segunda-feira, 27 de junho de 2016

Projeto casas - Boituva I

Boituva é uma cidade de cerca de 50 mil habitantes localizada na região de Sorocaba, a mais ou menos 120 quilômetros de distância de São Paulo. Seu nome significa "terra de muitas cobras" em tupi. É conhecida pelo clima agradável e pelo maior centro de paraquedismo do Brasil. Minha mãe nasceu lá em 1953 e aos 18 anos se mudou para São Paulo, onde conheceu meu pai e por aqui ficou. Anos depois, decididos a ter uma vida mais tranquila, meus pais compraram um bar e minha mãe voltou para sua terra natal. Se a gente soubesse que de mais tranquila a vida nova não teria nada...

O bar do seu Adelphi era um boteco pé sujo, desses com chão de encerado vermelhão e poster do Esporte Clube Votoram Vice-Campeão Varzeano de 1973 na parede. Meu pai, economista formado na USP, fã de jazz e de uísque, passou o último ano da vida dele vendendo cachaça no meio da tarde e batendo papo com os bêbados do interior. E feliz.

Nossa casa ficava atrás do bar. Era muito pequena, velha, feiosa, improvisada. Eu detestava aquela casa que era para ser provisória e acabou ficando meio definitiva quando, no início de 95, meu pai descobriu um câncer no tórax em estágio avançado. Ele morreu quase que exatamente um ano depois. Foram tempos de perrengue, falta de grana total, minha mãe tocando o bar como podia até vendê-lo e cuidando de duas adolescentes perdidas no meio de tanta coisa ruim.

Apesar de tudo tenho lembranças boas da casa do bar. A pichação com um P e um coração feita no muro por um crush. As tardes calorentas na piscina de plástico no fundo do quintal. Os primeiros bailes de carnaval, as primeiras festas. A mobilização dos amigos para lotar o bar quando meu pai estava doente. O quanto minha relação com minha mãe e minha irmã se fortaleceu diante de todas as dificuldades. Foi um período difícil, triste, mas de muito aprendizado. Na casa da rua Cerquilho eu conheci o significado de resiliência e eu entendi de uma vez por todas aquele clichê de que "a vida é o que acontece enquanto você está ocupado fazendo planos".



A frente do bar. Essa foto foi tirada no dia da mudança, se não me engano. Não falei que era pé-sujo?



O quarto e o dedo da minha mãe. Herdei dela essa falta de talento para a fotografia. 

2 comentários:

  1. Gostei do projeto, vou acompanhar.
    Aquele Abraço,
    Helê

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  2. Estudei com uma menina que era de Boituva, como nos temos mais ou menos a mesma idade, eh capaz de voce ate conhece-la.

    Meus pais tambem tiveram uma fase de levar os filhos pro mato, por uma vida mais saudavel e mais feliz... No nosso caso, dos filhos, foi mesmo... andando a cavalo, nadando em rios... Pros meus pais nem tanto, ja que eles quase se separaram.

    O meu pai tambem faleceu de cancer, so que eu era mais velha (28). A minha irmazinha mais nova tinha 11. So a gente sabe o tanto que muda, o tanto que a gente amadurece, o tanto que saudade muda de significado, nao eh?

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