cima da hora. E fui.

Só eu e cunhado fantasiados hahahaha. Só. nós. dois. E os transylvanians nem estão na peça, então quem estava lá e não viu o filme nem sabia quem a gente era, mas me diverti horrores e arrependimento? Não trabalhamos. Cunhado inclusive subiu no palco pra dançar o Time Warp com o elenco no fim da peça. Foi lindo, Marcelo Médici fez jus ao nosso amado dr. Frank-n-furter, a versão em português das músicas ficou ótima e o elenco tá todo de parabéns. Rocky Horror Show é muito amor e tem no Netflix gente, aproveita e vem dividir esse amor comigo hahahaha.


It's just a jump to the left/ And then a step to the right.



Don't dream it/ Be it 

quarta-feira, 16 de novembro de 2016

Para Amanda

Amanda é libriana como a mãe dela, mas família Foltran Borges não liga pra essas coisas de signo não. Ela tem oito anos e gosta de Frozen, de desenhar e do livro da menina bonita do laço de fita. Também gosta de coentro e uva passa na comida, é das minhas, essa garota. Ela fala rapidinho, com os rr de carioca, eu falo porta do interior de São Paulo. Ela calça 34 e usa roupas tamanho 12: vai ser alta como eu, a minha sobrinha. Talvez mais. Ontem assistiu Mulan e já roubou a camiseta da mãe que diz "Fight like a girl".

Doutrinada com sucesso (Pra quem quiser: a camiseta é daqui)

Quem adota uma criança mais velha perde algumas primeiras vezes (primeiros passos, primeiras palavras, etc). Mas a vida, gente, ela é essa sucessão de primeiras vezes. Domingo fomos patinar no gelo. Eu devia ter a idade dela quando patinei no gelo, então não lembro como era. Até que não fiz feio não, mas como ser adulto é muito chato eu só conseguia pensar que, gente, não posso me quebrar nessa pista, tô cheia de trabalho na escola e meu plano de saúde não cobre Brasília. Já ela em dois minutos estava no meio da pista, cuidando do menino pequeno que tinha entrado com e gente (e que a gente não conhecia) porque ela é dessas. 

Tem um adesivo da Jolie colado no meu celular: virei oficialmente tia de menina. Amanda entrou na minha vida há um mês, mas parece que esteve sempre, desculpem o clichê. 

Amanda, minha linda, o mundo é lugar difícil, mas você está em boas mãos. Se tem uma coisa que as Foltran Borges sabem fazer é criar mulheres foda. E a gente está pronta pra deixar o seu mundo tão bonito quanto você deixou o nosso. 


Quando você vai encontrar sua sobrinha pela primeira vez e vocês estão com a mesma roupa

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Lembrete

Talvez seja o verão, a proximidade do momento em que eu vou ter que colocar biquíni na frente de um monte de gente que eu conheço mais ou menos, meu aniversário chegando (os "enta" cada vez mais próximos, deos). Ano passado foi a mesma coisa: de uma hora para outra eu comecei a ficar obcecada com o meu corpo.

Fora a adolescência, que costuma ser complicada, no geral eu sempre fui bem resolvida com o meu corpo. Sou magra, branca, 1, 69, padrãzinho. Um pouco de celulite, uns vasinhos estourados, a bunda já esteve melhor, mas nada que realmente incomodasse. Uso o mesmo número de roupa desde os 18 anos, nunca briguei com balança, tava tudo bem. Mas ano passado, nesta mesma época do ano, me peguei numa clínica de estética fazendo um tratamento bem dolorido para "gordura localizada", a.k.a. os quadris que minhas antepassadas italianas me deixaram de herança. Minha irmã ganhou olhos azuis, eu ganhei quadris. Sim, é ridículo eu estar incomodada com isso. Mas eu, a bem resolvida, a desconstruidona, tava lá gastando dinheiro com um negócio que é no mínimo inócuo, no pior cenário de todos perigoso.

Esse ano eu estava quase caindo na mesma armadilha, porém:



Meu corpo é ótimo, saudável, me leva pra onde eu quero e é só isso que eu preciso. Cuido dele para que ele se mantenha assim, não para que ele mude e se adeque ao padrãozinho doido que eu inventei porque né? Eu já sou padrãozinho. E se eu que tô super dentro do esquema de vez em quando entro nessa bad, não consigo nem imaginar a luta que é para quem está longe do padrão.

