quarta-feira, 20 de abril de 2011

Carol

Eu tenho essa turma de crianças (me recuso a dizer pré-adolescentes) as terças e quintas a tarde. Seis meninas, entre 9 e 11 anos.
Idade complicada essa. Algumas já começam a dar sinais da adolescência chegando, outras ainda magrelinhas, criançonas com caderno das Princesas Disney. Been there, done that. E entre elas há a Carol.
A Carol tem uns 11 anos e é diferente. Ela toca violino, frequenta o grupo de escoteiros e não vai à aula de shortinho e  Melissa cor-de-rosa brilhante. E a Carol é meio desajeitada, chega atrasada e esbaforida toda aula e, para compensar essa falta de traquejo, fala pelos cotovelos para ninguém perceber o quanto é desconfortável para ela estar ali. 
Ontem chegou atrasada, como sempre, e com isso atraiu os olhares das outras para ela. Estava usando um vestido bege de malha até os joelhos, um par de tênis pretos e meia cinzas. A Carol é claramente uma menina que não tem muita noção das coisas que veste mas também não se importa com isso. As meninas de shortinho e Melissa cor-de-rosa brilhante não perdoaram:

"Porque você colocou esse tênis com esse vestido?" Ao que Carol, respondeu, laconicamente:

"Porque eu não podia vir à aula descalça, ué?"

Eu sou a Carol. Quer dizer, eu fui a Carol. Eu fui aquela menina esquisita, muito magrela, descabelada e de roupas estranhas que não se dava muito bem com o resto da sala. Eu fui aquela com quem ninguém queria fazer grupo. E eu tento o tempo todo colocar panos quentes e evitar que a Carol passe pelas coisas que eu passei, confesso, dou um jeito de ela ganhar as competições (mas ela ganharia de qualquer maneira, é inteligente a danada) e escrevo bilhetinhos de apoio na lição de casa dela. Ela as vezes fica de lado e vai embora triste, e tenho vontade de dizer que vai passar. Que não vai ser sempre assim. Não vai ser perfeito, nunca vai, mas vai ser melhor. 

Vai ser melhor, Carol, eu prometo. 

5 comentários:

  1. Chorei, Paulinha. A Carol não sabe, mas ela será uma mulher linda, talentosíssima e que viverá com os pés no chão. E será muito feliz. E eu te admiro muito por tentar fazê-la ver o lado bom, mesmo que tão cedo.
    Saudades de ti, viu...

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  2. Chorei, Paula (2)

    Também fui a Carol em determinados aspectos. Estou estagiando (só observação ainda) numa escola e quando vejo as meninas de cabelão, maquiagem e unhas compridas, lembro de tanta, tanta coisa...

    Aliás, que telepatinha. O post mais recente do meu blog fala disso também e tem a frase "vai passar".

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. E eu tb fui uma Carol.Literalmente.E achei demais tua disposição em fazer isso numa fase que crianças sao cruéis, que elas andam adultinhas cada vez mais cedo.

    E passa.E como é bom rir das patetas que diziam as crueldades.Com certeza não tem metade do talento que Carol tem.

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