terça-feira, 27 de dezembro de 2011

O povo do centrão

Estou lá tomando meu café no balcão de uma lanchonete no Copan. Um senhor bem vestido, de calça chino, camisa polo e óculos escuros entra no recinto e, apontando para uma das três formas de pizza vazias dentro da estufa de salgados, pergunta, muito sério:

"Essa pizza aqui é de quê?"

Ao que a moça responde, com a maior naturalidade do mundo:

"É de vento com água. É a mais gostosa daqui."

Quase perguntei se ela tinha colocado alguma coisa no meu expresso, juro.

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Eu confesso

Amiga Bruna Maria está de mudança e, ao chegar na parte de encaixotar os calçados, se questionou de onde teria saído tanto mau gosto. A amiga Bruna Maria, vale ressaltar, já foi um dia a feliz proprietária de uma bota decorada com motivos andinos (não encontrei uma foto mas imaginem um retalho de poncho peruano costurado numa bota de camurça marrom) e de um par das famigeradas botas de rave, mais conhecidas como "quebra pé". Estes tempos passaram, mas diante do desgosto dela com seu armário de sapatos, devo concluir que alguns remanescentes desta época obscura ainda dividem espaço com itens mais aceitos socialmente.
Mas vejam, quem sou eu para falar alguma coisa? Quando o assunto é moda, carrego comigo uma lista de crimes inafiançáveis cometidos em nome de algo que eu equivocadamente chamava de "estilo". E hoje decidi limpar minha consciência e expor aqui minha ficha corrida.
Eu, Cheshire Cat, confesso diante deste tribunal que já usei:


  • Bota branca depois de adulta.
  • Jaqueta de napa combinando com a bota.
  • Moleton do Piu-piu.
  • Top de biscat daqueles que só tem um fiozinho nas costas.
  • Mocassim de bolinha na sola da 775.
  • Cinto fininho rosa bebê combinando com a sandália.
  • Jaqueta jeans com calça jeans.
  • Bolsa de crochê.
  • Calça baggy em 1998.
  • Sandália dourada de amarrar na perna (Globeleza feelings).
 E, por fim, o HORROR! O HORROR!
  • Calça de poliéster.
Podem me declarar culpada e aplicar a punição cabível. Eu mereço. 

sábado, 10 de dezembro de 2011

33

Quando eu tinha 13 anos, como todo mundo, eu gostava de imaginar como seria minha vida em tão distantes 20 anos. Estaria casada com o Joey McIntyre? Teria filhos? Conheceria a Europa? Teria finalmente aprendido a usar um abridor de latas? Ficava pensando em como seria bom se tudo estivesse completamente diferente porque olha, confesso, meus 13 anos não foram fáceis não (os de alguém foram?). Eu era tímida, intolerante e solitária. Tinha uma auto estima do tamanho do Nelson Ned e aquele péssimo hábito de me apaixonar pelos meninos cabeludinhos mais velhos que não estavam nem aí para mim. Não sabia me pentear nem me vestir e morria de vergonha das minhas pernas finas. Teria sido bom naquela época ter ouvido uma palavra de apoio, ter alguém me garantido que ia melhorar. Se eu pudesse escrever uma carta para mim aos 13 anos, ela seria assim:

Oi Paula, tudo bem por aí? Ok, é uma pergunta retórica, já estive "por aí" e sei que tá fácil não. Eu aqui em 2011 até que estou bem. Não me casei com o Joey, mas olha, tudo bem porque taí um cara que envelheceu mal, viu? Aliás, daqui a pouco você vai descobrir que gastou muitos cruzeiros reais com essa tranqueirada do New Kids on the Block e eles nem eram tão legais assim. Se bem que diante das opções de hoje, os caras eram gênios. Na verdade eu não me casei com o Joey nem com ninguém, mas depois de alguns corações partidos e uma período de vacas magras conheci um cara incrível, bonito, engraçado, adorável,  que me ama e que me faz cada dia tentar ser uma pessoa melhor. E isso é tudo que a gente precisa mesmo nessa vida: ter alguém por quem ser melhor.
Os filhos ainda não vieram também. Talvez venham. Talvez não, esse tipo de pressão não me incomoda nem um pouco, mas acho que isso você já sabe. Aprendemos muito cedo a lidar com o peso que é não ter opiniões iguais às da maioria.
Eu ainda não fui à Europa, mais por medo do que qualquer coisa. Se eu pudesse mudar alguma coisa, inclusive, diria para você não ter medo de nada. Mais: diria para você não deixar nunca que alguém diga que você não consegue. Isso é um puta clichê mas a verdade é que a maioria das decisões idiotas que a gente toma na vida tem a ver com esse "você não consegue". De qualquer maneira, a Europa está lá, as passagens estão baratas e eu não tenho mais medo, então esse cenário deve mudar em breve. Mas não se chateie, porque eu até que já viajei bastante, conheci lugares lindos com gente que eu amo demais. E tenho essas lembranças como as mais preciosas.
Diga ao pessoal aí em casa o quanto você os ama. Sempre. Eu sei que essa coisa de demostrar sentimentos não é muito a noss cara, mas acredite: um dia você vai carregar o peso de não ter feito isso o tanto quanto gostaria.
Sua vida vai ser ótima. Você vai aprender a cultivar as amizades e a aceitar os defeitos dos outros um pouco mais (mas não muito, tem coisa que não dá, eu sei). Vai fazer o que gosta, descobrir as roupas e o cabelo que te caem melhor e vai, um dia, achar legal ter pernas finas, eu juro. Vai dar tudo certo, talvez não da maneira como você imagina, mas de um jeito muito bom de qualquer forma.
Deixo como último conselho algo que pode te garantir noites bem dormidas e consciência limpa no futuro: vodca e tequila não são para você. Estou falando sério.

Beijos,

Paula.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Ah, o transporte coletivo!

Peguei o Lapa - Praça Ramos lá pelas nove da manhã para ir ao Pilates. Estava meio cheio, então tive que ficar perto da catraca até o ponto seguinte, onde ele costuma esvaziar. Uma velhinha fica em pé ao lado de um banco reservado ocupado por duas mulheres que não deveriam estar lá.
Uma mulher retruca para uma das sentadas:
"Não vai dar lugar para a senhora não?"
Ao que a fina responde:
"Eu dou se eu quiser."
Daí em diante o que se sucedeu Foi aquela maravilha de diálogo travado em voz bem alta e que consistia em coisas tipo (tirem as crianças da sala, por favor):
"VOCÊ TÁ BEM ACABADA MESMO MAS AINDA NÃO TEM IDADE PRA SENTAR NESSE BANCO!"

"CALA A BOCA E PARA DE ENCHER O SACO, SUA PUTA!"

"TÁ MUITO GORDA, NÉ, NÃO AGUENTA COM O PRÓPRIO PESO E PRECISA FICAR SENTADA, SUA VACA!"

"OLHA QUEM FALA, BALEIA!"

"TÔ GORDA MESMO MAS EU ME GARANTO, TEM QUEM GOSTE!"

"SUA RIDÍCULA, VAI SE FODER!"

"TOMARA QUE QUANDO VOCÊ FICAR VELHA PEGUE UM ÔNIBUS E ROLE PELAS ESCADAS, SUA BISCATE!"

"VAI TOMAR NO CU, QUERO VER VOCÊ ME TIRA DAQUI SUA PELANCUDA MAL AMADA!"

"EU VOU MESMO! VOU TE ARRANCAR DAÍ SUA VAGABUNDA!"

"ATÉ PARECE, TU NÃO É MULHER PRA FAZER ISSO!"

Claro que eu adoraria ter ficado por perto para continuar ouvindo tanta elegância, mas um lugar vagou lá no fundo e resolvi sentar. A velhinha mesmo já tinha sentado em outro banco um ponto antes. A discussão parecia ter esfriado um pouco e assim o ônibus seguiu por mais uns dois pontos. Quando ele parou no terceiro, só vi as duas lindas se pegando lá perto da catraca e rolando pelo corredor do ônibus segurando nos cabelos uma da outra até a saída. O coletivo fechou as portas e seguiu viagem enquanto as duas continuaram brincando de UFC na Praça Cornélia. Estivesse eu na praça teria chamado a polícia, porque era bolsa, tamanco e soco pra tudo quanto era lado.

Quem pega ônibus NUNCA fica entediado gente. Fato.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Ah, a juventude!

O ideal mesmo seria ouvir esta história da boca do meu aluno, um espanhol quarentão, hoje pai de família, que fala alto e gesticula loucamente. Para que vocês tenham uma vaga ideia do que é este cara contando uma história, ouçam o Italian man who went to Malta. 


Diz meu aluno que lá pelos idos de 1995 estava indo para a Bahia com quatro amigos. Dirigiam uma F-1000 a diesel, vão vendo. Um primo mais experiente os advertiu ainda em São Paulo: "Não levem maconha que é sujeira e lá na Bahia tem de monte pra comprar."

Seguiram para o Nordeste. No meio do caminho foram, obviamente, abordados por policiais, ou vocês acham que uma F-1000 com cinco caras dentro rumo à Bahia passaria incólume por um comando?

Puliça dá aquela geral nos caras, cheira a cinza do cinzeiro da caminhonete, abre malas, tira palmilha de tênis, desempacota tudo, faz e acontece. Uma hora e as autoridades lá, fuçando cada milímetro da bagagem dos moleques. Estavam mais limpos que "depois" em comercial de sabão em pó. Finalmente são liberados para seguir viagem sem maiores problemas.

