quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Vida de aeroporto

Quem ouve pensa que sou um jet-setter, mas não é o caso. Foi pura coincidência eu ter que visitar Guarulhos duas vezes em uma semana, mas enfim. Porto Alegre foi casamento, agora estou em Brasília para o natal com minha irmã.

Cheguei ontem ao aeroporto munida de uma dose extra de paciência. Fim de ano, aeroviários putinhos e tramando greve, todo mundo de saco cheio - seria um longo dia.

Começou mal, com uma hora de espera para o check-in. Nunca vi tanta gente enrolada, cada um que parava no balcão ficava 15, 20 minutos. Nêgo que não sabe o número do voo, nêgo que não sabe o horário, até gente no aeroporto errado tinha. Sério, se você está na Tailândia e não consegue ler placas nem nada poda haver uma possibilidade de ir ao aeroporto errado - mas se você é brasileiro e não sabe a diferença entre Congonhas e Cumbica, ó, se mata.

Meu pânico de atraso me fez ir para a sala de embarque quase duas horas antes do voo. Nesse período o portão mudou quatro vezes - péssimo sinal. Mal sabia eu que minha sorte estava prestes a mudar.

Pra começar o avião saiu no horário. Como assim, minha gente? Como assim em um voo marcado para as 18:40 eu embarquei as 18:15? Oi?

Meu assento, para variar, era o do meio. Amo. Mas de novo, eis que o destino me sorri - ninguém senta na janela. E lá vou eu, contentinha, sem uma alma do meu lado disputando meu espaço com o cotovelo.

No trajeto, nenhuma criança chorando. Nenhuma tia sentada longe da amiga gritando pelos corredores. A mais absoluta paz. Incrível.

Para completar meu dia iluminado eis que eu, a rainha da esteira, a que sempre fica mofando eternamente a espera da bagagem, vejo despontar minha mala - a primeira da leva. Nunca antes na história deste país.

Gastei minha cota de sorte de fim de ano em um dia só. Espero que tenha sobrado um pouquinho, pois ainda tem reveillon em Juqueí. (Bate na madeira)

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Como entreter seus filhos no aeroporto

Estava lá na sala de embarque vendo o horário do meu vôo para Porto Alegre apresentar-se cada vez mais distante. Já tinha jogado Tetris, feito palavra cruzada, lido a revistinha náutica do queridão, me xingado mentalmente por ter esquecido meu livro, tentado tuitar pela internet de bosta do celular, ido ao banheiro 20 vezes. Assunto com queridão acabou. Me restou prestar atenção aos meus companheiros de atraso.


Crianças, né? Sempre tem. As pessoas gostam de procriar. E criança entediada, falo com conhecimento de causa, é o instrumento do capeta. A mãe tem duas opções - uma é dar atenção ao petiz. Os pequenos em geral são fáceis de entreter - um guardanapo e uma caneta, um livrinho de colorir comprado na banca, um joguinho idiota no celular e para os maiores uma brincadeirinha boba de ir falando os nomes de animais em ordem alfabética (taí uma coisa que TODA criança gosta - bicho). O importante é que as atividades se alternem a cada dez minutos no máximo.

Mas né? Dar atenção aos filhos as vezes dá um trabaaaalho. Bom mesmo é largar o bundão na cadeira e deixar a molecada correndo e gritando ensandecida entre os outros passageiros. Porque afinal de contas, seus filhos não são problema seu - os outros que aguentem, já que você tem anos de treino para não se incomodar com a zona que eles fazem.

Eu fico besta de ver como certos pais resolvem simplesmente ignorar o fato de que seus filhos estão organizando uma mini gincana do Gugu em lugares públicos. Eles correm, berram, se batem, batem na mesa, mexem nas coisas dos outros, choram - e a mãe lá, fazendo que não é com ela. Um casal de amigos contou que no vôo Curitiba - Porto Alegre foram na frente de uma criança que tinha feito cocô - sim, eles sentiram o cheiro - e a mãe não trocou. Deve ter pensado "ah, é um vôo de uma hora, e daí que está fedendo? Se eu aguento todo mundo pode." Gente?

Daí que na sala de embarque havia famílias dos dois tipos. Em uma pai e mãe se revezavam distraindo a menina (que tinha uns cinco anos). Brincavam com i-pad, davam uma música para ela ouvir, de vez em quando levantavam para dar uma voltinha sem incomodar ninguém. Outras duas mulhers com três crianças faziam exatamente o contrário. Um menino de uns oito anos, e duas meninas pequenas, de três ou quatro. O menino mergulhava no chão, corria atrás das duas, puxava cabelo, brincava de se esconder atrás das cadeiras dos outros. As meninas gritavam com aquele pulmão que só quem convive com crianças dessa idade conhece. As mães? Nem tchum. Afinal, se não as estava incomodando, danem-se os outros. É assim que funciona.

Noção, não trabalhamos.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Personal hide button

E eu ultimamente ando fazendo muito uso do botãozinho "hide" do facebook, sabem? Começou a postar foto de micareta e letra do Chiclete, deu de fazer chat no status, contagem regressiva até pra tratamento de canal, resolveu postar em alemão, me marcou em milhares de fotos cagadas? - hide nocês. Limpa a página, alivia o stress e não prejudica ninguém.

Agora imaginem vocês se todo mundo contasse com um "personal hide button", que maravilha seria. Num clique você desliga o cidadão que está lá enchendo o saco e ele não percebe. A vida dele segue, ele continua incomodando os outros. A você? Não mais.

No more taxistas conversadores. No more bêbado galanteador na balada. Chega de colega de trabalho reclamona, de vizinha que grita no elevador, de criança chata comendo bem ao seu lado no shopping, de comentaristas de cinema. Off com esse povo todo, não seria lindo?

Meu sonho. Rola me dar um desses no Natal, Papai Noel?

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Eu não queria

Eu podia estar matando, eu podia estar roubando, mas estou só reclamando aqui no meu cafofo.

Hoje eu não queria, sabem?

Não queria sair na chuva.
Não queria substituir a professora que resolveu parir 15 dias antes do planejado.
Não queria sorrir e fazer a simpática para uma penca de alunos que eu não conheço.
Não queria olhar para a cara daquela aluna chatésima que me interrompe na hora do café para fazer perguntas do nível: "por que aqui é is e não are?"
Não queria almoçar um folhado de espinafre.
Não queria dar aula na salinha do financeiro cujo controle do ar condicionado está desaparecido e onde faz 14 graus o tempo todo.

Eu tenho o direito de não querer, né? Mas fiquei na vontade.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Descobertas

Aos onze anos eu descobri que era hora de começar a ter vergonha das minhas bonecas.


Aos quinze anos eu descobri que um coração partido dói muito mais que uma topada no dedão.

Aos quinze também descobri que um coração partido cura-se com sorvete e sapatos novos.

Aos dezesseis anos eu descobri que detestava Clarice Lispector e amava Lygia Fagundes Telles.

Aos dezoito anos eu descobri que uma das pessoas que eu mais amava no mundo podia me machucar completamente sem querer partindo em silêncio numa manhã de sábado.

Aos vinte e um descobri que cheques pré datados, um dia, caem.

Aos vinte e dois descobri que três minutos parecem três horas diante de um teste caseiro de gravidez.

Aos vinte e dois descobri também que havia chegado o dia em que menstruar não seria uma chateação, mas um alívio.

Aos vinte e três descobri que três horas parecem três minutos ao lado do cara certo.

Aos vinte e três também descobri o quanto o cara certo pode estar errado.

Aos vinte e cinco descobri que não tinha nascido para ter cabelos compridos.

Aos vinte e oito descobri que seria escrava da tintura castanho médio da L'Oreal para sempre.

Aos trinta descobri que o amor pode ser tranquilo.

Fiz trinta e dois sexta-feira passada, e descobri que ainda não sei passar protetor solar direito. Tá ardendo, tia!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Woody Allen me entende

Incorporei a crítica de cinema, dá licença?

