terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Sobre ídolos e luto

O que aconteceu ontem foi muito triste e muito lindo. Como disseram por aí, foi um privilégio ter vivido na mesma época que o David Bowie e foi bonito fazer parte de um luto coletivo tão sentido. As homenagens póstumas ao Bowie foram como a vida dele: artísticas, emocionantes. Cada gif, cada ilustração, cada texto, cada vídeo de anônimos reunidos cantando as músicas dele, cada depoimento dizendo como ele mudou a vida das pessoas. Até quem não conhecia nada do Bowie entendeu o quão especial esse cara foi e porque ele era tão amado. Chorei ontem várias vezes, em vários momentos. A única vez, aliás, que eu chorei a morte de alguém famoso.

Os anos 90 foram difíceis pra gente que era adolescente. Teve luto coletivo sim, mas a gente vivia de um jeito tão diferente.

River Phoenix morreu em 93. Eu tinha 14 anos e era apaixonada por ele de comprar qualquer revista que tivesse qualquer coisa dele, de colar poster na parede, de ficar #chatiada de não poder assistir "Garotos de Programa" no cinema porque era proibido para menores. A gente não vivia a morte em tempo real, a gente ficava sabendo a noite, no Jornal Nacional. River Phoenix foi meu luto particular. Eu lembro de chegar no colégio no dia seguinte e abraçar a professora de química (que era novinha, surfista, descolada) "Prôôôôô fiquei viúva!" e depois ter que explicar pra ela quem era o River Phoenix. Fora a decepção de ter 14 anos e ver seu ídolo, o amor da sua vida, seu futuro marido morrer de overdose numa calçada em frente a uma balada em Hollywood.

Em 94 teve o Kurt Cobain. Lembro de ir pro colégio no dia seguinte e ver quase todo mundo com suas camisetas do Nirvana. Todos rasgados, de tênis velho, cabelo (muito cabelo) na cara, camisa de flanela e a camiseta. Deve ter sido uma imagem bonita. Ou apavorante.

Em 96 foi o Renato Russo. Confesso que eu já nem gostava muito de Legião Urbana mas ainda assim foi meio que um choque, ninguém esperava. E eu que não era boba nem nada aproveitei a deixa pra ligar para o crush: "Você viu que o Renato Russo morreu? Nossa, tô tão triste venk me consolar."  Hoje eu no máximo marcaria o fofo no feicy.

Ontem eu quis abraçar um monte de gente que eu nem conheço porque para nós, para todos nós, não era só ídolo que partia. Ela um amigo, um cara que entendia a gente. Como Guillermo del Toro (e quem mais?) expressou lindamente neste tweet:




"Bowie existiu para que todos nós, os desajustados, aprendêssemos que a estranheza é algo precioso. Ele mudou o mundo para sempre."


2 comentários:

  1. Que bonito esse Tweet.

    Eu não conheço nada do Bowie,mas MW comovi com tanto amor.

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  2. Uns anos atrás eu lembro que estava ouvindo Bowie e tive um estalo, um pensamento desses que você quase agita as mãos na frente dos olhos pra espantar da cabeça, como se fosse uma mosca. Pensei que "meu Deus, esse homem é humano, eventualmente vai morrer, e como será que vai ser??". O que eu imaginei aquela hora não foi nada comparado a ontem. Eu chorei em casa ouvindo Absolute Beginners, uma música que eu achava até meio breguinha, mas que acabou derrubando o último bastão que estava segurando as lágrimas depois de um dia inteiro vendo os gifs, as imagens, os vídeos de gente cantando as músicas, gente tocando Life on Mars? num órgão de catedral (gente), as homenagens dos outros cantores. Todo mundo tinha uma palavra boa para dizer. Foi triste e bonito demais. Isso que você disse de querer abraçar todo mundo é muito verdade, eu me senti muito conectado com todas as pessoas que estavam sofrendo também. Sei lá, como se eu, você e o Mick Jagger fôssemos iguais, um bando de crianças querendo ficar mais um tempinho com o irmão mais velho que precisou ir embora.

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