Duzentos metros na frente o motorista respira aliviado:
"Pô, ainda bem que a gente não trouxe nada..."
Ao que é interpelado pelo meu aluno no banco de trás, abrindo a capa da máquina fotográfica:
"NÃO TROUXE NADA O CARALHO, ZÉ! NÃO TROUXE NADA O CARALHO!"

Quem nunca?

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Conversa de salão

Ele tem uns sete anos. É gordinho e, como 90% dos meninos dessa idade, hiperativo. Entra correndo no salão de cabeleireiro na frente da mãe e pula na cadeira ao lado da minha, onde o Jura se ocupa de tosar meu cabelo.

"Juras, Juras, você vai cortar meu cabelo hoje?"

Adendo: o nome do salão é Jura's. Está escrito na fachada e não há quem convença o garoto recém-alfabetizado que o nome do cara que empunha as tesouras não leva s.

"Juras, Juras, você vai cortar meu cabelo que nem o do Neymar!" Gesticula loucamente: "Vai cortar aqui, aqui, pentear assim e fazer um moicano igual ao do Neymar!"

"Ok, eu vou, mas primeiro eu vou terminar o moicano dela."

"MAS ELA É MENINA!"

Fico feliz com o "menina" e resolvo interagir com o pequeno que não para de se mexer. Deve ter comido uma caixa de sucrilhos antes de sair. Estico para ele a foto que levei para mostrar ao Jura como queria meu cabelo.

Adendo 2: É um montagem minha e de queridão com Ronaldo, Dentinho e Roberto Carlos. Podem rir, eu espero.

"Você gosta de futebol? Quero ver se você sabe o nome desses caras na foto."

O gordinho olha, olha, olha e por fim retruca, desanimado, apontando para o Fenômeno:

"Só conheço esse aqui."

"Pra que time você torce?"

"Pro Neymar!  você?"

"Ué, pro Corinthians, lógico!"

"Esse do seu lado na foto é seu marido?"

"Não, é meu namorado."

"Ah, tá... Namorado rima com marido..." E três segundos depois: "Juras! Juras! Corta meu cabelo que nem o do Neymar?"

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Sobre terrorismo médico

Uma vez escrevi sobre isso e acho que hoje é o momento oportuno e retomar o assunto. Gostaria de iniciar com uma pequena lista de coisas que você NÃO deve dizer ao me ver usando minha bombinha de asma:

"A prima do tia de uma vizinha morreu por causa disso aí, viu?"

"Nossa, mas sabia que isso vicia?"

"Eu conheço um remedinho homeopático que olha, vai acabar com essas crises na hora, melhor coisa."

Quanto à última frase, gostaria de esclarecer que eu não acredito em homeopatia. Ponto. A alopatia está aí há sei lá quantos anos evoluindo e, surpresa, curando as pessoas. Não me venham com aguinhas, floraizinhos e formulinhas milagrosas. Aos entusiastas da homeopatia, inclusive, recomendo que assistam a esse video e parem de me encher o saco:

As frases restantes enquadram-se no que eu chamo de terrorismo médico. Todo mundo já foi vítima dos disseminadores dessa filosofia segundo a qual tudo pode ser muito pior do que parece.

Exemplo: sábado esta pessoa inteligentíssima que vos escreve achou que seria legal ficar bem bêbada e dormir com as lentes de contato. Resultado: acordou com os olhos inchados, vermelhos e lacrimejantes, especialmente o direito, que parecia estar a prestes a cair da minha cavidade ocular. Como médico é coisa de bichinha, passei quatro dias usando óculos e achei que estava tudo bem Esperta que sou, ontem recoloquei as mesmíssimas lentes que haviam ferrado meus olhos no sábado.

Ao longo do dia meus olhos foram ficando vermelhos outra vez. Lá pelas seis a tarde uma aluna diz: "olha, é melhor você ver isso, porque meu marido pegou uma AMEBA no olho e quase perdeu a visão."

Quer dizer, agora não basta fazer terrorismo. Tem que ser um terrorismo do tipo bizarro, envolvendo seres microscópicos nojentos e cegueira.

Pessoa joga as lentes no lixo, dá mais duas aulas á la Mr. Magoo e amanhece hoje pior ainda, enxergando tudo embaçado e mal conseguindo abrir os olhos. Surta pensando na ameba assassina e planejando já comprar uma impressora braille. Corre ao hospital. Ganha um diagnóstico de córnea arranhada, um tampão por um dia e uma proibição de lentes de contato por uma semana. Não vai precisar de um cão guia, pelo menos por enquanto.

Vou sobreviver. Mas o próximo que vier com um "olha, cuidado, eu conheço uma pessoa que..." vai ficar falando sozinho. Na melhor das hipóteses.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Trabalhices parte X

Estou lá no órgão público esperando meu aluno das dez da manhã. Nove e cinquenta recebo um SMS:

"O Dr. Fulano (aluno das dez) cancelou uma aula mas não disse o dia. Pode ser que seja hoje. De qualquer maneira, pode marcar aula dada."

O ALUNO DESMARCOU UMA AULA E PODE SER QUE SEJA HOJE.

"O senhor terá que operar um cérebro E PODE SER QUE SEJA HOJE.."
"O senhor terá que fazer uma apresentação de duas horas em alemão E PODE SER QUE SEJA HOJE."
"O senhor terá que entregar uma dissertação de 80 páginas sobre a influência do galho seco na reprodução do macaco-prego E PODE SER QUE SEJA HOJE."

Alguma coisa está errada ou é impressão minha, gente?

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Sobre Finados

Quando eu era criança era assim: ia-se para o interior no feriado. Minha mãe e minhas tias (cinco mulheres, no total) se reuniam e iam ao cemitério lavar o túmulo dos meus avós. Os irmãos (quatro) nunca iam. Era trabalho das mulheres.

De vez em quando os pequenos iam. Para nós era só um programa meio chato, ter que ficar em um lugar onde não se podia correr ou gritar. Não tinha essa consciência do culto aos antepassados e nem minha mãe parecia fazer muita questão de me ensinar isso.

Meu avô não conheci, morreu quando minha mãe tinha três anos. Atropelado. Numa cidade que na época devia ter mil habitantes ou menos. Em 1956. Seria quase cômico se não fosse trágico.

Da minha avó tenho lembranças confusas. Ela se foi quando eu tinha cinco anos. Lembro de quando ela ficou em casa se recuperando após ter perdido uma perna por causa do diabetes. Minha mãe diz que um dia voltei da casa de uma amiguinha surpresa porque "a avó dela tinha as duas pernas." Nos meus quatro anos não ter uma perna era uma condição inerente a todas as avós.

Ao longo desse caminho perdi alguns tios, a avó paterna (mulher engraçada, vaidosa, de cabelo e batom muito vermelho, péssima cozinheira, o oposto do clichê da avó) e por fim, a perda mais dolorosa, meu pai, há 15 anos.

Depois da morte do meu pai nunca mais voltei ao cemitério. Nenhuma vez. Nem minha mãe, nem minha irmã. O túmulo deve estar lá, sujo, abandonado, nenhuma flor. Quem for lá hoje prestar suas homenagens aos mortos há de pensar "coitado desse homem, não tem ninguém que ore por ele depois da morte." Mal sabem eles.

Para mim é muito simples: meu pai, obviamente, não está lá. Não há nada dele lá. O que restou de seu Adelphi foram as coisas que ele fez em vida. As piadas, os livros do Henfil que ele me deixou, os discos de jazz. Tudo que ele me ensinou. A pessoa fantástica que ele foi. E lavar um túmulo ou colocar flores frescas lá não vai mudar isso.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Vida de busão

Lá estou eu no Aeroporto-Perdizes em direção à minha segunda jornada de trabalho quando o coletivo foi parado por dois policiais. Os mesmos embarcaram no ônibus e começaram a fazer perguntas:

"Está tudo bem por aqui?"

"Ninguém deu falta de um celular nem nada?"

Fuçam daqui, fuçam dali, acabaram abordando um rapaz e achando cinco celulares na mochila dele. Desceram com o fulano e a viagem seguiu.

O moço atrás de mim resolveu fazer discurso para a pobre da tiazinha ao lado dele. Aquela coisa de "a polícia é truculenta e blábláblá... acho que o rapaz nem fez nada e blábláblá... porque o Brasil está crescendo às custas deles (o rapaz era peruano) e blábláblá..." da Consolação até Perdizes. Tiazinha interagindo com o clássico "é complicado..." e o sujeito não calava a boca. Perto do meu ponto me dirijo até a porta a tempo de ouvir:

"A SENHORA DEVERIA LER UM TEXTO DO FOUCAULT..."

Quase lamentei ter que descer ali. Não é todo dia que a gente topa com cidadão mandando pobres tiazinhas lerem Foucault no transporte público.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

A lesma e a aula de inglês.

Dando aula para o segundo ano. Calor matando suavemente, molecada agitada por conta da feira de Ciências amanhã, tudo muito lindo. Após um esforço hercúleo para fazer todo mundo ficar quietinho e terminar o exercício paro para respirar um segundo. E não consigo.

"TIIIIIIIAAAAAA!!! OLHA LÁ NO TETO!"

Olho. E vejo uma lesminha verde, do tamanho do meu dedo mínimo, se arrastando preguiçosa pelo teto. Bem em cima da cabeça da menininha mais chata e gritonilda da escola.

"ELA VAI CAIIIIIIIIIIR!"

"Não, fulaninha, não vai. Termina a lição."

Ela não termina. Ao invés disso, fica olhando fixamente para o teto esperando qualquer movimento do pequeno gastrópode para soltar um guinchinho de desespero. As coleguinhas do lado, tão pequenas e já tão maléficas, resolvem se divertir às custas da chatinha e começam:

"Vish, fulaninha, descolou um pedaço da lesma!"