Já falei por aqui do meu amor pelo Woody Allen, né? Pois voltei para reafirmá-lo depois de ter assistido Você vai conhecer o homem dos seus sonhos.
Eu amo Woody Allen por um motivo simples: ele coloca o dedo na ferida delicadamente. Ele sabe o que nos incomoda, o que nos machuca, e faz questão de nos lembrar disso o tempo todo. Ele narra as relações humanas de um jeito tão verdadeiro e tão universal que é impossível não se identificar com pelo menos meia dúzia de personagens dele. E ele faz isso com charme. Eu adoraria viver num filme dele, na Nova York ou, mais recentemente, na Londres que ele retrata.
Muita gente não entende. Sai do cinema ou desliga o DVD achando que não viu nada de especial ali, talvez porque esperasse de um diretor tão cultuado algo espetacular, e mr. Allen não faz nada de espetacular. Ele fala de pessoas que podiam ser nossos vizinhos, colegas de trabalho, irmãos. Todo mundo tem um personagem dele na família. E todo mundo, em algum momento, vai assistior a uma cena qualquer, de um filme qualquer e pensar: "uai, e não é que é isso mesmo?"
Em Igual a Tudo na Vida o personagem do Jason Biggs é mais um escritor frustado perdido em Nova York e preso a uma relação completamente neurótica com uma atrizinha pé-no-saco interpretada pela Christina Ricci. Ele pega um táxi e começa a filosofar sobre a vida, o universo, sobre porque as pessoas são assim e blábláblá e, do nada, o taxista diz: "É, meu filho, já viu... É igual a tudo na vida." É tão óbvio e faz tanto sentido que acaba sendo genial.
Você vai conhecer o homem dos seus sonhos fala de ilusão - o homem de meia idade que se casa com uma garota de programa e paga para que ela diga o que ele quer ouvir, a divorciada que crê piamente em tudo que uma vidente charlatona diz porque a vidente diz o que convém a ela (a divorciada), o escritor frustado que acha que ainda vai emplacar um sucesso editorial, a mulher do escritor, infeliz no casamento, que acredita que pode ter uma chance com o chefe rico e charmoso. Todo mundo já passou por isso. Todo mundo já se iludiu com um amor, uma carreira, uma amizade, um bem material que supostamente resolveria qualquer problema.
Ao mesmo tempo o filme conclui que, ilusão ou não, no fundo é tudo questão de ponto de vista - as chances são sempre 50%. O livro pode ser aceito ou não, o chefe pode se interessar por ela ou não, o filho que a garota de programa espera pode ser do homem de meia idade ou não. É meio a meio. O problema é quando esse meio a meio também vira ilusão. Quando ele deixa de existir e passa a haver apenas uma opção, e nós contiuamos fingindo que a outra possibilidade ainda está lá.
O filme deixa isso no ar. Não sabemos quais eram as chances reais de cada um. Saímos do cinema com aquela sensação de semi-derrota mas de certo conforto, do tipo "olha aí, o Woody Allen me entende..."

sábado, 4 de dezembro de 2010

Sobre cinema

Malzaê, mas tenho preguiça de filme nacional. Tenho preguiça de sotaque nordestino (e gente, eu amo sotaque nosdestino), tenho preguiça de favela, tenho preguiça de garota de programa, tenho preguiça do elenco da Globo achando que faz cinema, tenho preguiça do Wagner Moura, do Lázaro Ramos e do Selton Mello. Para os três últimos faço uma concessão a Saneamento Básico, um filme feito no Sul que ninguém viu e que eu acho divertidíssimo e O Cheiro do Ralo, que é o tipo de filme que eu gosto, que dá um soco no estômago sem dar lição de moral depois. O resto acho uma bosta. Sempre que eu assisto um filme brasileiro tenho a sensação de que o diretor queria mesmo é ter aparecido no final dizendo: "desculpaí, gente, foi o que deu pra fazer." E acho pior ainda quando comparo com as coisas que chegam até aqui feitas pelos nossos vizinhos cuja capital é Buenos Aires.

Não é por nada não, mas os argentinos sabem fazer as coisas. Ganharam o Oscar esse ano com um filme que está há anos-luz de qualquer filme nosso que já concorreu à estatueta, O Segredo dos seus Olhos. História bem contada, bem executada (quem assistiu me explique o que foi aquela cena do estádio), atuações de cair o cu da bunda. Filme. De verdade. Na minha lista de top 10 tenho esse e Nove Rainhas muito bem colocados.

E hoje eu assisti Abutres. E de novo saí embasbacada do cinema. Mais uma vez os hermanos foram lá e jogaram na nossa cara que sabem fazer um thriller que nós aqui ainda vamos ter que comer muito feijão para conseguir chegar perto.

E o Ricardo Darín, ao contrário do Antônio Fagundes, está ficando velho mas ainda dá um caldo.

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Esquadrão da moda

Os fofuxos estão aprendendo os nomes das roupas em inglês. Uma das atividades do livro era ler um textinho e colorir as peças de uma menina de acordo com as instruções. Fofuxa me chama:

"Teeeacher, foi você que fez esse exercício?" (Não sei porque eles SEMPRE acham que fui eu quem escreveu o livro didático).

"Não fui eu não, Malu, foi a fulana de tal, aí na contracapa."

"Aaah, tá, então eu posso falar."

"Falar o que?"

"Poxa, teacher, que falta de gosto, né? Mandar pintar o vestido de rosa e o sapato de verde? Nem combina!"

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

I said no, no, no...

Motivos pelos quai eu não vou ao show da Amy Winehouse:

- A meia entrada para a pista já esgotou. (Oi, professora fodida?)
- Vai ter pista e pista VIP. E pista VIP pra mim é o apartheid do entretenimento, é jogar na cara dos outros que, olha, vocês são pobres, feios e maloqueiros e por isso merecem ficar lá atrás enxergando o cabeção dos ricos que pagaram 500 reais.
- Por mais que eu goste da Amy admito que há uma chance considerável do show: a) não acontecer por falta de condições da atração principal; b) durar três músicas e ser encerrado por falta de condições da atração principal ou c) durar duas horas e ser uma bosta por falta de condições da atração principal.

É Amy, fica pra próxima.

sexta-feira, 26 de novembro de 2010

Seleção musical motivada pela saudade

Eu me faço de durona e tals, mas morro de saudade da minha irmã, que se mudou para Brasília. Porque ela é definitivamente a pessoa com a qual eu mais tenho histórias para contar. E hoje me bateu uma tristezinha de estar longe (tá, não é do outro lado do mundo, mas também não é assim de "deu vontade corre para lá") que me fez ficar ouvindo músicas que me lembram ela:


Porque é o nome dela, né? Hehe. E porque a música é ótima e a letra do Caetano é uma graça mesmo, fofa.


Porque houve uma época que a gente ouviu muito essa música juntas. Engraçado que a última vez que ouvi foi no rádio, na minha primeira visita a Brasília. E ela nem estava junto, estava no outro carro.


Porque ela diz que quando tiver uma filha vai chamá-la de Cecília por causa dessa música (que eu vi o Chico cantando ao vivo e ela não).


Porque ela tomou chuva e passou o maior frio de todos os tempos no show do Kiss e eu não.


Porque essa é a minha irmã, né? Ela ama Kiss E Ney Matogrosso.

Historinhas dos fofuxos

Eu conto essas coisas e o povo não acredita. Passei as datas das provas finais na lousa e pedi para os pequenos anotarem. Logo aquela mais lerdinha de todas, a que em novembro ainda confunde os livros e traz os do semestre passado para a aula, aquela que se ficar tomando conta de uma tartaruga perde a bichinha, aquela mesmo, está lá, me olhando com cara de pastel.

"Vitória, copie as datas para não esquecer..."

"Estou sem caderno, tia...."

"Copia na capa do livro."

E eis que segundos depois vejo Vitória tentando a todo custo fazer a caneta pegar na capa, capa mesmo, de papel brilhante do livro.

Culpa minha, né? Não falei capa? Então.

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Paixão, lágrimas e sangue no quinto ano

A paz entre meu elenco do teatrinho do colégio encontra-se seriamente ameaçada. Ontem durante os ensaios, Paul McCartney cochichou algo no ouvido da apresentadora 1. Esta imediatamente soltou um gritinho típico de menina de dez anos e disse: "Eu tenho que contar isso para a sala inteira! Eu tenho! Eu tenho! Posso?"

Meu Paul McCartney, apesar da pouca idade, já é absurdamente cool. Ele sabe tudo de Rolling Stones (pois é, ironias da vida) e deve ser o único garoto de dez anos no mundo a ter um boné autografado pelo Michael Richards (mais conhecido como Cosmo Kramer, do Seinfeld). Diante do pseudo ataque histérico da colega ele deu os ombros como quem diz "tô nem aí" e continuou decorando seu texto. Apresentadora 1 ficou lá, se coçando inteira: "Teeeeeeeacher, posso ir lá no ensaio do quinto ano?"

