sexta-feira, 3 de abril de 2009

O último tango no telecine

Depois de "Alice no País das Maravilhas" um dos meus livros preferidos é um herdado do meu pai, "O Diário de um Cucaracha", do Henfil. Nesse livro foram publicadas as cartas que ele escreveu para os amigos e família aqui no Brasil no tempo em que morou nos Estados Unidos (73, 74). Lê-lo é uma experiência deliciosa - é como se o próprio Henfil estivesse sentadinho na nossa frente, na mesa do bar, contando aquelas histórias. Amo quem consegue escrever assim.
Uma das cartas mais engraçadas é aquela na qual ele conta do dia em que foi assistir a "O Ultimo Tango em Paris" lá em Nova Iorque. Coloco um trechinho aqui, que achei na internet:

"Taí, fiquei decepcionado. Talvez pelo excesso de expectativa que a gente aí no Brasil tem por este filme proibido para nós. (...) Me lembro da correria que foi para comprar aquela Manchete que trazia as fotos. Sumiu em meio dia das bancas. E todos guardaram seu exemplar como se fosse panfleto subversivo. Houve, é claro, uma emoção muito grande quando entrei no cinema para ver o fruto proibido. Parecia que eu estava vendo o filme pelo buraco da fechadura, no maior voyerismo. E pelo buraco da fechadura não vi nenhuma das safadezas que sonhava. (...) mais que rupiado, fiquei desapontado. (...) é um filme tão excitante quanto dançar com irmã! (...) A pensar que só de ouvir falar no nome Último Tango a gente aí no Brasil já começa a tirar as calças. (...) Zé, quando este filme passar um dia no Brasil vai ser vaiado! A expectativa é tal, construíram já nas cabeças um filme chamado Último Tango tão diferente do que é, que a turba vai pedir o ingresso de volta pelo logro..."


Eu tinha uns quinze anos quando li esse livro pela primeira vez. Assistir ao filme, portanto, era uma coisa que nem me passava pela cabeça. O tempo passou, esqueci do "tango", talvez até tenha tido chance de assistir mas desencanei. Aí ontem, no Telecine, dou de cara com o tal, já um tanto começado.
E lembrei na hora do Henfil. Em determinado momento da carta ele diz que tinha se preparado para ir a um puteiro e acabou numa festa de batizado. Eu, que não tinha nem um décimo das expectativas que ele tinha sobre o filme na época, achei o "tango" de uma chatice sem tamanho. Fiquei com nojinho da cena da manteiga, achei a Maria Schneider tão sensual quanto um tijolo e não daria para aquele Marlon Brando com cara de velho demente nem a pau. E olha que eu sempre achei o Marlon Brando o cara mais bonito do cinema depois do Marcello Mastroianni (é, tenho um gosto um tanto ultrapassado, pessoal). Enfim, uma bosta, com o perdão da má palavra.

5 comentários:

  1. Ontem eu queria assistir, porque também vi que iria passar. Vi os primeiros 5 minutos, mas como todos os diálogos eram em francês, tive que mudar de canal, já que o namorado não domina nem a língua de Voltaire nem as legendas tupiniquins...

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  2. Hahaha! O trocadilho ficou legal!!!
    Como a Mary, queria ter visto tb, mas porque eu nunca vi; minha mãe me contou a cena da manteiga aaaaaaanos depois, quando eu era mocinha.

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  3. Não perderam nada meninas, só uns bocejos.
    Carla, imaginei minha mãe agora me contando a cena da manteiga. Medo.

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  4. Pé no saco. É o que o tango é. Uma mulher desgrenhada e um véio gordo se lambendo? Odeio.

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  5. Ouvi dizer que hoje em dia há uma empresa chamada "Brasileirinhas", que produz filmes capazes de fazer Felini prostrar-se, pedindo perdão ao Vaticano. Mas aqueles tempos eram outros...

    Em tempo: minha apatia inexplicável por best-sellers me impediu de assistir a Felini. Até hoje.

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