"TIIIIIIIAAAAAAAAA!"

"Vai cair já já, bem na sua cabeça!"

"TIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAA!"

"Se grudar no seu cabelo vai ter que cortar!"

"TIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!"

Mudo miss gritonilda de lugar. É tarde. A comoção pela lesma já tomou conta da sala:

"Tia, a gente pode jogar sal nela?"

"Claro que não, coitada da bichinha, não fez mal pra ninguém. Aliás, quem aqui sabe como se diz lesma em inglês?"


"Mas é nojeeeeeento."

"Eu já joguei sal em lesma. É engraçado."

"Ninguém vai jogar sal na lesma, pronto!"


"TIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAA, ELA ESTÁ VINDO PRA CÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁÁ!"

"AAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!"

Desgraça de lesma que se instalou no teto. Na parede estivesse, eu teria dado um jeito de despejá-la no jardim a bordo de uma folha de sulfite. Respiro fundo.

"Chega desse assunto de lesmas. Ela não vai cair, ela não é nojenta, é só um bichinho como qualquer outro. Quem quer brincar de forca?"


"EEEEEEEEEEEUUUUUUUUUUUU!"

"Já pensou um ataque de lesmas pela janela?"

"TIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!"









Essa é minha vida. Esse é meu clube.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Pateta faz história

Como boa parte da minha geração fui criada à base de revistas da Mônica. Fui praticamente alfabetizada com elas.
Já da Disney nunca gostei muito. Sempre achei as histórias sérias demais e o visual meio caótico era difícil de acompanhar. De todos os personagens eu só curtia os maloqueiros: Peninha, Zé Carioca e claro, o Pateta. Mas o Pateta só era legal como protagonista. Como amigo do Mickey ele embarcava nas historinhas chatas e perdia a graça.
Daí fui dar uma espiada na banca ontem e dei de cara com isso:



Quase dei um abraço no tiozinho da banca. Relançaram a coleção inteira - inclusive algumas que não foram publicadas - 20 volumes.
Sério gente. Quem não leu corre lá na esquina e compra todos porque estou pra ver coisa mais genial, nonsense e politicamente incorreta (fazer piada de anão com Toulouse Lautrec só nos anos 80, meu povo). Muito amor pelo Pateta e pela editora Abril, só digo isso.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Gênios

Eu acho de verdade que, se tem uma ideia que o governo brasileiro precisa adotar com urgência, é o programa de seleção natural sugerido pela xará Paulinas. Porque olha. Humanidade não tem mais jeito não.

Estava ontem num Barra Funda - Jardim Guarani voltando para minha residência na Lapa depois de um agradabilíssimo almoço na Liberdade. Nas imediações do shopping Bourbon o coletivo é invadido por aquele tipo de gente que anda em grupos enormes, comunica-se muitos decibéis acima do nível recomendado pela OMS e ama, a-ma se instalar na porta do veículo ainda que só vá descer no ponto final, onde quer que o mesmo seja.

Pois bem. O grupo tinha acabado de assistir a Cowboys x Aliens no cinema do shopping. E não tinham entendido.

Sim, coleguinhas, é isso mesmo. A turminha do barulho berrava para o ônibus inteiro ouvir que não tinha entendido um filme que deve ser de uma complexidade comparável aos filmes de Ingmar Bergman, por exemplo. Um deles sugeriu que não tinham entendido porque tinham assistido ao filme legendado (porque essa coisa de gente adulta que frequenta shopping saber ler é meio ultrapassado, sabem?) e a medida que a discussão seguia nesse nível eu me questionava se a Lapa sempre tinha sido tão longe quanto estava parecendo naquele momento. Mas o melhor ficou para o final. Lá pela tantas, no meio da gritaria, uma frase se destacou:

"Claro que alienígena e alien é diferente. Alienígena tem anteninha e alien não!"

Se o Brasil resolver adotar o programa de seleção natural vai faltar avião pra tanto candidato.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Profissionalismo

Lembram da turma no órgão público, né? Pois é, virou casa da mãe Joana. Todo dia aparece nêgo vindo de outro horário, que trocou de lugar com fulano e tal. Já tem sete alunos, numa turma que começou com três.

Até aí beleza. Faz parte. O caso é que ninguém me avisa. Nunca. O sujeito aparece, eu não tenho cópias suficientes, faço aquela cara de bunda e pronto. Daí me irritei e mandei um email (muito educadinho, sem ironia) para a coordenadora pedindo para ser avisada nas próximas vezes. Sabem o que ela respondeu?

"Desculpa, nem me ocorreu avisar você."

Nem.me.ocorreu.

Taí o nível de profissionalismo da galera.

Sofro, viu?

quarta-feira, 27 de julho de 2011

Eu queria muito que meus colegas "tchítchers" entendessem de uma vez que bom mesmo era não ter que trabalhar. Que não existe trabalho perfeito (existem, é claro, alguns mais bem pagos que os outros, mas se você escolheu ser professor de inglês, beibe, vê-se logo que não é muito apegado a essa coisa de dinheiro). Que todo coordenador é chato e mais burro que você. Que toda escola tem problemas, e eles, incrivelmente, são SEMPRE iguais, as escolas só fingem que são diferentes para que você, tolinho, aceite trabalhar para elas. Que não é uma lousa interativa que vai fazer de você um professor melhor ou transformar seus alunos gênios da noite para o dia.

E parem, please, de reclamar na minha orelha. Porque a vida já é bem complicada sem esse baixo astral todo atrás de mim. 

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Fofa II

Eu dei uma resumida na história no facebook mas bateu essa necessidade de desenvolver, sabem?

Eu estou dando aula para dois grupos num órgão público que prefiro não identificar porque, né? vai que nêgo dá um google no lugar e vem para aqui?

Enfim, órgão público. Centro de São Paulo, prédio meio velho (ontem a tampa do ar condicionado quase caiu na minha cabeça, configura acidente de trabalho?). Mas eles são legais, guardam meu material, o aparelho de som não desaparece, sempre tem canetão funcionando e não me fazem mudar de sala toda aula.

Não que aquelas pessoas precisem aprender inglês. Não precisam mesmo. Mas a empresa está pagando, os caras vão. O primeiro grupo é bacana, pessoal interessado, espertinho, engraçado, pontual (eles fazem lição de casa, gente!). O segundo vai acabar com minha alegria viver logo, logo.

São duas mulheres e um cara que se revezam nas aulas - nunca vem os três. Quando eu pergunto alguma coisa para o cara ele não dá dois segundos para pensar e responde: "Não sei."
As mulheres querem que eu traduza tudo. TU-DO. E ficam bravas se eu digo um sinônimo ou tento explicar. Última aula uma perguntou o que era modern. Respondi que era como em português e ela ficou me olhando com aquele Q maiúsculo brilhante na cara. Juro. E no final da aula disse, meio rindo: "mas nunca que eu ia perceber que aquilo significava moderno!"

Eu já dei aula pra gente que não reconhecia nome próprio em inglês ("tchítcher, o que é Jack?") mas nêgo que não tem um mecanismo básico de sobrevivência em língua estrangeira tipo reconhecer cognato é a primeira vez.

Mas piora. Depois da história do modern ela perguntou como se pronunciava uma frase que eu tinha escrito na lousa. Eu disse. Ela não conseguiu repetir. Disse de novo, mais devagar. Ela não conseguiu de novo. Daí ficou irritada e soltou:

"Dá pra falar mais devagar? Se eu soubesse inglês não tinha entrado no grupo de básico."

O bom é que eu não dou um mês pra essa criatura desistir do curso.

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Os alunos e suas surpresas

Acordo na segunda feira com aquela preguiça de férias mas tenho que estar na Faria Lima as sete da manhã para repor uma aula particular que eu desmarquei porque, oi, queria ficar mais um pouco mais no bar.

O aluno é aquele moço do interior todo bonzinho, bem barbeado, nenhum fiozinho de cabelo fora do lugar que vai casar em setembro com a namoradinha de adolescência, sabem como é? Cara de quem não bebe cerveja, não gosta de gosta de futebol e ouve o acústico do Bon Jovi até hoje. Então.

Daí numa conversa a toa descubro que esse moço todo arrumadinho certa vez trancou a faculdade e foi morar um ano em Trancoso. Em Trancoso, gente. Quase perguntei se ele ficou fazendo tererê na praia, mas né? Ainda não estou com essa intimidade toda.

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Fofa

Eu sei que eu não sou assim, um exemplo de bom humor. Reclamo bastante, costumo olhar feio para gente folgada no transporte público e não tenho lá muita paciência com quem não se esforça para resolver as coisas. Mas eu tento, na medida do possível, ser agradável com as pessoas e usar todos os meus "por favor", "obrigada", "desculpe" e "com licença" porque, fazer o que?, foi assim que minha mãe e as freiras do Instituto Santa Amália me ensinaram.

E eis que ontem eu precisei de um favor. Não era assim, um favor gigantesco. Não envolvia dinheiro, tempo, ou sair de casa de madrugada no meio de uma nevasca. Era algo que demandaria cinco minutos da única pessoa que poderia fazer aquilo por mim. Eu precisava da cópia do meu holerite de maio, que por uma razão misteriosa escafedera-se da pasta onde guardo essas documentações preciosas para uma futura financiada da Caixa Econômica Federal. Era só o holerite de maio de 2011, minha gente, não de janeiro de 1998.

