sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O apanhador no campo de centeio

E aí o Salinger morreu. Para ser muito sincera eu nem me lembrava que ele estava vivo, uma vez que andava recluso há muitos anos e, vamos falar a verdade? escreveu um único livro que vale a pena. Mas como vale a pena.
Eu li "O apanhador no campo de centeio" na época certa, entre o meio e o final da adolescência. Não dá pra ler depois sem achar o Holden Caulfield um dos personagens mais insuportáveis da literatura mundial. Mas aos dezesseis, dezssete anos, o livro faz um sentido assustador, absurdo. E sim, Salinger instituiu todo um jeito novo de escrever que influenciou muitos escritores depois dele. Eu poderia citar dezenas de autores que escreveram muito mais livros e de mais sucesso que o dele e que nunca chegarão nem perto do que o Salinger representou para a literatura.

Enfim, este post nem é pra falar do Salinger. É na verdade para narrar um episódio insólito da minha vida envolvendo o Holden Caulfield.

Feriado em São Tomé da Letras. Eu ainda estava na faculdade e encarei o programa hipongo com um grupo de amigos que tinham alugado a casa da Juíza. Sim, este era o nome da dona da casa, com direito a letrinhas de gesso na porta do quarto.
Um dos programas clássicos de São Tomé é subir no topo da "pirâmide" e ficar doidão lá em cima. Como maconha não estava na lista de preferências da minha turma no quesito "ficar doidão", compramos um garrafão de vinho (eu sei, eu sei, época de faculdade, todo mundo sem dinheiro) e nos engajamos no ritual dos malucos da cidade.

Fazia frio. Bastante. E se tem uma coisa que aniquila meu humor sem chance de sobrevivência é o frio. O mau humor aliado ao álcool disparou em minha pessoa uma reação extrema e bizarra - eu comecei a chorar. Eu juro que não lembro o porquê, mas verti lágrimas de verdade (e quem lê este blog com frequência sabe que minhas lágrimas não são brincadeira). Resolvi voltar para a casa da Juíza. Diante do meu estado extremamente alcoolizado, dois amigos resolveram me escoltar. Para piorar, começou a chover. Eu ia andando pelas ruas de pedra São Tomé escorregando e chorando enquanto amaldiçoava as "malditas pedras sabão" que não me deixavam andar. Os amigos me seguiam em silêncio, sem nem tentar me consolar (já que aquele choro era uma maluquice completa) até que em determinado momento eu berrei: "Eu sou mesmo uma mala. Sou muito chata. Nem o Holden Caulfield é mais chato que eu!".

Eu não me lembro disso, devo dizer. Meus amigos me contaram no dia seguinte que eu parecia possuída e perguntaram quem era o tal Holden sei-lá-das-quantas. O que me lembro é que acordei antes de todo mundo e passei a manhã em cima de uma pedra que ficava no quintal lendo "Pollyanna" - o único livro disponível na casa.

Não pretendo voltar a São Tomé das Letras, que fique claro. Aquele lugar causa reações estranhas na gente.

2 comentários:

  1. Quando li a notícia tinha certeza de que escreveria sobre ele. A Literatura é isso mesmo, acompanha a gente nos piores momentos e eles se tornam melhores e inesquecíveis.A propósito, eu lembro porque vc chorou...

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  2. Este era um clássico que faltava em meu repertório. Li o livro por causa deste post, acredite se quiser (e também porque o encontrei na biblioteca de papis abandonada no sítio). E é fato que ele é o personagem mais insuportável da literatura intergaláctica.

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