Como (tentar) ser vegetariano numa família italiana

De uns tempos pra cá passei a me interessar de verdade pelo vegetarianismo. Nunca gostei muito de carne mesmo, e como almoço dia sim outro também em um vegano delicioso ao lado do trabalho, comecei a cogitar como seria minha vida sem salame, coxinha ou hambúrguer e pensei “por que não?”

Por que não?

Vejamos. Eu, como boa parte da população brasileira, sou de família italiana. Corre nas minhas veias o autêntico sangue Picco Foltran, vindo diretamente da bota no início do século XX. Ok, no meio do caminho ele se misturou com os magnatas (só que não) do azeite português Oliveira Borges, mas ainda assim em casa sempre fomos mais team pizza que team bacalhau.

Muitos de vocês sabem o que significa ser de família italiana. Significa que sua mãe vai te ligar te chamando para almoçar na casa dela e ao ser indagada sobre quem vai responderá: ah, só a tia Maria e uns primos.

Só a tia Maria e uns primos = 40 pessoas.

Nos aniversários, quando sua mãe disser “nem vou fazer nada, só um bolinho”, você já sabe. Só um bolinho = um bolo de 10 quilos, nhoque, um cabrito assado inteiro, bife a rolê, maionese, talharim ao molho branco, polpetone, frango assado, caponata de berinjela, cinco tipos de queijo, seis tipos de frios, torta de morango, doce de abóbora, gelatina de abacaxi com creme de leite, pudim de leite condensado e manjar branco.  E sim, você vai experimentar um pouco de tudo e levar as sobras para casa. Porque um atestado de que uma mãe italiana falhou em sua missão na terra é o filho sair da casa dela sem carregar no mínimo cinco tupperwares cheios.

Calculem, portanto, o tamanho da traição que seria eu me tornar vegetariana numa família de italianos.

“Então, mãe, eu resolvi parar de comer carne.”

“Ai, lá vem você com essa história de novo, já falei que é só uma fase.”

“Não mãe, é sério. Eu não como mais carne.”

“Mas essa bracciola com bacon que eu fiz hoje você vai comer, né?”

“Não, mãe, bracciola é feita de carne.”

“Ai, mas é só um pedacinho.”

“Mãe...”

“Se você não comer a bracciola vai comer o que?”

“Eu posso comer o macarrão com molho de tomate. E a salada.”

“Você vai ficar doente”

“Não vou não, mãe, existem outras fontes de proteína além da car...”

“Mas e o ferro? Onde você vai conseguir ferro se não comer um bom de um fígado acebolado uma vez por semana?”

“Mas mãe, eu nunca comi fígado.”

“Por isso está com essas ideias idiotas de parar de comer carne!”

“Mãe...”

“Onde foi que eu errei, heim? Criei você e sua irmã do mesmo jeito e agora você me vem com uma dessas?”

“Puxa, mãe, acho que você deveria respeitar minhas escolhas, eu já sou adulta.”

“Suas escolhas? Então você escolheu apunhalar sua mãe pelas costas?”

“Muita gente vive assim, sabe? É saudável e protege os animais.”

“Muita gente, muita gente. São essas companhias que você anda por aí. Sabia que a faculdade de Letras ia acabar te levando para esses caminhos. Andar com gente que não come carne, onde já se viu.”

“Olha mãe, eu já decidi, ok? Você não pode fazer nada.”

(Mãe suspira dolorosamente)


“Você não pode comer só macarrão, vou grelhar um filezinho de frango para acompanhar.” 

Comentários

  1. hahahahahaha, assim são os Gennari Scarcelli hahahahaha. 40 pessoas e o prato de maionese na mão antes mesmo de vc se livrar da bolsa que carrega.

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  2. Voce conseguiu manter sua posicao em relacao a sua mae? Com a minha nao rolou... Ela ate cita os meus falecidos avos e o quanto eles adorariam ter carne pra comer nos tempos das Segunda Guerra... Good grief

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  3. Luana, na verdade essa conversa não rolou, é apenas imaginária hahaha. Estou cortando carne aos poucos e tentando reduzir o consumo ao mínimo do mínimo, mas acho que parar de vez vai ser difícil.

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  4. E eu lendo ouvindo a voz da dona Neide!

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