Chego à secretaria da escola com aquela cara de quem sabe que fez coisa errada (burra, bagunceira, desorganizada, que absurdo perder um holerite!):
"Tudo bem, fulana? Eu preciso de um favor seu. Será que você poderia me arranjar uma cópia do meu holerite de maio?"
Pois a fofa respondeu em caps lock: "ISSO É ARQUIVO MORTO! EU ESTOU SAINDO DE FÉRIAS E NÃO VOU PARAR TUDO QUE EU ESTOU FAZENDO PARA PROCURAR ISSO PRA VOCÊ!"

Olha, não sei não. Mas anos de convivência com outros seres humanos meio que me ensinaram que há maneiras mais civilizadas de dizer a alguém que não pode resolver o problema dele. Especialmente se esse alguém trabalha com você.

Minha colega professora no colégio, que também já foi vítima da ira da secretária mal comida, tem razão. Isso é coisa de gente que não faz cocô.

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Diálogo imaginário no cartório eleitoral

"Boa tarde, eu gostaria de regularizar a minha situação."

"Pois não, documentos." Digitadigitadigitadigita "A senhora não votou no segundo turno da última eleição, é isso? Estava fora do país?"

"Não moça, estava bêbada na praia mesmo."

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Não tem graça

Eu sei que eu reclamo bastante das coleguinhas pedabobas que trabalham comigo, mas depois de ontem devo considerar que ando sendo meio intolerante e injusta.

Professora do quarto ano chega na sala com uma pasta e diz que vai ter uma aluna nova no segundo semestre. Aparentemente o pai não havia gostado de algumas provas que a professora do colégio antigo tinha aplicado e resolveu transferir a menina. Pensei "lá vem mais um pai superprotetor que acha que a culpa da sua cria ir mal na escola é SEMPRE do professor." Pensei. Até a minha colega puxar da pasta as tais provas, que por mim mereciam ser escaneadas com o logo da escola e jogadas no Facebook para quem quisesse ver, tamanha obra de arte.

Era um teste de história de múltipla escolha. Compartilharei aqui as perguntas que consegui memorizar, mas garanto que de onde estas saíram havia muito mais.

1- Quem descobriu o Brasil?

a) Shakira
b) Restart
c) Pedro Álvares Cabral
d) MC Catra
e) n.d.a.

2 - Como é o nome do Cabo que o navegador português Bartolomeu Dias dobrou em 1488?

a) Cabo da panela
b) Cabo da Tormenta (sic)
c) Cabo de correr na hora do recreio. (oi?)
d) Cabo da faca
e) Cabo da dor de cabeça. (oi? oi? oi?)

3 - Como era o nome do escrivão da esquadra de Pedro Álvares Cabral?

a) Xuxa
b) Gugu
c) Beyoncé
d) Justin Bieber
e) Pero Vaz de Caminha

Sério. Quer, dizer, sério mesmo. Perguntar quem descobriu o Brasil numa prova de quarto ano já é nivelar a coisa por baixo, mas desse jeito beira a esculhambação. Beira não, chegou lá. Passou. E com assinatura da coordenação. Numa escola particular. Essa louca está lá, tem diploma e anda "educando" os filhos de muita gente.

Não consegui nem achar engraçado.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Colegas de trabalho reloaded

Estou abrindo e-mails na sala dos professores quando solto um comentário sobre a pouca credibilidade de uma empresa que me manda mensagens escritas em Comic Sans. Professor retruca:

"Por que? É minha fonte preferida, eu SEMPRE uso."

Pausa para digressão - como se já não fosse suficientemente ruim ter que explicar a um adulto porque ele não deveria escrever e-mails profissionais em Comic Sans.

"Não tem problema nenhum. Se quem recebe seus e-mails tem sete anos de idade."

"Ah, que besteira, a letra é tão bonitinha."

I rest my case. Esse povo trabalha comigo.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Centro auditivo Telex

Sogro passou por uma cirurgia sábado. Coisa simples, mas sempre rola uma preocupação, né? Ninguém curte hospital, operação, UTI, essas coisas.
Daí depois da aula de sábado estou no ônibus rumo ao interior (onde sogros e namorado moram) e ligo para queridão para saber da cirurgia:

"Como está seu pai?"

"Ah, tá fodido."

Morro do coração: "COMO ASSIM NAMORADO?"

"Aaaaaaah, você perguntou do meu PAI? Meu pai tá bem, meu PÉ é que está fodido com duas unhas encravadas."

E depois a surda sou eu.

terça-feira, 7 de junho de 2011

A quadrilha

Peço perdão pela insistência no assunto, mas andei fuçando meu blog antigo e achei que essa postagem merecia um "vale a pena ver de novo". Vão com fé, coleguinhas.


Junho chegou e trouxe com ele minha nova atribuição como professora do ensino fundamental – ensaiar a quadrilha. Festas Juninas e o que elas implicam em geral me causam profunda agonia. Só de ouvir um “cada cavalheiro com sua dama!” ou avistar uma barraquinha de pescaria já estremeço, suo frio e tenho dificuldade de respirar, sintomas advindos provavelmente de algum trauma de infância relacionado ao assunto. A festa junina era, para mim, de longe o momento mais humilhante do ano, por uma série de motivos:


a) Não sei dançar. Nunca soube. Quando criança, minhas incursões pelas maravilhas de tão nobre arte não passaram de uma catastrófica primeira aula de balé (da qual ainda conservo uma cicatriz no queixo como lembrança) e de uma foto ridícula vestindo polainas listradas e colant roxo no melhor estilo “Flashdance” para uma aula de jazz que nunca se realizou em vista de um ataque de pânico na porta da academia. Não que uma dança de quadrilha seja algo extremamente complexo, mas ainda assim envolve música e passos ensaiados, o que, para alguém com minha coordenação motora, já é um desastre. 


b) Sempre havia mais meninas que meninos em todas as minhas séries do ensino fundamental. Com isso, era inevitável que duplas de garotas se formassem para completar a quadrilha. Tendo eu sempre sido uma das mais altas da turma, mais de uma vez fui obrigada a fazer o papel do cavalheiro, coisa que pode parecer insignificante agora, mas que é obviamente uma tragédia quando se tem oito anos e não se é, exatamente, a garota mais popular da turma.


c) Usar um vestidinho de chita remendado já é terrível. Usar um vestidinho de chita remendado em Junho, pleno inverno paulistano, com uma meia calça opaca horrorosa que pinica é simplesmente insuportável. 


d) Festas juninas envolvem rifas. Rifas envolvem perturbar parentes, vizinhos e até desconhecidos vendendo bilhetes. Anti-social como eu era (era?), fazer as vezes de criança simpática para vender rifa de espremedor de laranja era uma verdadeira tortura chinesa. 


e) Eu sempre odiei milho, paçoca, vinho quente e todas as outras iguarias folclóricas. Passava a festa toda morrendo de fome e rezando para que aquilo acabasse logo e eu pudesse ir ao McDonald’s (tanto sofrimento tinha que ter uma compensação no final). 
Devo ser justa, entretanto. Agora adulta, consigo compreender o valor educativo da quadrilha. Ela não é apenas uma maneira que as professoras inventaram para se livrar das crianças durante alguns períodos do dia – ela é uma preparação para a vida adulta. Uma quadrilha pode ensinar valiosas lições sobre como, no futuro, as coisas serão muito mais cabeludas do que os pequenos inocentes podem imaginar. 


Humilhação pública: A vida de quando em quando nos colocará em situações tão vexatórias que a única saída digna seria a morte. Dançar de roupa remendada com os dentes pintados de preto e quem sabe até um coração colado no traseiro em frente a centenas de pessoas é apenas a primeira delas. 
Abuso de poder: Pois se existe uma coisa que certos chefes e alguns professores de Educação Física têm em comum é a leve desconfiança de que talvez Hitler tenha sido mal interpretado. 
Protecionismo: A filha da diretora que dança tão bem quanto o tio Julião depois de algumas cervejas se torna a noiva da quadrilha. A loira boazuda burra feito uma porta é promovida. Coincidência? Eu acho que não. 
Convivência forçada: Ensaiar durante um mês fazendo par com o gordinho que vive suando é na verdade um treino para futuras parcerias nada felizes, como dividir apartamento com aquela sujeita que só consegue dormir ouvindo Bruno e Marrone, fazer grupo de estudos com o cara que acha que “O Código da Vinci” é um clássico da literatura universal ou apresentar projeto com o fulano que, além de ter mau hálito, ainda dá em cima de você. 
Tolerância: Ou você acha que conseguirá passar ileso pela vida corporativa sem um sorriso forçado e um permanente ar de quem está achando o amigo-secreto de fim de ano divertidíssimo? Comece treinando na quadrilha. 
Frustração: “Olha a coooobra!” “Aaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaah!” “É mentiiiiiira!”. E os coitadinhos rebolando. 


A verdade é que, observando bem uma quadrilha, percebo que nem mãe Dinah seria capaz de tão fiel retrato do futuro quanto esta inocente manifestação cultural. No fim das contas todo mundo dança e quase ninguém sai feliz.

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Da arte de se dar mal em festas juninas

Há duas coisas com as quais eu posso contar em Junho - minha rinite e as festas típicas. Sendo obrigada a trabalhar nas benditas celebrações do colégio todo ano, já adquiri certa experiência e sempre procuro maneiras de tornar a experiência o menos dolorosa possível. Se você, coleguinha, um dia for obrigado a trabalhar em uma festa junina, seguem aqui duas dicas valiosas de sobrevivência:

1 - A escolha do turno: Festa junina de colégio é dia de deixar a preguiça de lado e acordar cedo, pessoal. Sabendo que 99% delas acontecem aos sábados, é de se esperar que a família brasileira só acorde de verdade, se levante, arrume os filhos, coloque avó, cachorro e papagaio dentro do carro por volta das 11 da manhã, o que quer dizer a festa vai encher mesmo depois do meio dia, quando hordas de crianças famintas se dependurarão gritando no balcão de cachorro-quente. O primeiro turno, portanto, é o ideal.

