segunda-feira, 14 de julho de 2014

12 de Julho de 2014

Não adianta fazer essa cara de superior e tentar se convencer de que, ah, foi só um jogo, futebol é assim mesmo, essas coisas acontecem. Esqueça, não vai rolar.

Não adianta repetir para si mesmo mil vezes na esperança de que se torne real que, veja bem, você já sabia que ia dar merda. Que você estava preparado para a merda. Esqueça, você não estava.

Eu não estava. A turma do "não vai ter Copa" não estava. Os urubuzinhos que previram que ia dar tudo errado não estavam. A galera que jurou de pé junto que a Copa estava comprada, esses menos ainda.

No entanto aconteceu. E você, eu e todo mundo que já tem idade para se lembrar, todos nós vamos ter que conviver com o fato de que a enrabada que a gente levou da Alemanha foi histórica sim. E vamos contar para os nossos netos sim, vamos falar da melhor Copa do mundo com um sorriso no rosto e aquela dorzinha no fundo peito.

Daqui a alguns anos eu vou usar o dia 8 de Julho para ensinar meus aluno sobre o past continuous: "What were you doing on July 8, 2014?" Porque todo mundo vai se lembrar.

Eu não vi o jogo. Fiquei enrolando na porta do bar para entrar de papo com um amigo já estava indo embora e quando me dei conta já era 5 x 0. Desencanei. Desencanamos. Subimos a rua Aspicuelta esperando ver ares de cortejo fúnebre mas a verdade é que àquela hora a galera estava ocupada tentando se convencer de que era mentira. Acho que foi isso. Ninguém acreditou até o juiz apitar o fim da partida, e aí já estava todo mundo tão bêbado que restou a uma meia dúzia de idiotas queimar uma bandeira e o resto ficou por lá, tomando mais uma cerveja.

Mas zica pouca é bobagem, meus amigos. Esta pessoa aqui tinha ingressos para a disputa do terceiro lugar ou, como chamarei daqui em diante: para o jogo mais triste da história. Quando os ingressos foram comprados obviamente cogitou-se essa possibilidade - vai que é jogo do Brasil. Mas ninguém esperava que fosse desse jeito.

E assim fui eu, dia 12 de Julho de 2014, para o jogo mais triste da história. Um dia lindo em Brasília, de um céu azul que só a capital federal sabe fazer. Conheci o metrô brasiliense, a rodoviária, peguei ônibus, fiquei no sol. Vesti verde e amarelo, cantei o hino à capela, eu que até então só conhecia o Pacaembu fiquei maravilhada com a imensidão do Mané Garrincha lotado. E nós perdemos. De novo. Bebi mais cerveja do que pretendia, voltei pra casa com 19 (sim, dezenove) copos comemorativos da Budweiser e um chaveiro do Fuleco. Já de noite, sem o sol na cabeça, resolvemos fazer o trajeto estádio-metrô a pé. E foi a decisão mais acertada do dia.

Não tinha ninguém triste pelo caminho. O clima era meio ok, ninguém se importa. Nós fizemos a nossa parte. Nós apoiamos o moribundo até o final e só abandonamos o barco quando vimos que não haveria sobreviventes. Todo mundo voltava devagar, famílias inteiras, casais, grupos de amigos bêbados entoando "Mil gols! mil gols! mil gol mil gols mil gols! Só Pelé! Só Pelé! Maradona cheirador!" E Brasília, iluminada de verde e amarelo, nos abraçava como quem diz "Tão vendo? Já passou. Ninguém mais lembra daquele 7x1." E naquele momento ninguém lembrava mesmo.


Traz a saideira da Copa, garçom!

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