Não deixei. Apresentadora 1 anda lutava para pronunciar Paul McCartney corretamente, portanto havia muito trabalho a ser feito. Pouco tempo depois apresentador 2 (que faz dupla jornada e está atuando no Rei Leão também) voltou para minha sala. Apresentadora 1 não se conteve:

"Peeeeeeeeeeedro, o Felipe está namorando a sua musa!"

Silêncio. John Lennon e Ringo Starr se entreolham apreensivos. Old Fred, que só tem seis anos, parecia mais preocupado em dar um nó nos cadarços de George Harrison, que estava distraído com suas falas. Senti uma tensão no ar. Apresentador 2, entretanto, não disse nada. Dirigiu-se até sua marcação no palco e questionou apresentadora 1: "E aí, já consegui falar Paul McCartney direito ou vamos ter que trocar as falas?"

Por ontem foi só, mas não sei não. Sinto que vai rolar sangue nos bastidores de "Yellow Submarine".

sábado, 20 de novembro de 2010

O teatrinho

Ao contrário das festas juninas, nas quais ou eu era obrigada a ser o menino por ser a mais alta da turma ou tinha que usar uma meia calça branca que pinicava horrores, eu tenho boas lembranças dos teatrinhos de final de ano na escola. Quer dizer, mais ou menos.

Em um deles eu e meu primo (que estudava na mesma sala que eu) fomos os ursos. A roupa até que era engraçadinha, mas minha mãe, já sem noção, usou guache para pintar nossos focinhos. Resultado: impossibilidade total de sorrir ou comer para evitar rachaduras na tinta. Fora a coceira depois. Mas teve um que eu gostei. Neste eu era, obviamente, a personagem principal.


Vejam  a alegria estampada no rosto da criança...

A história era alguma coisa sobre brinquedos que criavam vida na véspera do Natal, e eu era a garotinha presa com o irmão dentro da loja. Lembro perfeitamente do vestidinho vermelho e de como todo mundo ria a cada fala minha (talvez porque eu estivesse banguela e falando tudo errado, mas enfim - na hora me senti A comediante).


O teatrinho do colégio este ano está começando a ser ensaiado - meus pequenos serão os Beatles numa releitura de "Yellow Submarine", coisa mais fofa. O problema é achar papel para tanto aluno - a turma que vai fazer o Rei Leão já conta com rinocerontes, tigres (oi, na África?) e uns 10 macacos. E para explicar para o gordinho que ele foi escalado para ser o hipopótamo? E para convencer as menininhas que NÃO serão a pequena sereia de que todos os papéis são importantes, até o do siri? Vai muita saliva e muito bullying.

Eu fico com pena dos pequenininhos. O bom é que aos seis anos os dramas passam com uma rapidez impressionante. Ontem mesmo uma chorava copiosamente porque a outra não queria ser mais sua amiguinha. Mandei a amiga lá e disse: "resolvam isso, vocês duas". Em dois minutos já se amavam outra vez. Com isso, o hipopótamo já anda por ali todo orgulhoso do seu papel - e ai de que tirar sarro.

E teve o Rei Leão. O escolhido foi o mesmo pequeno incansável que decorou o texto primorosamente e não parou de falar um segundo durante a feira de ciências. Ao ser questionado sobre seu papel, respondeu:

"Eu sou o Rei Leão!"

"O Simba?"

"Não, o Rei Leão!"

"O Mufasa?"

"O Rei Leão, tia!"

E foi embora. Porque ser o Rei Leão é muito mais legal que ser o Simba ou o Mufasa.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Eu e a TIM - parte 1.000

Minha relação com a TIM é a aquela famosa de mulher de malandro. Ela me maltrata, me irrita, me arranca os cabelos mas eu não a abandono por que ela tem o plano Infinity.

Ter adquirido um aparelho LG cookie cerca de seis meses atrás provou-se um grande equívoco. Celular mequetrefe, touch screen vagabunda e pouquíssima resistência às mãos de manteiga de sua proprietária, o bichinho há um mês já circulava com uma imensa rachadura preta no meio da tela, fruto de sua milésima queda. Entretanto, como recém proprietária de um apartamento e portanto cheia de dívidas, incorporei o Tio Patinhas e resolvi que manteria aquela belezura enquanto ele estivesse fazendo e recebendo ligações (o que, levando em consideração a qualidade do aparelho, não deveria durar muito tempo).

Mas a TIM, essa safada, resolveu mais uma vez me seduzir. Passou a dar um descontão em um outro plano mais vantajoso pra mim E num aparelho novo. E lá fui eu ser maltratada mais uma vez.

Para começar a vendedora não quis fazer a transação porque eu estava sem minha identidade e minha carteira de motorista estava vencida. Argumentei que já era cliente e que não pretendia dirigir o celular por aí, mas não houve negociação. Voltei pra casa, não encontrei a identidade e retornei à loja no dia seguinte em um horário diferente. Fui atendida por um mocinho mais solícito que nem pediu para ver meu documento, só o número do CPF. Ele me avisou que não poderia migrar meu plano na loja com desconto e me orientou a fazê-lo por telefone. Ok.

Em casa, telefono para minha amante malvada. Explico o caso e o atendente, se fazendo de surpreso, me diz que não pode migrar um plano com desconto por telefone e que eu deveria voltar à loja para fazer isso. Telefono para a loja. O número impresso no cartão está errado. Coisa de profissional, né? Imprimiram milhares de cartões com o número errado mas quem se importa? Eu sou a mulher de malandro. Eu devo mover céus e terras para falar com eles. De repente tenho a idéia brilhante de repetir o procedimento adotado para a compra do aparelho - telefono de novo para falar com outro atendente. A moça só confirma meu CPF e realiza a transação.

Porque com a TIM é assim - não basta maltratar. Tem que confundir, irritar, humilhar e rir da nossa cara. Treinar pessoal é coisa para empresinhas de merda.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Pérola da semana

Eu sei que eu deveria ser um espírito superior e compreender a situação desse pessoal que trabalha muito, ganha mal mas tem a vontade de estudar e acaba sendo enganado pelas Unimerdas da vida, mas né? Um povo que produziu Geisy Arruda não merece compreensão.

Daí aquela aluna do Burger King outra vez engata um assunto completamente nada a ver no meio da aula. Tento desviar mas ela se enche de orgulho e diz: "Eu entendo disso. Eu estudo Letras na Unibosta." E desanda a explicar com ares de pós-doutoranda em Linguística que o certo é pronunciar "Êxtra" então todos os habitantes da cidade de São Paulo são burros porque chamam a rede de supermercados de "Éxtra". Porque, segundo ela, dizer "Éxtra" é um erro GRAMATICAL.

Olha, eu não ganho pra isso não, viu?

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Novembrite

Só para ilustrar minha falta de ânimo nos últimos dias, vou dar uma "preguiçada" daquelas e ressuscitar um post do blog antigo, bem propício para a ocasião:

"A novembrite é uma doença de causas ainda desconhecidas que ataca principalmente crianças e adolescentes em idade escolar. Uma vez que professores também têm apresentado sintomas semelhantes, os pesquisadores investigam se a doença não seria transmitida por vias respiratórias, portanto facilmente propagável em ambientes cheios e fechados como salas de aula. Recebeu este nome devido à sua incidência nos últimos meses o calendário escolar, sendo notada já a partir da segunda metade de outubro e se espalhando rapidamente, a ponto de deixar poucos ilesos após o feriado de 15 de novembro.


Os sintomas da novembrite variam de acordo com a idade dos afetados. Em crianças e adolescentes ela caracteriza-se por falta de concentração, sono incontrolável, desleixo material e pessoal - falta de livros, lápis e as vezes banhos. Verifica-se também um aumento sensível na frequência de palavrões e brigas em sala de aula, fato que colabora para o agravamento dos sintomas observados em adultos. Estes são: apatia, tremedeira, irritação constante, queda de cabelo, falta de apetite e de voz.

Embora pesquisas venham sendo feitas nesse sentido, ainda não há cura para a novembrite. Felizmente não há registros de mortes causadas pela doença (o caso do professor atingido por uma cadeira durante uma explicação sobre as leis de Newton ainda está sob investigação). Além disso, a novembrite é claramente sazonal e parece desaparecer assim que são concluídas as últimas recuperações, o que costuma acontecer antes da metade de dezembro.