2 - A escolha da barraca: Ainda que você tenha conseguido o turno da manhã, a escolha da barraca certa garantirá sua paz nas três ou quatro horas que você passará em pé ouvindo música sertaneja. Duas devem ser ignoradas logo de cara - a do churrasco e a do pastel. Motivo: não voltar para casa cheirando a feira livre. As barracas de comida salgada além disso costumam ser as mais procuradas, o que significa trabalhar bastante, última coisa que você quer fazer num sábado, não? Restam as bebidas, brincadeiras e doces. Analisemos.
Bebidas - também bastante procuradas, dão menos trabalho que a comida e não produzem odores. Basta abrir e fechar a geladeira. Podem ser uma opção em último caso.
Brincadeiras - nunca. Jamais. Em tempo algum. Nem considere se voluntariar para a pescaria ou a boca do palhaço. Você passará o dia ouvindo "tiiiiiiiiia", "tiiiiiiiia", "tiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiia", terá que consolar os ruins de mira que não ganham nada e convencer os mais ou menos que acertar uma bola só dá direito à saboneteira mesmo. Isso tudo e ainda se abaixar e se levantar centenas de vezes para resgatar bolas ou recolocar peixinhos. E reze para não ter prendas realmente boas na sua barraca - uma vez trabalhei a tarde em uma que tinha estalinhos. Não tive um segundo de paz.
Doces - convenhamos, quem come doce de festa junina? Criança não gosta de paçoca, pé de moleque, curau, doce de abóbora. A barraca dos doces é frequentada pelas avós, tiazinhas, gente calma, pacífica e que só vai aparecer lá uma vez. Parabéns, você descobriu a barraca perfeita.

Agora vejam a ironia da coisa, coleguinhas. Com toda esta experiência, eis que esse ano fui colocada no turno da tarde, no cachorro-quente. Antevejam o sábado que me espera e se compadeçam. Obrigada.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

A banda mais bonita da cidade - um estudo (fail) de caso

Quando o tal clip da "banda mais bonita da cidade" começou a pipocar pelo twitter, facebook e afins eu resisti bravamente ao primeiro clique uma vez que anos de FFLCH (Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP) me treinaram bastante para intuir o que viria de uma banda com esse nome e uma música chamada Oração. Mas aí as pessoas insistem, continuam falando sobre o assunto e eu me senti impelida a assistir à bagaça para pelo menos falar mal com propriedade ao invés de apelar para o "não vi e não gostei".
Pra quem não viu e quer sofrer também:


A primeira experiência foi traumática, acreditem. O rapazinho com a margarida no bolso da camisa brecholenta, os pratos sujos na pia da cozinha, as saias rodadas, aquela sensação de que a qualquer momento aquela música chata ia parar e eles iam começar a entoar Morena Tropicana, isso tudo foi me dando uma gastura, um aperto no peito, uma falta de vontade de viver que precisei parar de assistir. Eu não suportaria até o final. E percebi que a coisa é tão grave que merece um estudo de caso. Vem comigo, gente:

A pergunta crucial que este estudo de caso tentará responder é, por que, coleguinhas, POR QUE em 2011 ainda há gente que quer se parecer com uma versão hipster dos Novos Baianos?

Os Novos Baianos eram legais, sabem? Lá nos anos 70 eles viviam todos juntos, faziam musiquinhas engraçadinhas, não tomavam banho e batizavam os filhos que eles mal sabiam de quem era com nomes esquisitos. Nos anos 70 eles eram legais. Em 2011 dividir o mesmo teto com mais 50 pessoas é po-bre-za, não estilo de vida e usar saiotes de paninho ordinário e camisas brecholentas não é bacana. Não é vintage. É, no máximo, "caixa de doação style".
Talvez eles se identifiquem com a cultura hippie. Eles curtem a natureza, a música, o amor. Eles também curtem chocolate Kopenhagen e xampu da Boticário, porque há limites, não é, minha gente? E eles são tão fofuxos, as meninas com suas franjas cortadas pelas priminhas de 5 anos, todo mundo tão feliz, dançando, cantando, celebrando a vida, olha lá o baterista com um vira-lata no colo! Pensando bem, por que em 2011 ainda há gente que quer se parecer com uma versão hipster do grupo de jovens da paróquia de Nossa Senhora da Canoa Quebrada? 

A verdade é que este estudo de caso está fadado ao fracasso e a culpa é da minha total incapacidade de assistir esse vídeo mais uma vez para concluí-lo. Meu cérebro derreteria. 

Neo-hippies. Até quando? 

terça-feira, 24 de maio de 2011

Tá pensando que internet é bagunça?

Uma vez eu estava lá, no meio de aula observada, e ao listar para os alunos os países que compõe o Reino Unido, esqueci de mencionar o País de Gales. Meu observador, na hora do feedback, gentilmente apontou esse deslize e finalizou com um: "Tá pensando que País de Gales é bagunça?". Só eu ri e ele, coitadinho, ficou ali, enfrentando a cara de "q" do resto da sala.
Dia desses uma turma de adolescentes formou duplas e como a sala tinha número ímpar de alunos, um deles ficou sozinho. Quando um retardatário chegou eu abri um sorrisão e disse: "Olha, Vitor, que bom, você não está mais forever alone!" Silêncio sepulcral. Dez alunos na sala e NENHUM entendeu. Isso sem contar os colegas que vem te corrigir no facebook quando você escreve "todos chora" ou "corrão". É muito frustrante usar gírias de internet e ninguém entender, gente. É triste. De que adianta saber tudo sobre a questão do Oriente Médio se a pessoa não conhece os "bons drink"?

Lembrei de tudo isso porque a amiga de uma amigo, num bar, sábado, contou a seguinte história: diz que o professor de faculdade da irmã dela vivia usando essas referências em sala de aula e todo mundo fazia aquela cara de "oi?", só a irmã entendia. O professor, um dia, entrou na classe e disse: "olha, estou cansado de interagir só com a fulana aqui, lição de casa esse fim de semana é entrar na internet e procurar isso, isso e isso..." e tacou na lousa coisas tipo Luísa Marilac, Katylene, Cleyciane, Fica vai ter bolo.

Curso superior dos novos tempos, minha gente.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Gastronomia de República

Muito se fala sobre a gastronomia de boteco. Hoje, inclusive, a tal é alvo de estudos seríssimos e apreciada por gourmets, chefs e qualquer outra raça que se denomine “entendido de comida”. De repente frango a passarinho virou um negócio chique. Nada se discute, entretanto, sobre outro ramo pouco nobre da culinária – a gastronomia de república, a irmã (mais) pobre da gastronomia de boteco.

Been there, done that, pessoal. Vivi cinco anos dividindo apartamentos bagunçados com muita gente esquisita. Briguei por telefonemas de 20 reais sem dono na conta, aturei namorados alheios enrolados na minha toalha, acordei mais cedo para usar o banheiro sabendo que minha roommate curtia fumar um cigarrinho enquanto fazia o número 2 de manhã, comi miojo em mesas de metal descascado.  Glamour, tem mas acabou.

Eis que colega Paula Scarcelli me brinda com este vídeo e me relembra os anos em que pilotei um fogão que contava com apenas uma boca ativa. Com isso, decidi resgatar algumas delícias da culinária de república, arte especializada em se virar com os recursos materiais e financeiros mais parcos possíveis:

1. O miojo festivo
Desista, companheiro – você não passará por uma república sem recorrer ao bom e velho macarrão instantâneo.  Hoje em dia é possível passar praticamente um mês comendo a iguaria diariamente sem nunca repetir um sabor (e, por favor, ignore o de caldo de feijão. Quem foi que teve essa idéia meu deos?). Isso se você não morrer de overdose de sódio em 15 dias. Enfim, nos dias em que a pessoa dispõe de tempo, disposição e ingredientes (coisa rara numa república), pode-se sempre apelar para velhos truques para enfeitar aquele Nissin de galinha caipira que vai vencer semana que vem. As possibilidades são infinitas – requeijão, tomate, peito de peru, ervilhas, tudo misturado e jogado dentro da panela formando uma maçaroca branca quase apetitosa. Mas não se engane – o miojo continua lá, impávido, deixando bem claro que sim, você vai jantar numa mesa de metal descascado.

2. O atum
Não se preocupe se você pertence à estranha categoria de “gente que odeia peixe”. Atum enlatado por pouco não se qualifica como produto do mar. É barato e surpreendentemente mais rápido que miojo. Se você nunca almoçou atum direto da lata, não sabe o que é alegria de viver – mas se dispuser de uns minutos a mais, misturá-lo com um tomatinho e colocá-lo entre dois pães de forma não fará mal nenhum.

3. O feijão
Mentira. Ninguém come feijão em república. Aliás, se uma casa de estudantes tiver uma panela de pressão, nem pode ser considerada uma república.

4. O churrasco
Ok, sejamos honestos – o nome correto seria “a linguiçada na grelha da geladeira”, mas a gente chama de churrasco e pede para cada um trazer sua cerveja (e especifica que não, não pode Kaiser nem Bavária).

