quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre Finados

Quando eu era criança era assim: ia-se para o interior no feriado. Minha mãe e minhas tias (cinco mulheres, no total) se reuniam e iam ao cemitério lavar o túmulo dos meus avós. Os irmãos (quatro) nunca iam. Era trabalho das mulheres.

De vez em quando os pequenos iam. Para nós era só um programa meio chato, ter que ficar em um lugar onde não se podia correr ou gritar. Não tinha essa consciência do culto aos antepassados e nem minha mãe parecia fazer muita questão de me ensinar isso.

Meu avô não conheci, morreu quando minha mãe tinha três anos. Atropelado. Numa cidade que na época devia ter mil habitantes ou menos. Em 1956. Seria quase cômico se não fosse trágico.

Da minha avó tenho lembranças confusas. Ela se foi quando eu tinha cinco anos. Lembro de quando ela ficou em casa se recuperando após ter perdido uma perna por causa do diabetes. Minha mãe diz que um dia voltei da casa de uma amiguinha surpresa porque "a avó dela tinha as duas pernas." Nos meus quatro anos não ter uma perna era uma condição inerente a todas as avós.

Ao longo desse caminho perdi alguns tios, a avó paterna (mulher engraçada, vaidosa, de cabelo e batom muito vermelho, péssima cozinheira, o oposto do clichê da avó) e por fim, a perda mais dolorosa, meu pai, há 15 anos.

Depois da morte do meu pai nunca mais voltei ao cemitério. Nenhuma vez. Nem minha mãe, nem minha irmã. O túmulo deve estar lá, sujo, abandonado, nenhuma flor. Quem for lá hoje prestar suas homenagens aos mortos há de pensar "coitado desse homem, não tem ninguém que ore por ele depois da morte." Mal sabem eles.

Para mim é muito simples: meu pai, obviamente, não está lá. Não há nada dele lá. O que restou de seu Adelphi foram as coisas que ele fez em vida. As piadas, os livros do Henfil que ele me deixou, os discos de jazz. Tudo que ele me ensinou. A pessoa fantástica que ele foi. E lavar um túmulo ou colocar flores frescas lá não vai mudar isso.

2 comentários:

  1. Paula, sempre fui ao cemitério desde criança. Desde aquela época achava um lugar bonito, de muita paz. Ontem mesmo eu fui visitar o túmulo de minha avó materna (pois hoje estaria muito cheio). Confesso que sou dessas que repara no túmulo dos outros e se espanta ao ver alguns abandonados... Mas após ler esse seu texto, mudei minha perspectiva. Desejo muita força a vc e à sua família. O tempo pode amenizar a saudades, mas nunca apaga.

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  2. Desculpa mas não concordo com sua forma de pensar pois apesar de acreditar que nossas atitudes em vida são o melhor legado que podemos deixar, creio também que limpar, cuidar e zelar pelo túmulo de um ente querido seja uma maneira concreta de demonstrar nosso respeito a sua memória.

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