quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

Quando Fevereiro chegar

Eu até devo ter passado por aquela fase pré-adolescente boboca que se acha melhor que todo mundo só porque descobriu o roquenrol e que por consequência detesta carnaval. Confesso que não lembro, mas pode ter acontecido. Fora estes dois ou três anos, o que eu posso dizer é que sempre amei a festa. Venho de uma família foliã, de primos que se vestiam de mulher atrás do bloco, mãe que fazia questão de costurar minhas fantasias, primas mais velhas que me levavam à matinê para garantir mais umas horas de bagunça, tio que passava a madrugada vendo e comentando o desfile na TV.

Pulei carnaval de clube, daqueles regados a muita marchinha e, mais na adolescência, axé.  Mais que isso, comi muito cachorro quente na saída e esperei o dia raiar na rua apenas porque "no carnaval podia".  Voltava para casa a pé, pendurada na minha irmã, levando pão e cumprimentando as tias que varriam as calçadas, coisa de quem morava numa cidade de 30 mil habitantes. O carnaval, aliás, é minha única lembrança boa dessa cidade.  Meu primeiro porre foi com bombeirinho num baile de carnaval, dei meu primeiro beijo atrás das coxias enquanto no palco rolava "Alô paixão, alô doçura." Fiz camisetas escrito "acho que vi um gatinho" na frente e "mas nem foi você" atrás e saí com as amigas pra levar litros de espuminha no cabelo. Já beijei um, já beijei dois, já beijei três em Ouro Preto. Encontrei o amor num carnaval.

Eu entendo quem não gosta, juro. Meu pai mesmo não curtia, sempre foi de ficar no canto dele, meio alheio à bagunça. Mas não condenava ninguém. Não fazia muxoxo quando alguém botava no desfile, não questionava a necessidade da minha mãe de costurar 1897 lantejoulas no meu bustiê de baiana, não passava quatro dias pregando a superioridade do rock sobre o samba. Não perdia tempo declarando que, oh, carnaval é coisa de desocupado, de país subdesenvolvido, é desculpa pra galera não trabalhar. Ele aproveitava para dormir até tarde, passar o dia inteiro de bermuda e chinelo e ler até o necrológio do jornal.

Acho que você já entendeu, coleguinha, que esse texto é pra você. Você que está lá no facebook classemédiasofrendo, reclamando do dinheiro que o governo gasta no carnaval, pregando que gente inteligente vai pro carnarock, fazendo slutshaming com quem está simplesmente exercendo sua liberdade de mostrar o corpo e beijar quem quiser não só no carnaval mas em qualquer época do ano.

Você não sabe o que está perdendo. E tem todo direito de continuar assim. Mas não é melhor que a galera que corre atrás do trio, assim, só pra te informar.

5 comentários:

  1. Essa coisa de classe media sofre me da nervoso!
    Eu sou uma pessoa que nunca teve acesso a nada de carnaval... minha família não gostava e sempre fugíamos pro sitio, ficar la no silencio... Mas oh, ficar falando que carnaval eh coisa de pobre, de favelado, de sub-mundo isso e aquilo a gente NUNCA fez!

    Alias, aqui em Narnia tambem tem carnaval, praqueles que pensam que o povo daqui eh super culto e so fica em casa ouvindo musica clássica. E aqui eh bem pior, porque faz -10C la fora!

    Se eh pra pular, que seja no calor, ne?

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  2. Sei que é chato essa história do "e eu", mas e eu que quase escrevi um posto sobre carnaval falando mal dessa gente que chama a festa de "ópio do povo". Ô gente besta! Aí, optei pela poesia...

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  3. Leitora silenciosa que resolveu comentar rsrsrs Eu n gosto de assistir as escolas de samba, n acompanho o desfile, mas se surgisse uma oportunidade para sair em uma escola de samba ia com vontade rsrs Nao sou muito dada a folia, gosto de ficar em casa quietinha, mas chance de se divertir deve ser aproveitada seja no samba, no rock ou musica classica. Acho uma falta de tempo sem tamanho ficar julgando quem gosta. As vezes sinto que as pessoas tem uma necessidade absurda de querer mostrar uma intelectualidade que nao pertencem a elas. Deixa a galera curtir o carnaval!! Eu bem gostaria de ter o feriado de Carnaval por aqui (EUA) rsrs

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  4. Hahaha Aline, adoro quando leitores silenciosos se manifestam!

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