5. A parmegiana de nuggets
Os nuggets, depois do miojo e do atum, são os melhores amigos do estudante/preguiçoso com fome. Depois de fritos, são cobertos com outro ingrediente básico de uma despensa de república, o molho de tomate enlatado e aquela mussarela esperta, colocados no microondas e voilá. O mais próximo de uma parmegiana de frango que você vai chegar. Pode ser feito com catchup numa versão mais roots e é uma ótima receita para aproveitar aquele queijo velho que ninguém lembra quando comprou.

6. A caipirinha alternativa
Acontece. Um dia a pessoa decide se embebedar com seus roommates e a cerveja acaba no meio da madrugada. Não há supermercados ou lojas de conveniência 24 horas por perto. No armário apenas uma garrafa de Velho Barreiro e na geladeira um pacotinho de limões do Habib’s esquecidos da última entrega (porque alguém os guardou permanece um mistério). Pronto. O resto da noite está garantido.

Vejam bem, diante desta dieta eu sobrevivi. Estou aqui, saudável e bem nutrida 10 anos depois. E dizendo com orgulho que não vejo uma garrafa de Velho Barreiro e uma grelha de geladeira fora da mesma desde então. 

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Natura, devolve meu dinheiro!

Estou lá dando a primeira aula do curso para um grupo X. Como é de praxe, faço aquela brincadeirinha de escrever informações aleatórias sobre mim no quadro para que eles adivinhem do que trata. Escrevi 14, que é há quanto tempo eu dou aula. Eis que um dos moços, um gentleman, diz: "É a sua idade!". Rio, digo, claro, claro que é. O outro, menos educado, dispara, dessa vez a sério: "Você tem um filho de 14 anos!"

Really? REALLY?

Ok, supondo que tivesse começado cedo, eu até tenho idade para ser mãe de alguém de 14 anos (aimeodeosdocéu). Mas né? A Natura me prometeu que eu não aparentaria isso.

E agora, Chronos, como é que a gente fica?

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Trabalho insalubre

Daí meu colega de trabalho (oe!) resolveu ontem otimizar a preparação de aulas e tocou a mesma música para todas as turmas dele. Todas, e com agravantes.
Agravante 1 - Colega é daquela raça de professores de inglês que gostam de divas-pop-que-gritam-bastante.
Agravante 2 - Colega dá aulas na sala colada à minha.
Agravante 3 - Colega aparentemente tem problemas auditivos e ouve música em um volume bem acima do considerado aceitável.
Isso significa que ontem eu dei quatro aulas com Mariah Carey se esgoelando na sala ao lado da minha. Quatro aulas, o que equivale a cinco horas. Se isso não é insalubridade, eu não sei o que é, gente.

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Queridão em alto mar

Uma vez alguém postou no Facebook um gráfico entitulado "O que seus pais pensam quando você não atende o celular" que era dividido mais ou menos assim: 97% - você morreu; 2% - você está morrendo e 1% - você está ocupado ou não ouviu o telefone.
Eu ri, mas né? Estou lá nos 99%. Sempre penso o pior, no matter what, principalmente quando se trata de queridão ou de mãmis. Da irmã não, que a irmã é péssima de celular, tou pra ver atender o bichinho ou retornar ligação no mesmo dia.
E é de família, viu? Uma vez saí de uma aula e vi dez ligações perdidas da minha mãe. DEZ. Fodeu, morreu alguém, pensei. Telefonei de volta tremendo para ouvir um: "Eu só queria saber se você vem para almoçar. Não sabia que você estava em aula, fiquei preocupada." Porque se eu estivesse debaixo da roda de um Lapa - Praça Ramos me ligar dez vezes ia fazer toda a diferença.
Nem discuti porque, olha, igualzinha. Só me contenho nas 200 ligações para não passar por desequilibrada, mas sofro. Agora mesmo, tô aqui, quase sem unhas porque queridão se tacou no mar num veleiro rumo ao Rio e notícia desde terça cadê?
Eu sei, eu sei. Queridão foi com uns gringos, donos do veleiro. Os tios são experientes. Estão em alto mar, minha gente, óbvio que não há comunicação possível fora rádio. Mas cadê que a louca aqui racionaliza? Fica pensando merda, imaginando coisas que nem vou escrever aqui porque já dá um apertinho no peito.
Sábado ele volta. E vai apanhar muito pra aprender a não me deixar desse jeito. O duro é se ele tomar gosto na brincadeira e resolver repetir. Acho que eu enfarto.

quinta-feira, 21 de abril de 2011

Véspera de feriado

Para situar, eu dou aula segundas e quartas a noite em uma escola que fica na av. Pacaembu, coladinha com o estádio. Para chegar lá eu ando uma distância considerável nesta avenida. E ontem percebi que a coisa estava estranha. Seis horas da tarde e hordas de santistas já se dirigiam à praça Charles Müller, tiozinhos com isopor brotavam do chão a cada cinco metros e flanelinhas se postavam no meio da rua indicando as vagas de estacionamento a preços módicos tipo 50 reais. Gente, o jogo não é nove e meia?, pensei mas fui seguindo para cumprir meu doce dever de dar aula numa quarta a noite véspera de feriadão.
Chego lá e as secretárias me olham com com cara de "o que essa louca está fazendo aqui?"

"Ué, gente, vim dar aula para as meninas do pré-intermediário."

"Ai, esquecemos delas!"

"Oi?"

O jogo era as sete e meia. Acabaria nove e meia, mesmo horário do fim das aulas. Clima tenso na Pacaembu. Flanelinhas dominando inclusive o estacionamento da escola, segundo as meninas se colocar corrente no domingo eles aparecem lá e picham tudo - acharam melhor cancelar as aulas. Telefonaram para minhas alunas.
Nisso começa a chover. Muito. Eu, as duas secretárias e a outra professora ilhadas lá dentro, numa véspera de feriado, num calor dos infernos, no meio do jogo do Santos. Uma das meninas vai até a porta e chama o flanelinha:

"Olha, você está usando nosso estacionamento, então trate de comprar uma cerveja pra gente."

Dois minutos depois ela volta, felizona, com 4 latinhas. Trocamos o estacionamento da escola por Brahma. Lá pela terceira latinha um carro aparece do nada e estaciona colado no nosso portão. Dele descem dois santistas chinelentos. Eu estava do lado de fora da escola, de guarda chuva, esperando mais uma leva de cerveja:

"Pode estacionar aqui?"

"Vai ter que acertar com o flanelinha. 50 reais"

"Olha, tô quase pagando 50 reais nesse teu guarda chuva."

"Eu vendo."

"Pegar toda esse chuva pro Santos perder, né não?" Provocou a secretária, do meu lado.

"Que que cês são, Corinthianas?" Entre nós e os santistas, só um portão fechado sem cadeado.

"Que é isso, moço, sou Santos desde criancinha." Consertei. Nessas horas cagar pra futebol é uma bela vantagem.

"Aaaah, bom." E foram embora, debaixo de chuva. Nós continuamos bebendo e quase fomos embora na saída do jogo.

Essa foi minha véspera de feriado. Saí pra trabalhar e voltei bêbada. Orgulho.

quarta-feira, 20 de abril de 2011

Carol

Eu tenho essa turma de crianças (me recuso a dizer pré-adolescentes) as terças e quintas a tarde. Seis meninas, entre 9 e 11 anos.
Idade complicada essa. Algumas já começam a dar sinais da adolescência chegando, outras ainda magrelinhas, criançonas com caderno das Princesas Disney. Been there, done that. E entre elas há a Carol.
A Carol tem uns 11 anos e é diferente. Ela toca violino, frequenta o grupo de escoteiros e não vai à aula de shortinho e  Melissa cor-de-rosa brilhante. E a Carol é meio desajeitada, chega atrasada e esbaforida toda aula e, para compensar essa falta de traquejo, fala pelos cotovelos para ninguém perceber o quanto é desconfortável para ela estar ali. 
Ontem chegou atrasada, como sempre, e com isso atraiu os olhares das outras para ela. Estava usando um vestido bege de malha até os joelhos, um par de tênis pretos e meia cinzas. A Carol é claramente uma menina que não tem muita noção das coisas que veste mas também não se importa com isso. As meninas de shortinho e Melissa cor-de-rosa brilhante não perdoaram:

"Porque você colocou esse tênis com esse vestido?" Ao que Carol, respondeu, laconicamente:

"Porque eu não podia vir à aula descalça, ué?"

Eu sou a Carol. Quer dizer, eu fui a Carol. Eu fui aquela menina esquisita, muito magrela, descabelada e de roupas estranhas que não se dava muito bem com o resto da sala. Eu fui aquela com quem ninguém queria fazer grupo. E eu tento o tempo todo colocar panos quentes e evitar que a Carol passe pelas coisas que eu passei, confesso, dou um jeito de ela ganhar as competições (mas ela ganharia de qualquer maneira, é inteligente a danada) e escrevo bilhetinhos de apoio na lição de casa dela. Ela as vezes fica de lado e vai embora triste, e tenho vontade de dizer que vai passar. Que não vai ser sempre assim. Não vai ser perfeito, nunca vai, mas vai ser melhor. 

Vai ser melhor, Carol, eu prometo. 

terça-feira, 19 de abril de 2011

Boa ação do dia

E ontem eu queria usar um vídeo para ensinar because. but e so com uma turma fofa de pré-intermediário e para isso qualquer narrativa serve. Preparando de última hora tive que contar com os DVDs lá de casa: Casablanca, La Dolce Vita, Psicose, a Lista de Schindler, Nove Rainhas, O Fabuloso Destino de Amelie Poulain, A rosa púrpura do Cairo, Como água para chocolate, O Paciente Inglês e uma coleção da Audrey Hepburn.  Sim,é o que tem pra hoje, pessoal. Lista inviável, convenhamos. E tinha esse:




Eu amo esse filme.

