segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Tirando as teias de aranha

Eu tô bem? Eu tô meio bem.

As coisas estão uma merda no trabalho. Saturou, meio que já deu. Eu detesto 80% das coisas que tenho que fazer lá e isso obviamente reflete no meu rendimento. Rolou feedback bosta semana passada, 50% justo, 50% filhadaputice mesmo. Gestora querendo me ver pelas costas e aquele sentimento de que não fico aqui pro ano que vem.

Faço uma entrevista aqui, outra ali. Não tem retorno. Preciso mudar de emprego urgente. Tô trabalhando pra isso? Tô trabalhando pra isso mas quando a gente leva o terceiro bolo de entrevistador começa a bater o desespero, a sensação de que eu estou fazendo alguma coisa muito errada.

Pelo menos o coração tá tranquilo.



quarta-feira, 27 de setembro de 2017

O homem que confundiu um gato com um chapéu

Eu era uma criança muito esquisita que andava pra cima e pra baixo com uma agenda velha que tinha poemas do Mário Quintana em cada página como se ela fosse meu bem mais precioso. E lembro de um história na qual ele contava que um amigo chegou a um restaurante e quase sentou em cima do chapéu de um outro colega que estava na cadeira. Ao ser avisado, antes do estrago, justificou: "desculpe, achei que era um gato."

Por algum motivo meu eu de 11 anos só registrou essa parte da história e 27 anos depois eu ainda me indignava com o fato de que o cidadão tinha achado aceitável sentar em cima de um gato mas não de um chapéu.

Sábado o crush foi lá em casa e quase sentou em cima da Peppa, escondidinha atrás de uma almofada no sofá. Lembrei da história do Mário Quintana e fui procurá-la. Na verdade o amigo continua, explicando que, se fosse um gato, ele teria escapado antes da tragédia, ao contrário do chapéu. E aí a história fez sentido.

Isso tudo foi só pra dizer que Peppa, apesar de quase ter sido esmagada por ele, aceitou o crush. Subiu no colo dele, pediu carinho e não fez xixi em nenhum dos seus pertences.

Estamos indo por um bom caminho.


sábado, 23 de setembro de 2017

Ómi fazendo ómice

CONTÉM SPOILERS DE FRAGMENTADO.
Não que eu ache que alguém se importa mas não custa avisar.

Eu disse que não tinha gostado de Fragmentado.

Meu interlocutor, um moço baixinho barbudo amigo de um amigo, dono de uma cadela vira-lata lindinha, me respondeu:

"Ah, acho que você não entendeu o final."



Impressionante como é SEMPRE homem que usa esse argumento do "você não entendeu". Amigo, eu poderia passar a noite inteira ali listando motivos pelos quais na verdade eu achei Fragmentado uma bosta ("não gostei" foi pra não parecer incisiva demais, coisa de mulher, a gente é treinada para não parecer incisiva demais, não é muito "feminino", né?). Mas eu apenas respirei fundo, tomei mais um gole de cerveja e disse:

"Olha, entendi sim. Não é que aquele final tenha sido muito complexo, né?"

"Mas a referência..."

"A Corpo Fechado? Extremamente óbvia."

"Então acho que você não assistiu Corpo Fechado."


"Assisti sim. É bom. Mas isso não torna Fragmentado bom."

"Eu acho que as pessoas não entendem o Shyamalan." (Pronunciado errado)


Nesse momento eu já nem acredito que estou discutindo a questionável obra do M. Night Shyamalan num boteco na Pompéia com um cara que acabei de conhecer.

"Olha, Fragmentado é um filme muito ruim, ok? Aquela pseudo-psicologia de botequim pra falar de um puta tema batido que é múltiplas personalidades. O James McAvoy tá ridículo de brinquinho, gola rolê ou imitando criança, não dá pra ter medo dele, a gente só quer dar risada. E aquele final, o monstro, ah, pelamordedeos, não tem condições."



Sim, eu sou divertidíssima em festas. Só não fala que eu não entendi filme tal quando eu digo que não gostei porque aí eu viro sua inimiga pra sempre. Principalmente se você for homem, beijos. 







sábado, 16 de setembro de 2017

Infância nos anos 80: eu sobrevivi

Começou com esse tweet:




Dali pra frente galera começou a compartilhar suas histórias de sobrevivência à infância pobre/classe média nos anos 80. Eu inclusive.

Nos anos 80 eu levei cinco pontos porque caí com um casco de coca-cola na mão. A gente andava pra cima e pra baixo com garrafa de vidro indo buscar refrigerante e até cerveja na vendinha. E cigarro, né? Quantos Shelton light eu não comprei pro seu Adelphi no mercadinho do seu Luís.

Nos anos 80 as mães misturavam vinho com água e açúcar e davam pra gente beber no almoço de Domingo. Uma moça na thread do twitter disse que o avô deu cachaça pra ela aos seis anos, pra curar dor de garganta. Isso e as vitaminas com biotônico Fontoura, que até não sei que ano tinha álcool na composição. Meus pais fumavam dentro de casa, na mesa do almoço, na cara da molecada de boas. Todo mundo fumava, aliás.

