quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Sobre o dia mundial sem carro

Eu não tenho carro. Na verdade eu nem sei dirigir, tirei carteira de motorista há uns 20 anos e fora a fiorino que transportava galinhas do pai de uma amiga em 1997 nunca mais me atrevi a pegar um carro.

Pra mim faz todo sentido do mundo não ter carro - eu moro no centro expandido, num bairro nobre, a 10 minutos de uma estação de metrô e mesmo antes disso morava a duas quadras de uma avenida onde passavam ônibus que demoravam 20 minutos para chegar ao centro. Minha casa antiga ficava a um quilômetro do meu trabalho, a nova fica a três. Eu trabalho em horários alternativos (começo cedão ou na hora do almoço) e estou sempre no contra-fluxo. Perto do meu trabalho e da minha casa há médicos, dentistas, supermercados, academias, parques, etc. Eu tenho dinheiro pra pegar táxi ou uber de madrugada. Meu namorado e minha mãe tem carro (minha mãe tem uma pickup, inclusive) então se eu preciso fazer uma viagem mais longa ou carregar muitas coisas posso contar com eles. Eu sou muito privilegiada por não precisar de um carro.

Outro dia vi um vídeo de uma atriz global lado B que não lembro o nome dizendo que usa transporte público pra tudo. Onde a bonita mora? Na avenida Paulista. É fácil pregar o uso de ônibus e metrô morando na Paulista.

Mas Paula, e o cara que mora no Grajaú?  Pois é, se a pessoa mora no Grajaú e trabalha em Moema por exemplo, pegar transporte público pra trabalhar é uma merda. É esperar três ônibus passarem direto porque estavam lotados demais e se espremer no quarto para não chegar atrasada. Não dá pra pedalar do Itaim Paulista até a Vila Madalena a não ser que você seja atleta e tenha uma bicicleta mega-blaster-foda. E um chuveiro na firma quando chegar. Para grande parte da população de São Paulo se foder para pagar um carro em 458 prestações é o único jeito de ter um pouquinho mais de dignidade no dia a dia.

Resumindo: essas iniciativas de "viva em São Paulo sem carro" ou "vá de bike para o trabalho" são muito bonitas, muito bem intencionadas. E absurdamente elitistas. Servem pra gente que mora em bem, trabalha perto de casa, faz horários alternativos. Pra galera que atravessa a cidade e trabalha das 8 às 6 não serve. Não tem glamour nenhum.

Daí galerinha privilegiada tipo eu acorda no Dia Mundial Sem Carro (que é basicamente todo dia para a maioria da população de São Paulo) e acha que está fazendo um puta favor para a cidade pegando ônibus naquele dia. Amiguinhos, eu conheço vocês. Cês não aguentariam um 847P em horário de pico não. Chorariam em posição fetal diante da multidão na catraca da estação Corinthians-Itaquera segunda-feira as 7 da manhã, mas porque andaram 5 estações de metrô um dia já vão sair por aí advocando que noooossa, sim, claro que dá pra viver em São Paulo sem carro, nosso prefeitão é maravilhoso, fez ciclovia e busão com ar-condicionado e conexão USB.

Pra vocês até dá. E ainda assim vocês não vivem. Então fiquem quietinhos aí que em política de transporte público cês não tem que se meter. Ou tem que pelo menos ter um pouco de empatia e reconhecer que o caminho pra que transporte público seja verdadeiramente viável e digno por aqui ainda é longo.

Feliz dia mundial sem carro procês também.


Apenas mais um dia comum no metrô paulistano


6 comentários:

  1. Esse metrô de SP parece pior que o do Rio, se for assim mesmo todo dia o.o

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    1. É exatamente assim, não em todas as estações mas em muitas delas. E se a plataforma tá vazia o vagão tá cheio, não tem como ganhar.

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  2. Eu não moro em São Paulo, mas durante um curso lembro de ter que esperar o terceiro metrô às 6h da tarde, porque não dava para chegar perto do vagão, muito menos para entrar. Concordo que esse papo de ciclovia é para quem mora perto. Aqui em Porto Alegre, fizeram umas ciclovias que devem passar umas 3 pessoas por dia, pura demagogia.

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  3. Obrigada por esse texto. Vou mandar o link e colar simbolicamente na testa de todos os meus coleguinhas moradores da Santa Cecilia e trabalhadores (é assim que fala? hahaha) na República que não precisam pegar o maldito Terminal Pirituba (o meu é o 917H) todo. santo. dia. Ida e volta.

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    1. Hahaha terminal Pirituba (todas as numerações) sempre cagado porém sempre salvando a vida da galera da ZO.

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