Porque tem o Zach Braff e não há possibilidade de qualquer coisa com o Zach Braff ser ruim. Porque a trilha sonora é uma das coisas mais espetaculares que eu já ouvi, do começo ao fim. Porque é um daqueles filmes engraçados-tristes-pra-caramba e bonitos de quase doer. 

Levei para as meninas. E elas gostaram tanto da cena do hospital (foi a que eu usei) que pediram para ver o resto. 


E eu passei. Confesso, não dei a última aula aula ontem - deixei minhas alunas assistindo Garden State com as legendas em Inglês. Fiz minha boa ação. 

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Só pra dar uma idéia

Isso é dar aula para crianças:

Criança 1: Precisa escrever o nome completo?
Professora: Não.
Criança 1: Ah, mas eu quero escrever...
Professora: Então escreve.
Criança 2: Aaaaaaaaaaaaah, nome inteiro nããããão...

Criança 1: Pode escrever o cabeçalho a caneta?
Professora: Não.
Criança 1: Aaaah, mas agora eu já escrevi.

Professora: Eu vou mostrar uma figura e vocês me dizem o nome em inglês, tá? Só precisa dizer uma vez, porque eu ouço TODO mundo. (Mostra a figura de um leão)
Todas juntas: Lion!
Criança 1: Lion!
Criança 2: Lion!
Criança 3: Lion!
Criança 4: Lion!
Criança 5: Lion!
E assim sucessivamente até que as 20 tenham dito lion em voz alta e se certificado que a professora ouviu todas elas.

Do nada, com a sala milagrosamente no mais completo silêncio, todos concentradinhos fazendo lição:
Criança 1: Meu pai vai comprar uma televisão de 100 polegadas.
Criança 2: Meu pai vai comprar uma de 200 polegadas.
Criança 3: O meu já comprou uma de 200 polegadas 3D!
Criança 4: O meu comprou uma de 200 polegadas 3D na Disney!

Essa é minha vida.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

Meus colegas de trabalho - essa gente esquisita e suas idéias de jerico.

Chego na escola e encontro uma pilha de cópias colocadas por engano no meu armário. Dou uma olhada antes de deixa-las em cima da mesa para que o dono se manifeste - vai que é alguma atividade extra suuuuper legal que eu possa usar também?

Era a letra de Ego, da Beyoncé. Com uns espaços pra completar.

Você é como eu, coleguinha, e entende tanto de música pop quanto de culinária norueguesa? Eu ajudo. Reproduzo aqui os trechos mais, digamos, interessantes deste clássico:

It's too big, it's too wide
It's too strong, it won't fit
It's too much, it's too tough
He talk like this 'cause he can back it up

He got a big ego, such a huge ego
I love his big ego, it's too much
He walk like this 'cause he can back it up




Como diria Katylene, estou morta feat. enterrada. Olha o povo que trabalho comigo, minha gente!

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Compartilhando beleza



It's that time of year,
Leave all our hopelessnesses aside (if just for a little while)
Tears stop right here,
I know we've all had a bumpy ride (I’m secretly on your side)

terça-feira, 5 de abril de 2011

Um post desinteressante

Eu sou professora de Inglês, todo mundo sabe. E, né por nada, sou uma professora bem competente. Eu estudei para ser professora de Inglês. De verdade.
Digo isso pra você aí, que faz Letras na Uniesquina. E pra você que passou seis meses servindo sanduíche na Austrália. Vocês não são professores de Inglês, embora alguns cursinhos de esquina digam que são.

Daí eu penso, né? Outro dia passei na porta da sala de um coleguinha e ele estava sugerindo que os alunos procurassem o Livemocha. E ele pronunciava "láivemôsha".

Eu tive uma aula observada semana passada. Tive que fazer um plano de aula gigantesco, detalhadíssimo, com coisas que nem compensa listar aqui porque são técnicas que não interessam a quem não é da área, está ouvindo, coleguinha "láivemôsha"? Milhares de pessoas estudam de verdade, se graduam, escrevem livros, sabem do que estão falando - e eu estou tentando me tornar uma delas.

Hoje eu recebi o feedback da aula. Que foi bom, entendam. Mas não foi perfeito. Não foi espetacular. E enquanto eu não conseguir dar uma aula irretocável eu não estarei perto de me tornar uma daquelas pessoas que ensinam outras a ser professor de Inglês. Enquanto isso eu continuo sendo colega do "láivemôsha" e da menina chata que grita e diz que as aulas dela são uma bosta por que todos os alunos são chatos.

Eu, que não sou perfeccionista nem nada, me chateei hoje. Mas vou sobreviver.

sábado, 2 de abril de 2011

Coisas difíceis

Copiado do blog da Bruna.


 Coisas difíceis

1. Não dormir assistindo filmes em casa depois das 10 da noite.
2. A última aula da sexta-feira.
3. Acertar receita de bolo.
4. Separar os documentos para a declaração do imposto de renda.
5. Comer um prato a la carte até o final.
6. Sudoku. 

7. Guardar minhas chaves sempre no mesmo lugar.


Mais difíceis

8. A primeira aula da segunda-feira. 
9. Compreender os filmes do David Lynch.
10. Não abrir o Facebook assim que ligo o computador.

11.Trabalhar com gente barulhenta. (oi, sou professora de crianças, profissão errada?)
12.Gostar de U2. 
13. Não chorar ouvindo My father's gun em Elizabethtown pela centésima vez. 
14. Conversar com estranhos.


Dificílimas


15. Fazer minhas próprias unhas.
16.Terminar de ler Mrs. Dalloway. 
17. Chegar atrasada.

18. Começar o dia sem café. 
19.Terminar o sábado sem uma cerveja.
20. Ouvir calada gente boçal se manifestando.
21. Assistir a filmes com a Gwyneth Paltrow.

quinta-feira, 31 de março de 2011

Desculpa, Glee

Eu sei que TODOS AMA GLEE e eu só assisti a três episódios (oi, sou por fora), mas já desisti.

Me incomodam aquelas meninas com roupa de líder de torcida o tempo inteiro - é um seriado americano ou um gibi da mônica? Me incomodam as histórias bobinhas demais, quase infantis. Me incomodam os estereótipos. Me incomodou profundamente o moralismo de colocar uma menina para fazer o Dr. Frank-N-Furter em Rocky Horror Show. E podem rir, eu AMO Rocky Horror Show. Sei cantar todas as músicas. 

E ontem, golpe de misericórdia. Colocam uma das atrizes que eu mais abomino no universo para fazer o papel de professora talentosa-revolucionária-que-aparece-para-mudar-tudo - Gwyneth Paltrow. Gwyneth Paltrow pra mim representa tudo de mais sem graça e sem talento que Hollywood já produziu. Foi dela um dos dois únicos filmes que eu abandonei pela metade por falta de saco de ver até o final - Duets. Odeio. E aí vem Glee, que já andava cambaleando na minha preferência, e tenta me convencer que a Gwyneth Paltrow é foda.


Desculpa, Glee. Não deu. 


quarta-feira, 30 de março de 2011

Atualizando

Lembram da professora-carioquinha-malandra-bronzeada?

Bom, primeiro que é ela nem é carioca, é do Espírito Santo e só força o sotaque.

Segundo, Carlota, ganhaste o bolão. Saindo da escola hoje encontro a pessoa na secretaria reclamando com o coordenador do que? Do que? Do que?
Dos adolescentes que não calam a boca e não a deixam dar aula.


Cancela os jagunços e macumbeira, por favor.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O evento, a professora e a boate.

Como diz a amiga Bruna, é tudo verdade.

No tempo em que internet banda larga ainda era luxo, lá pelos idos de 2001, eu trabalhava em uma escola de inglês na Vila Mariana. O fim do ano se aproximava e nossa coordenadora resolveu organizar uma confraternização com os alunos.
Uma professora sugeriu um lugar ali perto, segundo ela "um barzinho ajeitadinho que tem uma pista de dança". A grande vantagem é que podia-se ir a pé, da escola, depois das aulas.
A coordenadora achou a idéia boa, mas por via das dúvidas resolveu conhecer o lugar antes de marcar o evento. O que narro a seguir nos foi contado pela própria.

(parênteses: a coordenadora era uma senhora, tiazinha mesmo, cara de professora primária das antigas)

Diz ela que chegou até o local acompanhada do marido por volta das sete da noite. Foi barrada pelo segurança:

"A senhora quer entrar?"

"Quero, claro."

"Mas, minha senhora, isso aqui é uma boate."

"Sei, e...?"

"Minha senhora, BO-A-TE."

Minha ex-chefe esticou o pescoço para tentar dar uma espiada lá dentro. E viu umas moças assim, pouco vestidas, dançando sobre um queijinho.

Quer dizer, a gente por pouco não levou os alunos para confraternizar num puteiro. Fim.

quarta-feira, 23 de março de 2011

Outros tempos

Turminha de uns 11, 12 anos aprendendo a falar sobre música em inglês. Quando estou indo embora, a menininha que tinha ficado mais quieta durante a aula chega até mim e diz, baixinho, praticamente um segredo gravíssimo:

"Teacher, eu fiquei com vergonha de falar na frente dos outros, mas eu gosto de rock. Meu pai tem uma banda e eu amo Iron Maiden."

Ela ficou com vergonha de gostar de rock. VER-GO-NHA.

Tristes tempos pra se viver, meus amigos.

segunda-feira, 21 de março de 2011

Speechless

Daí o menino volta da escola com um hematoma porque, gente, ele tem oito anos, joga futebol loucamente na hora do intervalo e é meio ruim de bola.

O que o pai da criança faz?