Falando eu álcool, meu pai tinha um boteco pé-sujo quando eu era pré adolescente. Servi muito rabo de galo pros clientes da tarde enquanto ele ia ao banheiro. Assim como uma das moças que comentou no twitter, conheço bem dose de cachaça até hoje, boteco gourmet não me engana não.


Pé-sujo clássico, com chão de encerado vermelho e pôster do Esporte Clube Votoran, vice-campeão varzeano de 1979

Na categoria automóveis: a gente (e quando eu digo a gente me refiro a praticamente todo mundo que foi pobre/classe média nos anos 80) só foi saber o que era cinto de segurança depois de adulto. Cadeirinha? Oi? Com quatro anos a gente estava era se estapeando com os primos pra ver quem ia no banco da frente. Fora as inúmeras viagens em bagageiros de Belina, caçambas de Fiorino e chiqueirinhos de Fusca. A gente deveria andar por aí com camisetas: Infância nos anos 80, eu sobrevivi. 

A gente brincava em areia de construção daquelas onde todos os gatos da vizinhança cagaram. A mãe da gente nos levava pra visitar vizinho doente pra pegar caxumba e se livrar de uma vez. Eu assisti o Exorcista, Poltergeist e a Mosca antes dos 12 anos de idade. A gente brincava na enxurrada e se ficasse doente apanhava porque né, ninguém mandou. A gente descia ladeirão com carrinho de rolimã, skate, patins e nunca viu uma joelheira ou um capacete na vida.

Minha infância foi ótima e muito feliz, e tudo bem ter um pouco de nostalgia, mas acho que a gente tem que admitir que ser criança nos anos 80 não era fácil não. Molecadinha criada no iPad não aguentaria dois dias.

via GIPHY

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

Como é que anda a vida

E já que aqui é diarinho, que ele cumpra sua missão. A vida, como tá?

Voltei pra faculdade. Resolvi tirar minha licenciatura em inglês para poder me especializar em educação bilíngue e dar aula em colégio regular. "Cê tá louca, Paula"? Então, na verdade não. Percebi que na minha área, em colégio, tem pouca gente qualificada de verdade (faculdade de Letras não ensina inglês pra ninguém não, viu?), tem salários bons (no particular, né?), tem duas férias por ano e não tem trabalho de sábado. Só vi vantagens diante da minha realidade atual, então coragem. Consegui aproveitar bastante coisa da minha primeira graduação então acho que termino em dois ou três anos no máximo. Arrependimento só de não ter começado antes.

Meu horário está bem louco pois estou fazendo matérias em todos os semestres. Dificuldade mesmo por enquanto nenhuma. A faculdade é pequena mas bem conceituada na área e embora eu pudesse ter escolhido só pegar o diploma numa EAD qualquer achei que pra minha área ter contatos seria bom, então é isso: tô trabalhando tempo integral, estudando e me perguntando que horas vou ter tempo de fazer as unhas mas tô feliz, aprendendo coisas novas e lendo bastante, o que eu não fazia há um tempão. O objetivo final é pouco nobre porém válido: não trabalhar mais de sábado e é nisso que estaremos focando nos próximos anos.

Parei de fumar e voltei a ter crises de ansiedade. Mas tô tomando bupropiona e só de pensar em cigarro me dá enjoo, então estou tendo que buscar maneiras alternativas de me controlar. Sem tempo pra exercício físico, tá foda. Mas vai melhorar. Acho que estou meio anestesiada com tanta coisa pra fazer. Preciso comer melhor, me cuidar um pouco. Passei o domingo na cama assistindo Jane the virgin e foi a melhor coisa que eu podia ter feito

O moço das 10 horas e meia (que é o mesmo dos grafites da Pompéia) continua na minha vida. Já se vão quase 3 meses. A gente vai ao cinema, janta em lugares escondidos, conversa muito sobre várias coisas (vocês já perceberam que a gente é bom nisso) ou fica em casa sem fazer nada (fazendo um monte de coisa). Ensaiei apresentá-lo aos meus amigos sábado passado mas não deu certo. No fundo eu gosto de ter esse mundinho só nosso, eu acho. Talvez eu não esteja pronta pra ter alguém assim tão definitivamente ainda, talvez eu não queira conhecer os amigos dele. Talvez eu precise ainda de um tempo só meu depois de passar 11 anos emendando relacionamentos. Talvez eu só não esteja apaixonada. Mas tem alguma coisa boa por ali e eu não quero que ela acabe.

A vida não está ruim e se eu reclamar serei injusta. Que continue assim.

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sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Me escutas, Cecília?

Cecília vem do latim e significa "cega". Os romanos e os gregos antes deles associavam a cegueira à sabedoria e existe toda uma simbologia em torno desse binômio cego = sábio. Mas a minha Cecília tem esse nome é por causa de uma música do Chico Buarque.

