segunda-feira, 27 de setembro de 2010

M. e as baratas

Durante cerca de três anos eu dividi meu aluguel com uma veterinária que chamaremos aqui de M. Veterinários, como vocês devem imaginar, são profissionais acostumados a lidar com situações que para nós, pobres mortais, se assemelhariam a uma prova do "No Limite". Certa vez M. me narrou, com um sorriso no rosto, as horas que passou exterminando colônias de larvas de mosca alojadas no canal auditivo de um pastor alemão.

Embora fosse uma moça muito destemida, M. tinha seu calcanhar de Aquiles no mundo animal - as baratas. Não tratava-se de medo ou nojo. A relação dela com as cascudinhas de seis patas só pode ser explicada através dos episódios que narrarei a seguir, dos quais fui testemunha.

Certa noite, M. tomava banho enquanto eu e o namorado dela assistíamos TV na sala. De repente ouvimos um grito que só podia vir das profundezas de uma alma atormentada e, meio segundo depois, M. apareceu enrolada na toalha, com uma expressão no rosto de quem tinha visto o próprio capiroto.

"Tem uma barata no meu quarto..." Balbuciou, sem forças.

Eu, que nunca me incomodei com as periplanetas (a menos que ataquem em bando, claro), me juntei ao namorado dela na missão de mandar a coisinha-ruim para o quinto dos infernos. Munidos de chinelo e Baygon vasculhamos o quarto de cima a baixo e nem sinal do bicho. Como morávamos num sobrado, calculei que ela tinha escapado pela janela aberta.

"Eu não entro lá enquanto não pegarem o demônio!" Decidiu M. E não entrou. Dormiu na sala por quatro dias. Foi preciso que o namorado, decidido a dar um fim naquela situação, matasse uma barata genérica e a apresentasse como vinda do quarto para que ela concordasse em pisar lá outra vez, não sem antes fazer uma faxina digna de epidemia de peste negra. 

Em outra ocasião cheguei em casa por volta das 9 da noite e encontrei M. sentada na soleira da porta da frente. Cabe aqui explicar que morávamos num sobrado daqueles com garagem no térreo e porta lateral que dá numa escada conduzindo à sala no primeiro andar.

"Esqueceu a chave, M.?"

"Não... É que tem uma barata no topo da escada..."

Basicamente minha roommate estava na calçada desde as 6 da tarde, incapaz de entrar por causa do mini-monstro.  O namorado estava fora da cidade e os transeuntes abordados se recusaram a subir achando que era pegadinha, que um sujeito vestido de gorila os estaria esperando lá em cima, sei lá.

Entrei, matei a barata na sapatada, joguei o corpo no lixo e passei um paninho no chão. Daquele dia em diante M. nunca mais entrou em casa com a mesma confiança de sempre.

Eu me pergunto até hoje como é que ela se virou depois que eu fui embora.

2 comentários:

  1. Eu não a culpo. Uma vez vi A FOTO de uma barata em uma revista, larguei-a na mesa, saí correndo e gritando e tive que chamar Bêibe pra virar a página. Coisas que não se explica, mas que todo mundo entende.

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