Aparentemente a única maneira de evitar a novembrite é manter distância de escolas, matinês, shopping centers ou qualquer outro lugar onde se aglomerem adolescentes. Caso isso não seja possível, recomenda-se para os adultos o consumo de antidepressivos ou álcool em quantidade moderada para fins de relaxamento. Quanto aos alunos, ainda não foram encontrados tratamentos mais eficientes que um bom puxão de orelha e um mês sem o playstation."

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Colega professora do ensino médio contou:

Foi repreender a bonitinha pela enésima vez porque esta estava se maquiando na sala:

"Já está bom de rímel, né, fulaninha?"

A amiga intervém:

"Pois é professora, fala mesmo, porque é a sétima vez que ela passa rímel."

Ao que bonitinha retruca, orgulhosa:

"É que são sete rímeis diferentes, sôra!"


Sério, eu que uso maquiagem há uns 15 anos a mais que ela nem sabia que existiam SETE tipos de rímel.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Genialidade

Vi esse comercial esses dias e não pude deixar de lembrar de um post da coleguinha Red:



 Então é assim - a criança acorda no meio da noite e a mãe dá CAFÉ pra ela? Quem foi o gênio que criou isso?

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Feira de ciências parte II

Sábado teve feira de ciências no colégio. O cronograma listado no último post foi seguido à risca, mas como sempre no final ficou tudo lindamente tosco, os pais gostaram, as crianças se sentiram importantes e todo mundo ficou feliz.

Fui escalada para ajudar na exposição do primeiro ano - lá estavam eles, cinco, seis anos, passando pela primeira feira de ciências. Alguns animadíssimos, texto a ponta da língua, puxando os passantes para mostrar o quanto o trabalho deles era legal. Não tinha com não se desmanchar em "ooouuunnns" diante daquelas coisiquinhas de jaleco recitando, decoradinho: "BEEEM VIIIIN-DO A NOS-SA FEI-RA DE CI-ÊN-CIAS. O NOS-SO TRA-BA-LHO É SO-BRE AS PLAN-TAS. AS PLAN-TAS SÃO SE-RES VI-VOS? QUAL A SU-A O-PI-NI-ÃO?" Um deles não arredou o pé do posto um minuto. Tampouco parou de falar - quatro horas non stop. A mãe bem que tentou tirá-lo dali para comer um pão de queijo, mas que nada - Gabrielzinho seguia firme e decidido a não abandonar seu tão querido aquério nem por um segundo.

Claro que nem todos demostravam a vontade resoluta do Gabriel. Não tão empolgados, bravos porque metade da turma já tinha saído correndo, cansados, com fome, acabavam desistindo e indo brincar de Ben 10, que é muito mais interessante que ficar recitando a mesma coisa pela décima vez. Vira e mexe havia um no cantinho, sorumbático, perguntando da mãe. Quatro horas fazendo a mesma coisa nem eu aguento, imaginem os pequenos.

A cada quinze minutos eu ficava encarregada de pegar quatro ou cinco pela mão e leva-los ao banheiro, ao bebedouro, à cantina. E assim, sozinhos ou em número reduzido, é que a gente lembra do quanto eles são queridos e fofuxos. Porque 35 juntos de uma vez fica difícil.

quinta-feira, 14 de outubro de 2010

Então é assim: estou com aquela gripinha mal curada maledeta que me faz consumir muito mais aerolin que o normal e fungar como uma criança de seis anos, mas não me deixa mal o suficiente para não trabalhar.

Amanhã é dia dos professores e estarei de folga (tem dia do motorista de ônibus? Imaginem se eles ganham um dia off, como fica?) e passarei no médico porque duas semanas de gripinha marota já estão de bom tamanho. E ele vai me receitar a coisa mais linda do mundo, Alegra, que desentope o nariz e não dá sono nenhum e quem sabe uma inalaçãozinha de leve, eu e o monte de crinaças também de folga. E se bobear ele vai me receitar uma amoxilina que eu não vou começar a tomar porque tem churrasco no domingo e se eu não estou suficientemente mal para não trabalhar também não estarei para não tomar cerveja.

E eu não aguento mais ficar doente. Fim.

domingo, 10 de outubro de 2010

I see dead people on twitter

Ontem Queridão foi para Ilhabela aprender a velejar (porque meu hómi é muito fino, certo?) e eu passei a tarde comendo, tomando café e falando até o maxilar doer com a Bruna. E no meio do café, sentadas sobre os pufes da Livraria Cultura lotada eu tentava convencê-la a entrar para o Twitter. De repente a conversa tomou o rumo de celebridades mortas que teriam twitter e chegamos às seguintes conclusões:

Raul Seixas: Teria. Era um cara moderno no tempo dele, e tudo. Mas estaria gagá e tuitando um monte de merda, tipo a Rita Lee.

Kurt Cobain: Não teria. Estaria recluso e descrente da humanidade para se preocupar em se comunicar com o mundo exterior.

Jim Morisson: Não teria. Mesmo porque a gente nem conseguiu vislumbrar a possibilidade do Jim Morisson ter sobrevivido até hoje, mas enfim, se por um milagre tivesse não teria se adaptado a esse tipo de "modernidade".

John Lennon: Teria. E estaria tuitando mensagens ecológicas, sustentáveis, de paz e amor. Sério candidato a twitter mais chato de 2009.

Paramos nesses aí, mas eu gostei da brincadeira. Depois penso em outros.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

"Poprietária"

Dez e meia da noite, um stand de imobiliária lotado, recepcionistas no microfone berrando o tempo todo, corretores com cara de quem dormiu lá e não vai para casa tão cedo, queridão há onze horas sentado no mesmo lugar. O ambiente vai alcançando contornos de vôo classe econômica para a Europa, nove horas de viagem e o povo todo amassado, incomodado, baforento, banheiro quase impraticável. Comprar um apartamento pode se assemelhar a uma prova de resistência do Big Brother.

Na minha frente há blocos de cerca de 50 folhas cada um. E eu terei que vistar todas. Não jantei, não fui ao banheiro e me dá vontade de perguntar ao corretor, olha, você está vendendo apartamentos feito água aqui, não dava para parar de comprar terno na Colombo? Eu sou assim, me distraio com o terno ruim do cidadão, com o batom cafona da moça ao lado, com a família enorme na mesa da frente, oi, o apartamento tem 45 metros quadrados, vocês vão morar todos nele? Quando assino a última folha ganho um anúncio no alto-falante e uma salva de palmas. Estou tão feliz que não tenho vontade de morrer de vergonha, nem própria nem alheia.

É oficial - daqui a dois anos residirei no apartamento 85 do Edifício Arvoredo. É pequeno? É. Vou pagar pra sempre? Vou. Mas olha, comprei sozinha. Meu. E por mais classe média que seja, é bom saber que em 2012 (mundo, não acaba não, quero decorar meu cafofo) vou brincar de "The Sims" de verdade, arrumar do meu jeito, poder derrubar paredes, trocar piso, fazer buracos, enfim.

Dá licença que agora eu sou "poprietária".

sábado, 2 de outubro de 2010

Meus geniozinhos

Eu sou professora de Inglês, mas trabalho com um material que propõe a interdisciplinaridade e tal. Com isso de vez em quando viro professora de Arte, Geografia, Biologia e etc.

A molecada da quarta série ia ler um texto (em Inglês) sobre fósseis. Para prepara-los para o texto, ativar conhecimento prévio, prover vocabulário, essas coisas de Inglês instrumental, pedi na aula anterior uma pesquisa curtinha sobre o primeiro fóssil de dinossauro registrado. Segue diálogo:

Aluno (lendo seu parágrafo): O primeiro fóssil de dinossauro foi um dente encontrado no dia tal, no lugar tal, por Mick Jagger.

Eu: Por quem, Mateus?

Mateus: Mick Jagger.

Respira fundo: Ok, quarta série, nós já conversamos sobre isso. Yahoo respostas NÃO é um site de pesquisas!

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Voltei

Deve ser resquício de adolescência problemática (oi, pleonasmo?), auto-estima padrão Nelson Ned, etc., mas eu desenvolvi essa necessidade de agradar, essa dificuldade absurda de dizer não e de magoar os outros. Mas aí eu percebo que estava preocupada em passar uma boa impressão à pessoa do post anterior e em seguida descubro que ela é na verdade uma grandessíssima FDP. E passo a não me importar mesmo em ser considerada um cu.