Minha Cecília é a única geminiana numa casa que antes abrigava três librianos, mas eu já disse que a família Foltran não acredita nisso. Minha Cecília aliás, como a mãe e a tia dela, é Foltran só no sangue e não na certidão de nascimento.

Minha Cecília tem os olhos e o sorriso da mãe dela, mas pelo jeito vai ser grandona como o pai. É uma bebê boazinha e sorridente, que dorme quando tem que dormir e mama quando tem que mamar. Fica bem no colo de todo mundo, até das tias desajeitadas e com bafo de cerveja tipo eu e a Elis.

Minha Cecília é brasiliense e não vai puxar os RR de caipira do resto da família inteira. Mas, mesmo longe de Campinas,  se depender do empenho do pai vai torcer pro Guarani sim, coitadinha.

Minha Cecília, quando tiver idade suficiente, vai ouvir as tias falando de como estava o mundo no ano em que ela nasceu e vai achar que a gente estava inventando. E como eu sou uma otimista incorrigível quero acreditar que é porque o mundo vai estar tão bom que 2017 vai parecer uma ficção de mau gosto.

Minha Cecília veio parar numa família de gente muito destrambelhada mas muito amorosa. Tem sorte, essa menininha.



Te olho, te guardo, te sigo, te vejo dormir.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

The Lobster

Daí você chega a um certo ponto da vida adulta e está: solteiro. Ou viúvo, ou divorciado. A sociedade aparentemente não está preparada para lidar com gente sozinha, então coloca esse povo todo em um hotel e dá a essas pessoas 45 dias para ~encontrar o amor~. Se elas não conseguirem, ao final do período, serão transformadas em um animal à escolha delas.

Essa é a premissa de The Lobster, um filme de 2015 no qual eu tropecei enquanto assistia ao trailer de um outro filme do mesmo diretor que vai ser lançado esse ano. É um comédia-dramática-bizarra com uma estética Wes Anderson menos coloridinha e que caminha rapidamente pra uma coisa meio Tarantino lá pela metade da história.

Eu não sei fazer crítica de cinema, mas obviamente estando solteira aos 38 anos não pude deixar de ficar um tanto quanto impactada ~risos~ pela história.

Eu me lembro de umas amigas solteiras do falecido. De quanto elas se incomodavam com esse rótulo. De quanto elas rejeitavam qualquer coisa que vagamente sugerisse que elas estavam ~solteiras~ (tipo sair só com as mulheres, usar aplicativo de pegação, ir ao cinema sozinhas). De como, uma vez encontrado um ~namorado em potencial~, elas realmente investiam tempo e recursos pra fazer aquilo virar um relacionamento de verdade tal qual o personagem do filme que bate o nariz na borda da piscina para forçar um nariz sangrando e ter uma coisa em comum com a moça propensa a hemorragias nasais. E de como, quando o namorado em potencial virava namorado de verdade, surgia essa necessidade de esfregar o cidadão na cara de todo mundo, fazer post no facebook, reclamar o quarto melhor na divisão da casa da praia pois "subi de nível, tenho namorado". Mulher depois dos 30 solteira é tão pária que mesmo sendo uma deos nos livre parecer uma.

Uma coisa interessante do filme é colocar homens e mulheres no mesmo barco: ficar solteiro depois de uma certa idade é igualmente merda para todo mundo. Pessoas sozinhas são paradas por policiais em busca dos certificados de casamento. Se você não tem um par nem deveria estar ali queridinho. Mas na vida real a gente bem sabe que do nosso lado é muito pior.

Deixa eu falar que eu não estou aqui me fazendo de coitadinha, vítima dessa sociedade injusta que marginaliza mulheres solteiras porque na verdade eu estou zero me fodendo pra isso. Grazadeos tive muitos exemplos de mulheres solteiras e incríveis na vida pra achar que encontrar um macho é a fórmula do sucesso, mas é muito claro que a cobrança é bem maior pra gente. Falecido tinha um amigo solteiro eterno, um cara de 33 anos que NUNCA tinha namorado ninguém. Alguém cobrava o caboclo, zoava, chamava de encalhado? Nada, o cara tá curtindo a vida ué. Já as minas estão solteiras porque são chatas, porque são exigentes, porque são desesperadas pra casar e assustam os ómi, porque trabalham demais. Porque querem, jamais. É errado uma mulher querer estar solteira (ou apenas se sentir bem e completa nessa situação) e aí elas embarcam nessa loucura de que né, mulher só é feliz se estiver num relacionamento.



O filme é divertido e perturbador. Tem Colin Farrell meio tiozinho mas sempre válido e eu adoro essa coisa esquisitona que descamba pra uma violenciazinha gratuita, my kind of movie, inclusive.

E obviamente ao final dos meus 45 dias eu me transformaria num gato. Mas acho que cês já desconfiavam disso.