quarta-feira, 2 de março de 2011

1/3/1996

Ontem fez 15 anos que meu pai morreu. E eu nem me lembrei. Nem minha mãe ou minha irmã.
Eu deveria me envergonhar de dizer essas coisas, mas a verdade é que, há pelo menos uns 10 anos, eu só me lembro que meu pai morreu dia primeiro de março de 1996 no dia 2, porque é o dia em que os Mamonas Assassinas morreram e aí todo mundo me lembra.

Seu Adelphi foi um cara sensacional, e isso não tem nada a ver com ser meu pai. Pergunte a qualquer um que tenha tido a sorte imensa de conhecê-lo. Ele era um cara inteligentíssimo, que passou em segundo lugar na FEA (e gostava de dizer: "na minha frente só tinha um japonês") mas que um dia se aposentou e resolveu levar uma vida diferente. E comprou um boteco no interior. Boteco, boteco mesmo, pé sujo, com chão de piso vermelho e pôster do Esporte Clube Votoram, vice-campeão varzeano de 1977.

Ele se foi um ano depois. Mal teve tempo de curtir o bar, mas no seu velório vários bêbados notórios da cidade apareceram, visivelmente sentidos. O velório dele não foi o dia mais triste da minha vida, porque foi o fim de um sofrimento terrível, de quase um ano de muita dor, idas e vindas de hospitais e por fim, a perda da consciência. Esse foi o dia mais triste da minha vida - o dia em que meu pai não me reconheceu mais.

Eu só voltei ao cemitério uma vez depois disso. O túmulo nem sei como está, não sei se minha mãe ainda vai lá. Para mim não importa. Meu pai não está naquele lugar. Não há nada dele naquele bloco de concreto. A dor que eu sinto hoje é a da injustiça. De como me parece errado que um cara tão sensacional tenha morrido aos 53 anos, sofrendo absurdamente e que não tenha visto as filhas se casarem, se formarem. Que não vá ver seus netos.

De vez em quando eu ainda choro muito. Porque a verdade é que a gente se conforma. Aceitar, acho que nunca.

2 comentários:

  1. :(

    Nossa Paula, me identifiquei tanto com coisas que vc falou. Nesse domingo mesmo eu estava comentando com minha como eu achava triste saber que meu pai morreu sem completar um *ciclo*, sem ver nenhum filho formado, casado(e ele sempre falava de como ia entrar comigo na igreja), sem nenhum neto (que ele doido pra ter)... E também não voltei mais ao cemitério, 2 anos e poco depois. Aquele não é o lugar do meu pai.


    Lembro de uma vez que eu tava no ônibus domingo de manhã e vi um casal mais velho com 3 menininhas - suas netas, eu deduzi- conversando animados com as crianças, todos cheios de paciência e me deu uma tristeza tão grande de ver que nunca ia ver uma cena assim acontecendo na minha vida. Nem senti tanto por mim, foi mais pelo meu pai mesmo, que SEMPRE falava no quanto ia brincar com os netos e levar pro Maracanã e tudo o mais. Só de lembrar eu até choro, é foda.

    É tão triste perder um pai cedo.

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