Eu tento ser uma pessoa melhor, mas tem gente que não é gente mesmo. Ai, desabafei.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

A duas mulheres sábias

Minha mãe costuma dizer que a pior invenção da humanidade foi o "me desculpe." Porque depois do "me desculpe" todo mundo passou a se achar no direito de fazer a merda que for que estas duas palavrinhas vão resolver tudo.

Hoje eu tive que pedir desculpas. E foi pior que o normal, porque foi para alguém que eu mal conheço. Mas eu fui grosseira com essa pessoa e ela, com todo direito, se ofendeu. E por conta destas picuinhas corporativas eu hoje tive que dizer "eu fui grossa, me desculpe, não vai acontecer outra vez."

Na verdade, mesmo que eu não me importe com essa pessoa, é péssimo ser julgada por um dia ruim. Eu apenas pedi desculpas, mas minha vontade era dizer: "Olha, eu não sou essa pessoa horrível que pareci naquele dia. Eu sou agradável. Eu tive um minuto de mau humor e não acho justo que de hoje em diante você me julgue exclusivamente por isso."

Mas eu não disse nada. E terei que aceitar como verdade o que uma professora de análise do discurso nos disse, no meio de uma aula, certa vez:

"Você é o que os outros acham que você é."

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

M. e as baratas

Durante cerca de três anos eu dividi meu aluguel com uma veterinária que chamaremos aqui de M. Veterinários, como vocês devem imaginar, são profissionais acostumados a lidar com situações que para nós, pobres mortais, se assemelhariam a uma prova do "No Limite". Certa vez M. me narrou, com um sorriso no rosto, as horas que passou exterminando colônias de larvas de mosca alojadas no canal auditivo de um pastor alemão.

Embora fosse uma moça muito destemida, M. tinha seu calcanhar de Aquiles no mundo animal - as baratas. Não tratava-se de medo ou nojo. A relação dela com as cascudinhas de seis patas só pode ser explicada através dos episódios que narrarei a seguir, dos quais fui testemunha.

Certa noite, M. tomava banho enquanto eu e o namorado dela assistíamos TV na sala. De repente ouvimos um grito que só podia vir das profundezas de uma alma atormentada e, meio segundo depois, M. apareceu enrolada na toalha, com uma expressão no rosto de quem tinha visto o próprio capiroto.

"Tem uma barata no meu quarto..." Balbuciou, sem forças.

Eu, que nunca me incomodei com as periplanetas (a menos que ataquem em bando, claro), me juntei ao namorado dela na missão de mandar a coisinha-ruim para o quinto dos infernos. Munidos de chinelo e Baygon vasculhamos o quarto de cima a baixo e nem sinal do bicho. Como morávamos num sobrado, calculei que ela tinha escapado pela janela aberta.

"Eu não entro lá enquanto não pegarem o demônio!" Decidiu M. E não entrou. Dormiu na sala por quatro dias. Foi preciso que o namorado, decidido a dar um fim naquela situação, matasse uma barata genérica e a apresentasse como vinda do quarto para que ela concordasse em pisar lá outra vez, não sem antes fazer uma faxina digna de epidemia de peste negra. 

Em outra ocasião cheguei em casa por volta das 9 da noite e encontrei M. sentada na soleira da porta da frente. Cabe aqui explicar que morávamos num sobrado daqueles com garagem no térreo e porta lateral que dá numa escada conduzindo à sala no primeiro andar.

"Esqueceu a chave, M.?"

"Não... É que tem uma barata no topo da escada..."

Basicamente minha roommate estava na calçada desde as 6 da tarde, incapaz de entrar por causa do mini-monstro.  O namorado estava fora da cidade e os transeuntes abordados se recusaram a subir achando que era pegadinha, que um sujeito vestido de gorila os estaria esperando lá em cima, sei lá.

Entrei, matei a barata na sapatada, joguei o corpo no lixo e passei um paninho no chão. Daquele dia em diante M. nunca mais entrou em casa com a mesma confiança de sempre.

Eu me pergunto até hoje como é que ela se virou depois que eu fui embora.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

As mulheres-escorpião e a festa da GV

Olha só, vou contar uma coisa da qual não me orgulho mas, né, minha vida anda chata e corrida então resolvi desenterrar uma história que já estava quase decomposta.


Lá pelos idos de 2000 eu ainda estava na faculdade. Estava solteira, descobrindo as alegrias do álcool e rodeada por outras amigas solteiras tão sem noção quanto eu. Naquela época nós, de brincadeira, desenvolvemos o nunca publicado "Manual do Escorpião" (Porque tinha esse nome é uma história comprida e fica para outro post), que era basicamente um manual pós adolescente de "como se dar bem na balada"; "pegar geral", "arrasar corações" e, se possível descolar uma carona para casa. Sim, nós éramos completamente retardadas. Sim, eu tenho vergonha disso, mas quem não tem vergonha do passado que atire a primeira calça baggy. Devo dizer que só me lembrei do tal livrinho porque uma das envolvidas me ligou recentemente:
"Acabei de ver aqui na livraria o livro tal (não lembro o nome, mas era algo como "Manual da mulher poderosa", sei lá). A gente podia ter ficado rica com o Manual do Escorpião."

Poderíamos. Mas não ficamos. E embora os arquivos ainda existam, eu tenho 31 anos e não sou mais aquela demente de dez anos atrás, portanto não faria o menor sentido tentar publicar isso agora. Mas vou contar aqui a história do dia em que as mulheres-escorpião falharam.

O ano era o pré-histórico 2000. Em 2000 internet banda larga ainda era luxo, os Backstreet boys faziam sucesso e quem tinha um Audi A3 ainda era playboy e não mano. Em 2000 eu morava em república, trabalhava feito escrava e ganhava uma merreca. Eu era uma fodida, enfim. Minhas amigas idem. Mas falta de dinheiro nunca nos impediu de exercermos nosso dever de mulher-escorpião, que era nunca ficar em casa num sábado a noite.

Era um sábado de festa da GV - open bar, gatcheeenhos, música ruim - tudo que nós queríamos. Compramos os convites (caríssimos para o padrão estudante-sustentado-pelo-pai da época) para uma festa que sabe-se lá onde era. A única informação que tínhamos era que ficava em algum lugar na Marginal Pinheiros. Considerando que nos encontrávamos próximas à Marginal Tietê, era longe. Muito longe.

A carona do irmão de uma das envolvidas falhou. Teríamos que apelar para um táxi. Repito: estudantes fodidas. Táxi era o luxo do luxo, ainda mais para uma distância daquelas. Nada que nos desanimasse. Nos vestimos, nos maquiamos, nos perfumamos e descemos até o ponto de táxi em frente ao prédio munidas de nossa cara mais pidona. Convencemos o motorista a nos levar até a PQP por 25 reais. Quando nos demos conta da distância quase nos deu pena, mas né? Ele topou.

O combinado era encontrar uma carona para voltar. Achar um conhecido, descolar um ficantezinho para a festa inteira, sei lá. Eu sei, eu sei. Nós fazíamos isso. Passou, gente, eu juro que hoje sou outra pessoa.

Mas aí a festa começou, a vodca rolou, a noção foi embora e, quando nos demos conta, as luzes estavam se acendendo e as três mosqueteiras estavam ali, sozinhas, no meio da pista. Nem um conhecido, nem um namoradinho, nada. Ninguém para nos levar pra casa. Nem dinheiro para o táxi da volta. E agora Bial?

Agora era hora de pegar trem, minha gente. Não estávamos na Marginal Pinheiros? Então. Seis horas da manhã de domingo e as bonecas de salto e maquiagem cagada encarando uma composição da CPTM. Foi lindo ouvir os malacos dizendo: "Mulher bonita pula e grita" enquanto tentávamos nos esconder num canto qualquer.

O desastre terminou com um pastel no sacolão da esquina e as bonitas pulando janela porque a anta aqui fez o favor de perder a chave de casa na festa. Glamour zero. Ainda bem que a gente amadurece.