Gatíneo da positividade pra ajudar a gente nesses dias ruins

Este post foi só um lembrete para mim mesma que está tudo bem. E que é pra eu parar de criar minhoca na cabeça. Talvez sirva pra vocês também. 

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Porque eu odeio cursinhos

ENEM tá chegando, galerinha já está estourando a pipoca para acompanhar o show dos atrasados, aquela maravilha toda que a gente conhece. Hoje enquanto eu tomava café na padaria o Bom Dia São Paulo estava mostrando uma reportagem x sobre os preparativos para o ENEM em um cursinho e já me deu aquele ruim no estômago logo cedo.

Eu tenho pavor de cursinho.

Eu fiz cursinho durante seis meses (daí decidi prestar vestibular pra Letras e ninguém precisa de cursinho pra passar em Letras e larguei) e foi horrível. Eu dei aula em cursinho anos depois e foi um pesadelo.

Quando eu estudava eu tinha só uma professora mulher, a de Literatura. Todos os outros professores eram homens, a maioria jovens. Eram especialistas em piadas machistas e homofóbicas e não faziam nenhum esforço para manter distância das alunas adolescentes apaixonadinhas que tentavam se aproximar deles, pelo contrário. Vi professor pegando aluna, vi aluna no colo do professor.

"Ain, mas aos 17, 18 anos essas minas já deram mais que chuchu na cerca, tão se jogando em cima dos caras, eles comparecem"


Tem uma relação de poder muito errada nissaí, amigolino, e se você não enxerga isso não tô com paciência pra explicar não, beijo. Outro dia teve textão de professor no facebook querendo biscoito porque ~respeita~ aluna adolescente e minha vontade foi de soltar logo o carimbinho Damires do "não faz mais que a sua obrigação" mas né, fiquei quieta porque não estava na TPM e meu eu sem TPM não treta nas internets.



Uns anos depois da faculdade fiquei do outro lado da sala no cursinho. Mais uma vez, de mulheres, só eu e a professora de Redação. A história se repetia, as mesmas piadinhas, aquele desrespeito massa com as professoras, etc. Um dia entrei na sala e um moleque estava na lousa desenhando uma piroca e berrando "AÍ Ó, ESSE AQUI É PRA PAULA!". Quando fui reclamar na coordenação ouvi do superior (homem, claro): "Ah Paula, deixa quieto, é coisa de moleque". Fora o odinho que eu tenho até hoje daqueles malucos que vão dar aula fantasiado ou tocando violão, as famigeradas "aula-show". Aula-show my ass meus senhores, imagina o coitado lá no meio da fuvest cantando musiquinha pra lembrar fórmula de física (e decorar fórmula não adianta nada né, migo, tem que saber aplicar).

Eu tenho amigos queridos e muito competentes que dão aula em cursinho até hoje e eu tenho certeza que eles se esforçam para que as coisas sejam diferentes. Eu sei que muitos deles, inclusive, fazem um trabalho lindo de formação dessa galera. Sei que a molecada tá vindo aí mais livre, mais consciente, menos preconceituosa. E eu sei, sim, que "not all cursinhos". Mas eu traumatizei. Tenho pavor e acho que cursinho é um negócio pelo qual ninguém deveria ter que passar.

Quem sabe um dia, né?

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Depois que parei de tomar anticoncepcional minha vida tava um sossego só (mentira, tava meio deprê e cheia de espinhas) e eu não tinha mais TPM. Não tinha mesmo. Às vésperas da menstruação ao invés de desejar morte lenta e dolorosa ao cidadão que resolveu colocar crédito em 475 celulares diferentes no caixa do mini extra eu estava andando por aí parecendo o pequeno Wilber dos sobrinhos do Athayde (só idosos entenderão). Até essa semana.

Essa semana eu consegui me meter em duas tretas de internet no mesmo dia: uma com gente que acha que tudo bem proibir criança de frequentar restaurante e outra com azmagra que em todo post sobre as dificuldades das pessoas gordas aparecem lá para berrar: "AIN E AZMAGRA? AZMAGRA TAMBÉM SOFRE. AZMAGRA NÃO ACHAM ROUPA PP". Eu não vou discorrer sobre estes assuntos aqui porque já perdi muito tempo nas tretas fazendo isso, mas a moral da história é: cês tão tudo errado e eu tô certa.

E eu espero sinceramente que seja TPM mesmo pois deos me livre me tornar o tipo de pessoa que arranja treta na internet.


Euzinha esses dias (à esquerda, no caso)