quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Aos livros que não vou terminar de ler

Mrs. Dalloway

Olá Virginia (posso chamá-la de Virginia, né? Você não me parece o tipo que faria questão do Sra. Woolf).

Eu até simpatizo com você, sabe? Li Orlando, traduzido, na faculdade, e embora tenha achado o livro esquisitíssimo a leitura foi bem agradável. Tanto que me incentivou a, anos depois, adquirir um pocket de Flush, que li com muito prazer e recomendo a todo mundo até hoje.
E então eu assisti As Horas. Você sabe do que eu estou falando, não? Aquele filme, inspirado no seu livro, que deu um Oscar à Nicole Kidman só porque ela sustentou seu narigão (desculpe, sem ofensas). Enfim, imagino que milhares de pessoas tenham adquirido Mrs. Dalloway naquela época e eu fui uma delas. Mas fiz o favor de adquirir uma edição da Penguin em inglês.
Veja bem, Virginia, eu sei falar inglês. Vivo disso, inclusive, o que leva qualquer um a concluir que eu domino seu idioma nativo. Infelizmente dominar seu idioma nativo não foi suficiente para me fazer passar da quinta página do livro. Eu disse quinta. É muita digressão, é muito fluxo de consciência, é muito rodeio, é muito personagem que surge do nada. Isso em cinco páginas. Não deu. E olha que eu tentei. Há mais de cinco anos sua capinha amarela me encara na estante me fazendo lembrar constantemente meu fracasso e hoje, finalmente, estou me libertando. Não vou ler Mrs. Dalloway. Não sinta-se mal nem questione seu talento, Virginia. Sou só uma moça do final do século XX que provavelmente não captou toda beleza e complexidade da sua prosa.

Atenciosamente,

Cheshire Cat


Os cus dos Judas
Caro sr. Lobo Antunes,

Antes de mais nada gostaria de dizer o quanto acho o nome do senhor bacana. Lobo Antunes. Isso sim é nome de escritor. Ouvi dizer nas aulas de Portuguesa V que o senhor era o maior representante da literatura lusa contemporânea. Para a tchurminha entendida, inclusive, era muito mais importante que o Saramago, aquele vendido escritor de best-sellers. Desculpe, me perco em bajulações.
Eu, como estudante de Letras interessada, não poderia desconhecer um autor tão crucial em língua portuguesa e corri adquirir um exemplar de seu livro mais famoso, Os cus dos Judas, que trata de um tema que eu, sem ironia, acho interessantíssimo, que é a guerra da libertação de Angola.
Descobri que o senhor é médico. Eu tendo a antipatizar com médicos escritores porque imagino que ser médico deve ser muito difícil, assim como ser escritor, e não acho justo que alguém seja capaz de fazer as duas coisas, mas enfim. Seu livro é um relato do tempo que o senhor passou servindo como médico do exército português na guerra. E, me desculpe a sinceridade, mas seu livro é chato.
Eu sou uma leitora, sr. lobo Antunes. Jamais, portanto, desqualificaria um livro por ser longo, por ser parado, por ser ser difícil. Mas chato, bem, eu desqualifico um livro por isso. Seu livro fala, fala, fala, páginas e páginas discutindo o som do cano do fuzil no meio da noite quente de Luanda. Ou o hálito mentolado da prostituta não sei de onde. É paranóico, claustrofóbico e me deixava extremamente aflita. Parei. Olhando a marcação de páginas vejo que fui relativamente longe, cheguei até a letra O (o senhor sabe, claro, que seu livro é dividido em capítulos que vão de A a Z), mas agora é inútil retomar pois não havendo uma ordem cronológica satisfatória nos eventos que o senhor narra, eu teria que voltar à letra A. Por isso eu desisto. Não me considerarei burra ou menos capaz por isso. Simplesmente não me dei com o senhor.
Espero que não fique chateado. O senhor ganhou um montão de prêmios, reconhecimento internacional, uma leitora a menos, uma a mais não lhe fará diferença.

Atenciosamente,

Cheshire Cat

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