Oi, saudade dos tempos da faculdade? Tenho não.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

A capital federal

Se a gente for parar para pensar, a idéia toda de Brasília é uma loucura. Coisa de nêgo megalomaníaco mesmo. Ir lá pros cafundós do Brasil, no meio do nada, só pó, e erguer uma cidade daquele naipe, só com uma mania de grandeza daquelas que nem Freud daria jeito.
Pois seu JK fez. E cinquenta anos depois minha irmã resolveu se instalar naquela terra atrás do marido funcionário do banco do Brasil. Porque lá, se não é funcionário público, está tentando ser. E a cidade é bonita, né? Diferente das que a gente está acostumado, diferente do aperto de São Paulo, com nossas ruas estreitas comportando duzentas faixas para carros. Porque na capital federal, onde paulistano enfia cinco faixas eles colocam três. E roda-se que é uma beleza.
Há claro, a secura, a terra vermelha que entra nos pulmões, nos olhos, nos cabelos, há fixação que aquele pessoal tem com carros amarelos - nunca vi tantos num lugar só. Mas no geral gostei bastante. Fiz os programinhas de turista, congresso, catedral, palácio da Alvorada. A simetria, a perfeição, tudo tão ajeitadinho, impressionaram essa paulistana acostumada com a bagunça e a sujeira dessa metrópole.

Mas Brasília para mim é na verdade agora um cenário de novela mexicana. Desde que a minha irmã se mudou, em Junho, ela e minha mãe se comportam como se ela tivesse ido para a Finlândia,e não para um lugar a uma hora e meia de avião daqui. Ela chora quando eu chego, chora quando eu vou embora, chora se eu não telefono dzendo que cheguei bem. Minha mãe chora porque não está lá com as duas juntas, chora quando não está aqui, chora quando fica muito tempo lá longe daqui. E eu, que não choro, sou o monstro sem sentimentos.

Brasília, eu sei que você não tem nada a ver com isso, mas desse jeito vai ficar difícil gostar de verdade de você, viu?

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Cada um com seus pobrema

Porque tem dias que parece que o négocio é com você. Que o mundo inteiro se juntou e resolveu tornar sua vida um inferno.

Eu contei, achando até engraçado, que não passei na avaliação física da academia, né? Que por conta da minha asma precisaria passar por um médico de verdade para que ele atestasse que eu não vou morrer na esteira qualquer dia desses. Então.

Meu plano de saúde (que nomearei aqui com todas as letras para que os senhores corram dele - chama-se DIX A-MI-CO) comprou uma outra rede (ME-DI-AL) recentemente. Com isso dobrou o número de clientes e reduziu o número de médicos fechando diversas clínicas. Coisa de gênio. Daí que para marcar uma consulta na rede de hospitais próprios um pobre cidadão estava levando cerca de dez minutos ouvindo musiquinha de espera. Eu disse D-E-Z. Enfim. No dia em que me dispus a ficar ouvindo a tal musiquina ad eternum fui informada que, dos dois hospitais mais próximos de minha residência um não atendia mais clínica geral e o outro só tinha horário para dali a um mês. Oi, estava sendo atendida pelo SUS e não me contaram? Acabei marcando uma consulta no hospital da Vila Mariana, que ainda não sendo do outro lado da cidade já implicava em um certo transtorno, mas tudo bem. Achei que daria um sorrisinho para o clínico e ele assinaria um atestado me liberando para a academia.

Sonho meu. Parece que o doutor (que falava com um sotaque nordestino daqueles ininteligíveis) também ficou com medo de eu ter um treco portando um atestado assinado por ele e me encaminhou para um Pneumologista e um Cardiologista. Segue o drama.

Telefono para a central de marcação. Sete minutos de musiquinha. Cardiologista? Opa, tem sim, miraculosamente num hospital perto de casa, numa data próxima e num horário acessível. Fico até animada. Pneumo? Nesse hospital não tem não. Visando minimizar transtorno, pergunto se há Pneumo e Cardio no mesmo hospital em alguma unidade. Não senhora. Coisa de gênio outra vez, já que são duas especialidades que não estão nem um pouco relacionadas - é como ter Ginecologista em um lugar e Obstetra no outro.. Mas né, eu estava tão feliz por ter conseguido um Cardio com tanta facilidade que decidi não me irritar.

Pneumo perto de casa? Só daqui a um mês. E longe de casa? Só a tarde, de terça, quinta e sexta. Lembrando que chegar a essa conclusão levou cerca de vinte minutos entre idas e vindas da atendente ao computador.

Eu sou uma pessoa que trabalha sabem? Eu tenho alunos e faltar para ir ao médico é algo que causa um grande transtorno já que uma aula em grupo não pode simplesmente ser cancelada e substituição não é algo que tira-se do bolso. Faltar só se eu estiver morrendo, e ainda não estou. Só de raiva. Decido tentar a rede credenciada, que é pouca e quase sempre longe. Descubro um hospital pneumológico credenciado no meu bairro, coisa mais linda. Pergunta se atendem o telefone?

Basicamente é isso - ainda não consegui atendimento, que dirá marcar consulta. DIX AMICO, fica a dica: estatiza essa merda e bota uma placa do SUS, porque o nível está o mesmo.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Só uma rapidinha

"Tchíííítcher, o que é bio... biode... biode...gra...dá...vel?"

"É uma coisa que desaparece na natureza sozinha, Bruno."

"Que nem as torres gêmeas?"

Tá, minha explicação nem tinha sido muito boa mesmo.

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Sexta a noite

Primeiro há todo o drama da massa - Está muito rala? Muito grossa? Quanto mais de farinha até o ponto desejado? Qual é é o ponto desejado?
Então você decide colocar mais farinha, e, para seu horror, a coisa dentro do liquidificador começa a parecer uma argamassa. Recomeça todo o processo - água, sal, tempero, bate mais um pouco. Após minutos de considerações que envolvem a temperatura ambiente, a pressão atmosférica e até a expressão da Palmirinha quando fez esta receita na TV, decide que aquilo é como uma massa de panqueca deve se parecer. Reza uma ave-maria, coloca a frigideira no fogo e prossegue.

Calma, ainda não. Primerio você precisa saber qual é a quantidade de óleo a ser despejada no recipiente. Muito transformará sua obra culinária num disco de borracha engordurado. Pouco fará com que a massa grude na panela de forma trágica e indelével. Mais uma vez aquele bom senso que você nem sabia que tinha entrará em ação, não antes de minutos de seríssimas elocubrações. E a temperatura? Será a ideal? Qual a quantidade de massa a ser utilizada para cada panqueca? São tantas decisões que você, por um momento, questiona a idéia imbecil de cozinhar aquilo ao invés de esquentar uma lasanha Sadia. Mas segue em frente, resoluto - jantará panquecas naquela noite nem que isso lhe custe lágrimas.

Ao despejar a primeira leva de massa você entende porque fez isso. A sensação de uma panqueca que dá certo é indescritível. Você é tomado por uma súbita alegria ao perceber que a massa fininha miraculosamente se desgruda da frigideira e consegue ser virada sem dificuldade, exibindo-se bela e douradinha. Sim, sua panqueca é uma realidade.

A segunda panqueca sai um pouco mais grossa que o planejado - há um cheiro de frustração no ar. Mas você, que bravamente chegara até lá, não vai desistir diante da primeira dificuldade. Assim faz a terceira e a quarta.

A quarta panqueca. Eis que ela surge para colocar sua vontade à prova grudando na frigideira. Sim, você esqueceu de colocar a segunda leva de óleo. Coragem! Não se deixe abater - há um liquidificador inteiro de massa crua esperando para se transformar em discos macios e tostados.

Sim, um liquidificador inteiro. Depois da décima panqueca você não aguenta mais ficar em pé, as pernas doem, a massa parece infinita. Você está desesperado para desgrudar a barriga do fogão e tomar uma cerveja, mas não pode. Tem uma missão. E ela será levada até o final.

Quando a massa por fim acaba você já perdeu a fome. Está cansado e quer dormir, mas ainda tem que rechear cada círculo, enrolá-lo, cobrir com molho de tomate e levar para gratinar. Você acha que não vai conseguir. Reunindo suas últimas forças você termina o trabalho, coloca a mesa e espera seu convidado.

"Ficou ótima, namorada".

Parece só uma panqueca. Mas é uma montanha-russa de emoções.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Srta. Língua Gigante ataca novamente

A amiga Bruna, que me conhece há mais de uma década (oi, velhice chegando), já foi testemunha da minha capacidade de me auto-constranger falando mais do que deveria. O problema é que padeço de uma condição até comum entre a população chamada "língua mais rápida que o cérebro." Eu poderia passar o feriado listando as vezes em que essa patologia me colocou em situações no mínimo embaraçosas, mas como tenho amor próprio bem como vergonha na cara, não o farei - me restringirei a narrar o último episódio no qual este problema se manifestou.

