segunda-feira, 16 de julho de 2012

Brás Cubas

Hoje em dia é cool ter gatos. Mas eu e minha irmã (hipster-mode-on) amávamos gatos muito antes de ser moda. Amávamos gatos quando não havia ração-especial-light-reforçada-com-vitaminas-para-filhotes-com-problemas-do-trato-urinário, quando não havia instagram para colocar fotos "artísticas" dos bichanos, quando ainda era aceitável fazer cara de nojinho ou de medo diante dos pequenos felinos domésticos. A Suzy foi a primeira, o grande amor, a malhada que morreu velhinha e desdentada dentro da casinha do cachorro. A dona de um gênio péssimo, que detestava crianças e só gostava de verdade do meu pai (mas desconfio que fosse interesse na barriga quentinha e macia dele). A que sumiu no dia da nossa mudança para o interior e foi encontrada dormindo dentro da estufa de doces do bar da família. A mãe da Téia, outro gênio tão ruim que não aceitou uma segunda mudança de casa e teve que ficar com o vizinho para desespero geral da nação.

Um dia, eu já morando em São Paulo, Suzy já tinha nos deixado há alguns anos, minha irmã me telefona:
"Temos um gato. Um vira-latas siamês. Podemos chamá-lo de Miguel, como Miguel Reale?"
"Aff, pelamordedeos, ter que ficar explicando o nome do gato pra todo mundo. Por que não Brás Cubas?"
"Ai, belas merdas, vamos ter que ficar explicando do mesmo jeito. Mas eu gostei, vai, pode ser Brás Cubas."

E assim foi. Brás Cubas se tornou um siamês lata gordo e anti-social, capaz de passar três dias dentro do sofá para não ter que se relacionar. Foi castrado aos dois anos e como aquele que lhe dá nome, não vai deixar a nenhuma criatura o legado da nossa miséria (piadinha que tentei, sem sucesso, fazer no veterinário). Mora com a minha irmã em Brasília e eu o amo não como uma pessoa, mas como um serzinho tão especial e capaz de dar tanta alegria, que acho que ele é mais do que gente. Ele é melhor do que gente. Ele simplesmente é. Ele retribui o amor que lhe é dado da forma como sabe, miando, se esfregando na nossa perna, pulando em cima do teclado no meio de um trabalho importante, correndo para a porta do apartamento quando ouve o alarme do carro lá no térreo. Porque amar um gato é, acima de tudo, compreender que nem sempre vai ser como nós gostaríamos. Mas que vai ser sempre lindo e surpreendente.


Não tô aqui pra ser sociável, tô aqui pra ser lindo.


5 comentários:

  1. Tambem tive gatos quando nao era cool ter gatos, quando todo mundo torcia o nariz e dizia que gatos nao eram amigos, que gatos eram traiçoeiros...

    "A luana tem gatos! Tambem estranha do jeito que ela eh..."

    Sempre tive e sempre terei!

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  2. Saudades das siamesas dos meus avós, Brigitte e Isadora (sim, por causa da Brigitte Bardot e da Isadora Duncan).

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