segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Aprendam comigo

Ou a sublime arte de passar vergonha.

Calçando meus belíssimos sapatos novos, dirigi-me à ensolarada região de Alphaville na tarde de sábado para prestigiar mais uma apresentação da banda de queridão. Local aprazível, gente bonita, cerveja meio quente (nada é perfeito nessa vida), deixei os músicos no camarim improvisado e fui ao toilete. Na saída, por obra de uma escada feia, boba e cara de melão (os sapatos não têm NADA a ver com isso), torci o pé. Torção feia, daquelas que doem até a quinta geração e fazem até um "crec". Pouco me restou - sentei no degrau e comecei a chorar.

Queridão ainda hoje se espanta quando eu começo chorar - o advérbio "copiosamente" encaixa-se perfeitamente na minha pessoa quando verto lágrimas. Ou seja, eu estava chorando pra valer. Entretanto, já tendo passado por situação análoga outras vezes, sabia bem o que aconteceria: meu tornozelo incharia, ficaria dolorido alguns dias e voltaria ao normal. Nisso um guarda me viu sofrendo. Solidário, perguntou se estava tudo bem. Respondi que sim, mas diante do rio de lágrimas que escorriam do meu rosto, ele não acreditou. Pegou o walkie-talkie e chamou alguém.

"Moço, eu juro que vou sair daqui andando, não precisa chamar ninguém não..."

"Você está sozinha?"

"Não, minha amiga foi buscar meu namorado..."

Walkie-talkie outra vez. Diante da perspectiva de virar o centro das atenções do evento, protestei:

"Moço, eu estou bem, juro!"

Nisso queridão chegou. Atrás dele, uma ambulância. Pessoas se juntavam à minha volta, o guarda fazia perguntas à minha amiga para anotar a ocorrência. Mediquinho com cara de surfista desce da ambulância com outra médica:

"O que aconteceu?"

"Torci o pé, mas já estou bem, olha!" Mexo o pé com certa dificuldade pra mostrar que não quebrou. Naquela hora já queria sair de lá o mais rápido possível. Garanto a queridão que vou sobreviver e ele volta para o camarim, pois já vai começar a tocar.

"Quer tirar uma radiografia? Tomar um anti-inflamatório?"

"Doutor, daqui a pouco eu saio andando, na hora doeu bastante, mas já passou!"

"Tá, vou te dar um pouco de gelo, então."

A médica volta com gelo dentro de uma luva de látex. Fiquei ali mais uns dois minutos. A ambulância foi embora e eu fui, mancando, até o lugar da apresentação da banda.

Agora imaginem vocês se alguém enfarta do outro lado do evento e a ambulância está lá atendendo pé torcido. A culpa ia ser minha. Credo.

3 comentários:

  1. Bem, sinta-se feliz. Isso significa que você é um mulherão.

    Ninguém dá uma atenção dessas a uma baranga. Eu não dou, pelo menos. Hohoho.

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  2. Mas esse guardinha atencioso e esses médicos hiper prestativos só podiam estar no Alphaville, mesmo.
    E by the way, quando eu te ver chorar, vou ficar assustadíssima.

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  3. Meu Deus do céu, chorei de rir, literalmente.Quantas vezes eu já não vi essa cena???
    Afffffeee!!!

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