Sim, meus alunos do curso de idiomas são fofos. Mas, num universo de cerca de cinquenta pesssoas, é de se esperar que ao menos uma seja uma mala. E essa moça é daquelas bem pesadas. Sabem o tipo que interrompe a aula a cada dois minutos para falar, em português, de algum assunto completamente aleatório à lição? Esse mesmo.

Estava lá trabalhando um diálogo de lanchonete. Grudei na parede uma foto de um atendente feliz, fui colocando as falas na lousa, fazendo os alunos repetirem, e tal. Em determinado momento, quando o atendente diz: "Enjoy your meal", tive a brilhante idéia de fazer uma piadinha:

"Esse atendente tão simpático com certeza não trabalha no Burger King, né gente?"

Ao que a mala imediatamente responde:

"Eu já trabalhei no Burger King, tchítcher!"

Menos profissional fosse, teria respondido: "E você também era mal educada como TODOS os atendentes da quela joça?"

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Da sublime arte de se meter onde não é chamado

E aí hoje de manhã fui lépida e faceira carregando mochila para o trabalho de manhã. A idéia era dar aula para o paisagista até as oito e meia e de lá partir para a academia ao lado para recomeçar meu programa de exercícios pela vigésima vez. Já tinha deixado os cheques do plano semestral e hoje faria a avaliação física - projeto verão 2011 lá vamos nós.

Anos de tentativas já deviam ter me ensinado que academias não são para mim. Meu negócio é bar, restaurante, sentar a bunda debaixo do guarda-sol e beber cerveja na beira da praia até esquecer meu nome. Meu negócio é ganhar calorias, não gastar. Mas a idade vai chegando, a bunda vai caindo e de repente frequentar academia tora-se uma questão não mais de vaidade, mas de não assustar criancinhas em Maresias. Enfim, munida de mochila, squeeze e uma determinação quase alienígena compareci à masmorra hoje para atestar que tenho condições de usar uma esteira sem ter um piripaque a qualquer momento. E, surpresa!!!! Descobri que não tenho.

Reprovei na avaliação física, coleguinhas. Fui humilhada por uma bicicleta ergométrica e meia dúzia de abdominais. Ok, posso culpar o clima de deserto que assola esta cidade, minha asma que tende a piorar nestas condições e blábláblá, mas o fato é que a academia quer que eu passe por um médico para que ele ateste que posso me exercitar. Em outras palavras, levei bomba.

É isso que dá. Vê lá se algum garçon no Valadares vai aparecer para dizer que eu não estou apta para consumir mais uma cerveja ou uma porção de batatinha na serragem. Quem mandou ir fuçar onde não sou chamada?

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

O quinto ano e o futebol

Os meninos do quinto ano estavam discutindo futebol com aquela propriedade toda que só moleques de dez anos podem ter:

"Tchíítcher, pra que time você torce?"
"A tchítcher tem cara de corintiana."
"Só porque ela tá de preto e branco?"
"Ôôô tchítcher, você tá parecendo corintiana mesmo, só faltou ser banguela e estar de touca."

Pausa. Cinco minutos depois:

"Tchítcher, sabia que todo mundo nasce corintiano?"
"Ah é? Por que?"
"Sem dente e analfabeto!"

Pausa. Mais cinco minutos:

"Tchítcher, o que você acha dessa lei que proíbe falar palavrão no estádio? A gente vai xingar o juiz de quê? De cabeça de melão?"

E teria seguido nesse nível não fosse o sinal do recreio.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Compartilhando pequenas genialidades

Falando sobre pronúncia hoje com o aluno paisagista ele se lembrou de uma pequena obra prima musical chamada Let's call the whole thing off, que nenhum de nós lembrava de quem era mas eu sabia que pertencia à trilha sonora de outra pequena obra prima cinematográfica, Harry e Sally. Procurando no youtube descobri isso e, como boa graduada em Linguística não estivesse no trabalho teria caído babando no chão de emoção:

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Sem escalas

Voltando para casa naquele horário delícia das dez da noite ontem. Duas creiças sobem no ônibus portando um daqueles aparelhinhos from hell mais conhecidos como "celular sem fone de ouvido" berrando a número dois das sete melhores da Pan (ainda existe isso ou estou dando mais uma prova incontestável da minha idade avançada?).

Creiças. Mesmo. De top de oncinha, "pílci" no umbigo e calça de lycra formando nem um muffin, um panetone inteiro onde deveria estar a cintura mas na verdade vê-se apenas um monte de gordura. Vão vendo. As creiças param bem ao meu lado e a dona do instrumento de tortura diz (diz não, relincha, já que é única forma de comunicação que esse tipo conhece):

"Intão, Josicléia, aí onti uma véia no ônibus me mandô baixar o volume du celular e eu respondi que eu faço o que eu quiser que o celular é meu, véia baranga."

"Vixi, Katilaine, cuidado que um dia você vai ficá velha tamém..."

Ao que não pude deixar de pensar - vai nada, porque se existe justiça de algum tipo nesse mundo você vai ser atropelada por uma van assim que descer desse coletivo, Katilaine.

É isso, eu vou para o inferno sem escalas. Caso algum de vocês também vá, podem me procurar - eu sou a magrela descabelada tomando uma cerveja com a Amy Winehouse ali no canto.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

La autopista del Sur

Quem acompanha este blog sabe que meu escritor preferido para sempre é Julio Cortázar - e de tudo que ele escreveu certamente um dos contos que mais me toca até hoje é "La autopista del Sur". Ele fala de um engarrafamento gigante nos arredores de Paris que aos poucos vai tomando contornos surreais quando as pessoas ali começam a se envolver, se apaixonar, morrer no trânsito imóvel e interminável.

Cortázar nasceu em Buenos Aires e viveu por muito tempo em Paris - suas narrativas se passam, por isso, entre estas duas cidades. Mas acho que nem em suas histórias mais fantásticas ele seria capaz de imaginar que "La autopista del Sur" poderia se concretizar e logo em um lugar tão distante como a China. Mas, pensando bem, onde mais uma coisa dessas poderia acontecer?

http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2010/08/100824_chinaengarrafa_ji.shtml

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Aleatoriedades

- Um avaliador apareceu na minha aula semana passada. Eu não entendi direito, mas parece que a escola está tentando se tornar um centro de treinamento internacional e por isso o homem passou a semana toda lá fuçando, observando aulas, professores, estrutura, recepção, a qualidade do cafezinho, enfim, itens indispnesáveis para o funcionamento de um centro internacional. Quando meu coordenador me avisou, na terça-feira, eu meio que duvidei - ah tá que o Mr. Fulano de tal vai aparecer as sete da manhã para observar aula individual - mas eis que sete e dez Mr. Whatever estava lá, de suéter nerd e gravata borboleta, juro.

Até aí tudo bem. Minhas aulas já foram observadas milhares de vezes, mas pela primeira vez em anos pelo Mr. Woody Allen em pessoa. Não estou exagerando - o homem era uma espécie de irmão gêmeo congelado (pois devia ser um pouco mais novo) do cineasta nova iorquino. Sério minha gente, como é que alguém dá aula com o cara que dirigiu Hanna e suas irmãs fazendo anotações no fundo da sala? Assim que o homem saiu meu aluno (o paisagista fofo do post anterior) não aguentou:
"Meo deos, mas ele não é a cara do Woody Allen? Se ele não saísse logo eu ia ter que falar." Era. Perturbadoramente parecido.

- Mais tarde tive que aceitar carona do meu outro coordenador, o burro. (Nota - eu trabalho em cinco lugares diferentes, portanto tenho uma penca de coordenadores). Já reclamei dele aqui algumas vezes. Enfim, ele estava saindo para dar aula numa empresa no mesmo horário que eu e ficava chato dizer "ó, prefiro ir a pé porque você é um mala, heim?" E foram quinze minutos constrangedores ouvindo música grega dos anos 80 (eu já disse que, além de tudo, ele é grego?) na ida E na volta porque as aulas dele acabam no memso horário. E vai ser assim duas vezes por semana até o fim do semestre.