Liga para o colégio e diz que vai mandar o garoto fazer um EXAME DE CORPO DE DELITO.

Sério. Depois a psicóloga da Band News diz que a culpa é nossa.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Desabafo

Deixa eu desabafar aqui que eu estou sofrendo.

Eu dou aula em curso de idiomas, né? E em curso de idiomas, com aquele salário milionário que eles pagam, a gente tem que se virar nos 30 e pegar todas as turmas que aparecerem.
E eu peguei adolescentes. E eu já esclareci alguns posts abaixo que adolescentes não são minha categoria preferida de gente. Numa lista, inclusive, estão só um pouquinho mais bem colocados que os atendentes da TIM, para vocês sentirem o drama.
Essa minha turma, por exemplo, tem oito. Ontem eu cheguei na sala e só estavam três deles, NO ESCURO, cada um completamente alheio ao outro no celular mandando SMS ou ouvindo música. Perspectiva animadora num curso de inglês onde espera-se que as pessoas interajam.
Aí acontece o seguinte. A molecada entra com três anos no curso de inglês. Com catorze neguinho já está no nível avançado e, adivinhem - os livros do nível avançado foram feitos para adultos. E lá estou eu, tirando leite de pedra para fazer render uma aula de uma hora e meia sobre viagens com adolescentes que foram, no máximo até o Guarujá. Com gente que nunca entrou num avião ou num ônibus sozinho, nunca comprou uma passagem, nunca fez reserva num hotel ou check-in no aeroporto. Com gente que nunca fez a própria mala.

E vai piorar, coleguinhas. A lição dois é sobre emprego.

P.S.: Eu sei que nem todos os adolescentes são idiotas e que minha birra provavelmente colabora para que os mais chatos cruzem meu caminho, mas oi? Juntar oito adolescentes completamente apáticos na mesma sala de aula é muito azar. Só pode ser.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Da série: Não sei lidar

Eu juro que é tudo verdade.
Chefe me chama para mostrar as provas preparadas pela professora do turno da manhã. Me apresenta umas folhas de sulfite com uns exercícios xerocados, recortados e colados feito o fiofó. Sim, recortados com tesoura, colados com cola. Literalmente . Diagramação, Microsoft Office, não trabalhamos. Quase pergunto se estamos em 1990 e ninguém me avisou, enfim. Me pede para refazer já que a moça é nova, coitada, não conhece o esquema do colégio. Oi? No primeiro dia de aula, que eu me lembre, recebemos uma lista de instruções que dizia: provas DIGITADAS em VERDANA tamanho 11. Acredito que isso imediatamente inviabilize tosquices recortadas e coladas. Eu estava errada. 

Procuro a professora. Ela justifica a colagem com um: "eu não tenho muitas figuras no meu computador e quando eu escaneio elas ficam muito claras."

Gente. Gen-te. Que ano é hoje? Que pessoa é essa que tem curso superior e não conhece google imagens?

Não sei lidar. Não sei mes-mo. 

quarta-feira, 16 de março de 2011

Saint Patrick's Day

Taí uma festa que eu curto. Adoro recortar trevinhos, fazer cartolas e comer gelatina de limão com a molecada. Acho fofinhos os leprechauns sorridentes com suas casacas verdes cuidando do pote de ouro no fim do arco-íris. E poder beliscar quem não está de verde (não que eu incentive, tá gente, eu digo que não pode)? Priceless. Mais divertido que Halloween.

Tô gato?
Claro que de vez em quando aparece um pai mala reclamando da comemoração "colonizadora", perguntando porque não celebramos o dia do saci. Meu senhor, o dia do saci é 22 de agosto e se chama DIA DO FOL-CLO-RE. O senhor não sabia? Então vai lá comprar um Gurgel, joga fora seus DVDs do Jogos Mortais e para de encher o saco da professora de inglês.

quinta-feira, 10 de março de 2011

Delicadeza

Daí chega a professora nova, toda carioquinha-bronzeada-malandra dizendo que A-MOU sua turma de adolescentes das duas e meia. Respondo com um "ainda bem que alguém gosta, porque eu tenho pavor de adolescente" ao que a bonitinha justifica:

"Ah, mas é que eu AINDA lembro de quando eu tinha a idade deles."

Quer dizer... Vou ter que arrumar uns jagunços pra dar uma coça nessa daí. Ou uma macumbeira daquelas poderosas. Alguém conhece?

quarta-feira, 9 de março de 2011

Cada enxadada é uma minhoca

A frase acima foi proferida pelo namorado para descrever a sagacidade de Sô Vicente, dono do boteco de mesmo nome localizado na vila de São João Batista em São Roque de Minas, aos pés da Serra da Canastra, Minas Gerais, Brasil.

Megalópole

Sô Vicente tem idade indefinida e resposta pra tudo, como só tem quem já viveu muito e já viu até "o diabo amarrado pelo saco". No bar, perdido no meio de um lugar no qual, se o mundo acabar, a notícia leva uns cinco dias para chegar, você acorda o dono do estabelecimento as sete da noite, ele abre a porta da frente e volta para casa, que fica ao lado. Você pega sua própria cerveja e marca num bloquinho no balcão para pagar no dia de ir embora. Se for mulher, pode usar o banheiro da casa dele mesmo, atravessando a cozinha e cumprimentando as netas na sala. Se for homem, vai na horta.

Só entra se estiver com a pulseirinha

O almoço precisa ser encomendado. Não é chegar e ir comendo não, que a mulher dele não vai ficar fazendo comida pra marmanjo aparecer a hora que quiser. Aliás, minha lista de últimas refeições ganhou um novo primeiro lugar neste carnaval - se eu pudesse escolher, antes de ir de vez, não teria dúvidas - arroz, feijão, torresmo, farofa de couve e abóbora refogada de dona Elza, servidos direto do fogão de lenha e degustados ali, na varanda da casa dela.

Só os VIPs

E pra chegar lá? 100 quilômetros de terra, 30 por dentro do parque nacional numa estrada que, depois de uma semana de chuva ininterrupta, daria medo a muito 4X4 metido. E o Voyage de namorado fez lindo, não atolou nenhuma vez, embora tenha perdido duas calotas e adquirido todo um novo tom de marrom depois da brincadeira. Uma hora e meia para atravessar o parque.

Imaginem isso aqui depois do dilúvio

E a chuva não parou. Quatro dias de carnaval e de roupas permanentemente úmidas, de passeios cancelados devido a estradas intransitáveis e lama, muita lama. Mas olha o visual:

Faz de conta que eu vi assim

Carnalama Canastra 2011 - eu sobrevivi. E um dia volto para ver o sol.

Nota: com exceção das fotos do bar, todas as outras são do ano passado, porque esse ano o céu deve ter ficado azul por uns 20 minutos em quatro dias.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Ódio de estimação

Respondi agora num comentário mas acho que vale compartilhar aqui. Tenho um ódiozinho especial por dois tipos de pessoa que devem ter faltado em alguma aula do curso de Comunicação Humana I.

O primeiro é aquela pessoa que, diante de uma pergunta que contém duas opções, responde "isso". Exemplo:

"Você prefere o de morango ou o de creme?"

"Isso."

O segundo é gente que, no telefone, responde "alô" com outro "alô".

Telefone toca. Pessoa atende:
"Alô?"

"Alô?"

Oi? Foi você quem ligou meu filho. O curso de Comunicação Humana I deve ter ensinado, em algum momento, que só diz "alô" quem ATENDE o telefone. Você matou essa aula? Ficou passando trote? Azar o seu - agora você passa por idiota toda vez que liga para alguém. E eu odeio você.

quarta-feira, 2 de março de 2011

1/3/1996

Ontem fez 15 anos que meu pai morreu. E eu nem me lembrei. Nem minha mãe ou minha irmã.
Eu deveria me envergonhar de dizer essas coisas, mas a verdade é que, há pelo menos uns 10 anos, eu só me lembro que meu pai morreu dia primeiro de março de 1996 no dia 2, porque é o dia em que os Mamonas Assassinas morreram e aí todo mundo me lembra.

Seu Adelphi foi um cara sensacional, e isso não tem nada a ver com ser meu pai. Pergunte a qualquer um que tenha tido a sorte imensa de conhecê-lo. Ele era um cara inteligentíssimo, que passou em segundo lugar na FEA (e gostava de dizer: "na minha frente só tinha um japonês") mas que um dia se aposentou e resolveu levar uma vida diferente. E comprou um boteco no interior. Boteco, boteco mesmo, pé sujo, com chão de piso vermelho e pôster do Esporte Clube Votoram, vice-campeão varzeano de 1977.

Ele se foi um ano depois. Mal teve tempo de curtir o bar, mas no seu velório vários bêbados notórios da cidade apareceram, visivelmente sentidos. O velório dele não foi o dia mais triste da minha vida, porque foi o fim de um sofrimento terrível, de quase um ano de muita dor, idas e vindas de hospitais e por fim, a perda da consciência. Esse foi o dia mais triste da minha vida - o dia em que meu pai não me reconheceu mais.

Eu só voltei ao cemitério uma vez depois disso. O túmulo nem sei como está, não sei se minha mãe ainda vai lá. Para mim não importa. Meu pai não está naquele lugar. Não há nada dele naquele bloco de concreto. A dor que eu sinto hoje é a da injustiça. De como me parece errado que um cara tão sensacional tenha morrido aos 53 anos, sofrendo absurdamente e que não tenha visto as filhas se casarem, se formarem. Que não vá ver seus netos.

De vez em quando eu ainda choro muito. Porque a verdade é que a gente se conforma. Aceitar, acho que nunca.