terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sexta a noite

Primeiro há todo o drama da massa - Está muito rala? Muito grossa? Quanto mais de farinha até o ponto desejado? Qual é é o ponto desejado?
Então você decide colocar mais farinha, e, para seu horror, a coisa dentro do liquidificador começa a parecer uma argamassa. Recomeça todo o processo - água, sal, tempero, bate mais um pouco. Após minutos de considerações que envolvem a temperatura ambiente, a pressão atmosférica e até a expressão da Palmirinha quando fez esta receita na TV, decide que aquilo é como uma massa de panqueca deve se parecer. Reza uma ave-maria, coloca a frigideira no fogo e prossegue.

Calma, ainda não. Primerio você precisa saber qual é a quantidade de óleo a ser despejada no recipiente. Muito transformará sua obra culinária num disco de borracha engordurado. Pouco fará com que a massa grude na panela de forma trágica e indelével. Mais uma vez aquele bom senso que você nem sabia que tinha entrará em ação, não antes de minutos de seríssimas elocubrações. E a temperatura? Será a ideal? Qual a quantidade de massa a ser utilizada para cada panqueca? São tantas decisões que você, por um momento, questiona a idéia imbecil de cozinhar aquilo ao invés de esquentar uma lasanha Sadia. Mas segue em frente, resoluto - jantará panquecas naquela noite nem que isso lhe custe lágrimas.

Ao despejar a primeira leva de massa você entende porque fez isso. A sensação de uma panqueca que dá certo é indescritível. Você é tomado por uma súbita alegria ao perceber que a massa fininha miraculosamente se desgruda da frigideira e consegue ser virada sem dificuldade, exibindo-se bela e douradinha. Sim, sua panqueca é uma realidade.

A segunda panqueca sai um pouco mais grossa que o planejado - há um cheiro de frustração no ar. Mas você, que bravamente chegara até lá, não vai desistir diante da primeira dificuldade. Assim faz a terceira e a quarta.

A quarta panqueca. Eis que ela surge para colocar sua vontade à prova grudando na frigideira. Sim, você esqueceu de colocar a segunda leva de óleo. Coragem! Não se deixe abater - há um liquidificador inteiro de massa crua esperando para se transformar em discos macios e tostados.

Sim, um liquidificador inteiro. Depois da décima panqueca você não aguenta mais ficar em pé, as pernas doem, a massa parece infinita. Você está desesperado para desgrudar a barriga do fogão e tomar uma cerveja, mas não pode. Tem uma missão. E ela será levada até o final.

Quando a massa por fim acaba você já perdeu a fome. Está cansado e quer dormir, mas ainda tem que rechear cada círculo, enrolá-lo, cobrir com molho de tomate e levar para gratinar. Você acha que não vai conseguir. Reunindo suas últimas forças você termina o trabalho, coloca a mesa e espera seu convidado.

"Ficou ótima, namorada".

Parece só uma panqueca. Mas é uma montanha-russa de emoções.

2 comentários:

  1. Hahahaha! Que linda! Eu, que te conheço e seu gosto por congelados, tô morrendo de orgulho!!! E viu, dá pra congelar, já enroladinha, com molho e tudo. Depois te ensino um truque bacanão da minha sogra. Parabéns! Beijos!

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  2. Invejo a sua coragem de enfrentar a frigideira. Minhas panquecas sempre falham, ficam grudadas, rasgam. Devido aos consecutivos fracassos, acabei desenvolvendo uma fobia dessa etapa da preparação panquecal.

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