quinta-feira, 3 de novembro de 2016

Porque eu odeio cursinhos

ENEM tá chegando, galerinha já está estourando a pipoca para acompanhar o show dos atrasados, aquela maravilha toda que a gente conhece. Hoje enquanto eu tomava café na padaria o Bom Dia São Paulo estava mostrando uma reportagem x sobre os preparativos para o ENEM em um cursinho e já me deu aquele ruim no estômago logo cedo.

Eu tenho pavor de cursinho.

Eu fiz cursinho durante seis meses (daí decidi prestar vestibular pra Letras e ninguém precisa de cursinho pra passar em Letras e larguei) e foi horrível. Eu dei aula em cursinho anos depois e foi um pesadelo.

Quando eu estudava eu tinha só uma professora mulher, a de Literatura. Todos os outros professores eram homens, a maioria jovens. Eram especialistas em piadas machistas e homofóbicas e não faziam nenhum esforço para manter distância das alunas adolescentes apaixonadinhas que tentavam se aproximar deles, pelo contrário. Vi professor pegando aluna, vi aluna no colo do professor.

"Ain, mas aos 17, 18 anos essas minas já deram mais que chuchu na cerca, tão se jogando em cima dos caras, eles comparecem"


Tem uma relação de poder muito errada nissaí, amigolino, e se você não enxerga isso não tô com paciência pra explicar não, beijo. Outro dia teve textão de professor no facebook querendo biscoito porque ~respeita~ aluna adolescente e minha vontade foi de soltar logo o carimbinho Damires do "não faz mais que a sua obrigação" mas né, fiquei quieta porque não estava na TPM e meu eu sem TPM não treta nas internets.



Uns anos depois da faculdade fiquei do outro lado da sala no cursinho. Mais uma vez, de mulheres, só eu e a professora de Redação. A história se repetia, as mesmas piadinhas, aquele desrespeito massa com as professoras, etc. Um dia entrei na sala e um moleque estava na lousa desenhando uma piroca e berrando "AÍ Ó, ESSE AQUI É PRA PAULA!". Quando fui reclamar na coordenação ouvi do superior (homem, claro): "Ah Paula, deixa quieto, é coisa de moleque". Fora o odinho que eu tenho até hoje daqueles malucos que vão dar aula fantasiado ou tocando violão, as famigeradas "aula-show". Aula-show my ass meus senhores, imagina o coitado lá no meio da fuvest cantando musiquinha pra lembrar fórmula de física (e decorar fórmula não adianta nada né, migo, tem que saber aplicar).

Eu tenho amigos queridos e muito competentes que dão aula em cursinho até hoje e eu tenho certeza que eles se esforçam para que as coisas sejam diferentes. Eu sei que muitos deles, inclusive, fazem um trabalho lindo de formação dessa galera. Sei que a molecada tá vindo aí mais livre, mais consciente, menos preconceituosa. E eu sei, sim, que "not all cursinhos". Mas eu traumatizei. Tenho pavor e acho que cursinho é um negócio pelo qual ninguém deveria ter que passar.

Quem sabe um dia, né?

2 comentários:

  1. Vamos nos abraçar?

    Trabalhei um ano nisso e até hoje me pergunto Pq me submeti a esse trabalho. Fiquei traumatizada q sentia arrepio quando via a propaganda da empresa em q trabalhei na TV.

    É um ambiente péssimo, uma competitividade besta. Deus me livre.

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    1. Sim, eu nem falei da competitividade e do elitismo. Pior lugar

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