sexta-feira, 27 de julho de 2012

Aos meus avós

Diz que ontem foi dia dos avós. Não sei bem porque não os tenho há muito tempo. Avô nunca tive, morreram muito, mas muito antes de eu nascer. Como meus filhos, pelo menos por parte de mãe, não terão também.

Dos meus avôs sei pouca coisa. O materno era um italiano de olhos azuis profundos que ele, de sacanagem, deixou como herança só para minha irmã. A imagem vem de um retrato desses antigos, ovalados, que pendiam nas paredes das casas há trinta anos. É a única imagem, e é a que minha mãe tem dele também. Ele morreu quando ela tinha três anos, atropelado na porta de casa. Na frente dela, embora ela não se lembre. História tristíssima, daquelas que hoje em dia leva-se anos de terapia e remédios para se recuperar mas que em 1956 a única coisa a se fazer era seguir vivendo.

Do paterno nunca vi o rosto. Na verdade não sei absolutamente nada sobre ele, onde nasceu, quando morreu, para que time torcia. Sei que devia ter um senso de humor questionável, pois batizou seu primogênito (meu pai) com o nome de uma marca de cigarro.

As avós eu conheci. Tenho fotos no colo delas, e é engraçado ver o quanto as duas eram diferentes.

A materna, outra italiana bonita, de olhos verdes, cabelos escuros e uma genética danada que fez cinco filhas iguaizinhas a ela. Morreu antes do tempo, eu tinha quatro anos, minha mãe 28. Envelheceu cedo, talvez pelo fardo de criar 9 filhos sozinha e nas fotos em que me carrega está lá, uma senhorinha grisalha de óculos e vestido estampado aparentando muito mais do que os sessenta e tantos anos que devia ter na época. Mais tempo tivesse, teria sido provavelmente aquela avó clichê italiana, que empanturra os netos de comida e começa o molho da macarronada de domingo na sexta-feira.

A paterna era linda. Vaidosa, aparecia lá em casa para pintar os cabelos de vermelho vibrante. Sempre maquiada, elegante, cara de dama da sociedade. Fumava muito e carregava com ela um cinzeirinho portátil, com uma gavetinha, para não jogar as cinzas na calçada. Não sabia cozinhar nem contar histórias, e parecia preferir deliberadamente os netos loiros de olhos claros. Lembro dela nos mandando endireitar as costas e nos lambuzando de protetor solar que "essa coisa de ficar bronzeado é coisa de ralé." Morreu quando eu era adolescente, no momento em que eu meu pai ia perdendo a luta dele contra o câncer. Eu tinha dores maiores (pelo menos era assim que eu sentia) para chorar.

É curioso a gente sentir falta de quem a gente nunca teve. Eu sinto. Principalmente tentando imaginar como estes quatro estariam lidando com o mundo de hoje, tão diferente do deles.

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