quinta-feira, 19 de maio de 2011

Gastronomia de República

Muito se fala sobre a gastronomia de boteco. Hoje, inclusive, a tal é alvo de estudos seríssimos e apreciada por gourmets, chefs e qualquer outra raça que se denomine “entendido de comida”. De repente frango a passarinho virou um negócio chique. Nada se discute, entretanto, sobre outro ramo pouco nobre da culinária – a gastronomia de república, a irmã (mais) pobre da gastronomia de boteco.

Been there, done that, pessoal. Vivi cinco anos dividindo apartamentos bagunçados com muita gente esquisita. Briguei por telefonemas de 20 reais sem dono na conta, aturei namorados alheios enrolados na minha toalha, acordei mais cedo para usar o banheiro sabendo que minha roommate curtia fumar um cigarrinho enquanto fazia o número 2 de manhã, comi miojo em mesas de metal descascado.  Glamour, tem mas acabou.

Eis que colega Paula Scarcelli me brinda com este vídeo e me relembra os anos em que pilotei um fogão que contava com apenas uma boca ativa. Com isso, decidi resgatar algumas delícias da culinária de república, arte especializada em se virar com os recursos materiais e financeiros mais parcos possíveis:

1. O miojo festivo
Desista, companheiro – você não passará por uma república sem recorrer ao bom e velho macarrão instantâneo.  Hoje em dia é possível passar praticamente um mês comendo a iguaria diariamente sem nunca repetir um sabor (e, por favor, ignore o de caldo de feijão. Quem foi que teve essa idéia meu deos?). Isso se você não morrer de overdose de sódio em 15 dias. Enfim, nos dias em que a pessoa dispõe de tempo, disposição e ingredientes (coisa rara numa república), pode-se sempre apelar para velhos truques para enfeitar aquele Nissin de galinha caipira que vai vencer semana que vem. As possibilidades são infinitas – requeijão, tomate, peito de peru, ervilhas, tudo misturado e jogado dentro da panela formando uma maçaroca branca quase apetitosa. Mas não se engane – o miojo continua lá, impávido, deixando bem claro que sim, você vai jantar numa mesa de metal descascado.

2. O atum
Não se preocupe se você pertence à estranha categoria de “gente que odeia peixe”. Atum enlatado por pouco não se qualifica como produto do mar. É barato e surpreendentemente mais rápido que miojo. Se você nunca almoçou atum direto da lata, não sabe o que é alegria de viver – mas se dispuser de uns minutos a mais, misturá-lo com um tomatinho e colocá-lo entre dois pães de forma não fará mal nenhum.

3. O feijão
Mentira. Ninguém come feijão em república. Aliás, se uma casa de estudantes tiver uma panela de pressão, nem pode ser considerada uma república.

4. O churrasco
Ok, sejamos honestos – o nome correto seria “a linguiçada na grelha da geladeira”, mas a gente chama de churrasco e pede para cada um trazer sua cerveja (e especifica que não, não pode Kaiser nem Bavária).

5. A parmegiana de nuggets
Os nuggets, depois do miojo e do atum, são os melhores amigos do estudante/preguiçoso com fome. Depois de fritos, são cobertos com outro ingrediente básico de uma despensa de república, o molho de tomate enlatado e aquela mussarela esperta, colocados no microondas e voilá. O mais próximo de uma parmegiana de frango que você vai chegar. Pode ser feito com catchup numa versão mais roots e é uma ótima receita para aproveitar aquele queijo velho que ninguém lembra quando comprou.

6. A caipirinha alternativa
Acontece. Um dia a pessoa decide se embebedar com seus roommates e a cerveja acaba no meio da madrugada. Não há supermercados ou lojas de conveniência 24 horas por perto. No armário apenas uma garrafa de Velho Barreiro e na geladeira um pacotinho de limões do Habib’s esquecidos da última entrega (porque alguém os guardou permanece um mistério). Pronto. O resto da noite está garantido.

Vejam bem, diante desta dieta eu sobrevivi. Estou aqui, saudável e bem nutrida 10 anos depois. E dizendo com orgulho que não vejo uma garrafa de Velho Barreiro e uma grelha de geladeira fora da mesma desde então. 

6 comentários:

  1. hahahahaha "o feijão - mentira". muito bom.

    ResponderExcluir
  2. Não consigo enxergar nada. Tá tudo embaçado de tanto chorar de rir!

    ResponderExcluir
  3. Muito bom!!! me fez ter lembranças muito boas(??!!) esse texto!! Faltou ai o sanduiche do extra e a boa e velha trakinas!! =)

    ResponderExcluir
  4. Noossa, o sanduíche do Extra salvou muitos almoços.

    ResponderExcluir
  5. Eu sobrevivi com muitos potinhos congelados de comida feita pelo meu pai...

    ResponderExcluir
  6. Eu tinha uma panela de pressão!! Nunca usamos, mas tínhamos...

    ResponderExcluir