- Sábado fui a um restaurante indiano McDonald's style (combo 1, 2 3...) na rua Augusta. A vista de dois indianos legítimos no recinto impressionou um pouco, mas no fim das contas nada de especial, comidinha sem graça beeem fast food mesmo. Quer um indiano bom a preço honesto, dica - Gopala, na Antônio Carlos.

- Depois do restaurante fui ao Center 3 assistir A origem. Adoro andar pela Paulista e pela Augusta de sábado a noite para ver os tipos esquisitos e comprar filmes cults piratas. Quanto A origem, tive sensações contraditórias: é um filme de ação, ponto. Eu normalmente não gosto de filmes de ação, explosões, tiros etc, mas gostei desse. É visualmente bonito, a história envolve e salvo algumas cenas looongas e desnecessárias ele se desenvolve bem para as duas horas e meia. Mas é só. Não consegui enxergar aquela coisa filosófica toda que ele tenta imprimir - achei filosofia barata, e se for pra discutir sonho/realidade e blábláblá sugiro Waking Life, que é beeem mais perturbador (mais devagar também). Mas o estrago já está feito - A origem vai virar um daqueles filmes de gente cultzinha besta que acha a maior sacada do universo a moça que projeta o labirinto se chamar Ariadne ou a "vilã" se chamar Mal.

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Mães

E nada como dar aula para crianças para aprender rapidinho que o clichê de que mãe é tudo igual é mais mentiroso que peito de ex-BBB. Além daquelas que se tornam mães porque sempre quiseram isso, porque acharam que era a hora certa, porque amam crianças (como é caso, obviamente, das NOSSAS mães), há outros tipos:

Há, claro, as que se tornam mães sem querer. Destas, algumas descobrem que se enquadram na categoria descrita acima. Outras acabam se enquadrando nas abaixo:

Há aquela que se torna mãe porque todas as amigas já se tornaram e filho para a classe média é como o último modela da Louis Vuitton para as ricas - você TEM que ter.

Há também aquela que se torna mãe para garantir que aquele mané que está dando sinais de que lhe dará um pé na bunda em breve vai ficar preso a ela para sempre - nem que seja via pensão alimentícia.

Por fim, há aquela que se torna mãe porque não aguenta mais o emprego e acha que um filho é uma boa desculpa para estender sua ausência no mercado de trabalho por uns 15 anos.

E é um destes três últimos tipos, certamente, que despeja uma criança uma hora da tarde na escola de inglês (a aula da criança é três e meia) e aparece para pegá-la as seis. Só pode.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Aos alunos, com carinho

E hoje eu acordei toda amor no coração pelos meus alunos particulares e resolvi compartilhar com vocês algumas peças raras que passam pelo meu caminho:

- Tem o senhor do sábado de manhã que é meu aluno há anos. Ele trabalha numa companhia de seguros, tem três filhas e fala Inglês como o Joel Santana (sem o sotaque carioca).

- Tem o arquiteto paisagista das terças e quintas. Acho que por trabalhar com plantinhas e coisas bonitas ele é todo zen, fala baixinho, gosta de teatro e de café. Queria  que ele fosse meu segundo melhor amigo gay.

- Tem a senhorinha que já viajou muito e sempre tem uma história de como ela se lascou mundo afora por não falar Inglês. E tadinha, continua não falando porque apesar dos meus esforços ela se parece com o Joey aprendendo Francês naquele episódio de "Friends".

- Tem o engenheiro que adora gramática e gosta mais ainda de contar as histórias da filhinha dele que está aprendendo a andar.

- Tem o gordinho sorridente da TI que começa toda frase com "How can I say that?" e adora novela japonesa.

- Tem o senhorzinho japonês fofinho que toda semana traz algum artigo de revista ou uma palavra nova relacionada à aula anterior.

- Tem a colega do senhorzinho japonês que é muito bonita mas toda semana aparece com os cortes de cabelo mais pavorosos.

- Tem a mocinha que mora lá na PQP, trabalha o dia todo, faz faculdade lá na outra PQP, passa quatro horas por dia dentro de um ônibus e ainda assim está incrivelmente bem humorada as sete e meia da manhã.

Resumindo, eu sou uma pessoa de sorte. Num universo de milhões de babacas nessa cidade, meus alunos são, quase todos, gente divertida e agradável, que torna meu trabalho bem mais fácil.

Acordei mulherzinha hoje.

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

"Balada"

Amiga minha fez aniversário e alegou que não queria fazer "programa de velho" tipo sentar num bar e ficar enchendo a cara como todos os anos. Optou pela famigerada "balada".

Eu pisei numa "balada" pela última vez há exatos dois anos e meio e apenas com o nobre objetivo de beijar Queridão, que viria em seguida a se tornar meu namorado. Porque eu não gosto de "balada". Eu não gosto da música, não gosto das filas, não gosto da bebida cara e detesto o tipo de gente que costuma ir a estes lugares. Uma "balada" é o único lugar onde a máxima de tratar bem o consumidor não vale - os frequentadores são tratados como lixo e ainda assim voltam toda semana.

Enfim, amiga decidiu reunir as pessoas em uma casa noturna muito famosa no interior paulista. Queridão acionou seus contatos no local e nos conseguiu entradas vip para o camarote, não sem antes ser aconselhado a chegar cedo. Enrolados com outros compromissos, não conseguimos aparecer no local antes da meia noite, e nos deparamos com a tradicional fila quilométrica - sim, a vip. A fila dos pagantes era um quarto. Fazia frio, a paciência já estava pela metade e decidimos pegar a fila pagante já que por lá ainda pratica-se a consumação e beber nós iríamos mesmo. Ainda assim foi tudo de uma desorganização absurda - em determinado momento abrimos espaço para que um cadeirante entrasse e junto com ele cerca de dez pessoas aproveitaram a brecha para passar na nossa frente. O segurança? Nem tchum. Nível de paciência desceu mais um pouquinho.Peguei minha comanda e fiquei esperando queridão pegar a dele. Segurança foi me empurrando pra dentro: "Não pode ficar aqui fora, dá treta, dá treta." Quase gritei: "Só se der treta pra você, pra mim não vai dar nada!"

Encontrei amiga lá dentro. Primeiro comentário: "Menina, como tem biscate e mano nessa balada!". Tive que concordar. Uma breve olhada pelo local confirmava a impressão - 90% das mulheres presentes se vestiam como putas e 90% dos caras como michês. Me senti numa festa "Pimps and Whores" lá da faculdade circa 2001. Fora que, antes de pegar qualquer menina lá dentro eu aconselharia aos rapazes que pedissem a identidade dela. Parecia excursão ao Playcenter meets Pussycat dolls. Nível de paciência descendo.

Balada errada, alguém me dirá. Bom, eu não frequentos esse tipo de lugar - não sei quais são os certos e nem tenho muito interesse. Queridão foi ao bar e voltou com uma vodca mais batizada que a gasolina do posto do Zelão na vila Xurupita. Que deve ter custado 20 reais a dose. A medida que o lugar foi lotando foi ficando mais difícil a convivência. Nível de paciência zerou. Decidimos que estávamos velhos demais para aquilo e fomos pra casa antes que a fila do pagamento se tornasse mais um desafio épico e ainda encaramos a clássica dupla de moleques bêbados questionando comanda no caixa.

É isso, estou velha. E como tal, devo fazer programas de velho - passar a noite sentada, comendo, bebendo de verdade e a um preço um pouquinho mais honesto, sem fila, sem bêbado passando a mão na minha bunda, sem ter que disputar espelho de banheiro com meninas tirando foto, sem segurança mal humorado. Old age, here I go.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Confusos III

Essa é bonitinha: meu sogro estava brincando com a neta dele que tem dois anos. Ela carregava uma bolsinha pra cima e pra baixo e quando ele abriu tirou de lá um casal de bonecos de pano.

Sogro: Que lindos, Manu... Um menino e uma menina... Ih, mas o menininho está quebrado, só tem um olho.

Mãe da Manu: Não pai, é que é o Lampião com a Maria Bonita...

Em defesa do meu sogro, devo dizer que acompanhei a cena de perto e nunca que aqueles bonequinhos pareciam Lampião e Maria Bonita, ok?

terça-feira, 20 de julho de 2010

Minhas férias

Assim, só pra dizer que as duas últimas semanas de Julho serão longas e sofridas. Porque eu mais uma vez me enfiei em um curso de professores de Inglês, só que este aqui sem os gringos divertidos.
Desta vez, para meu deleite, tenho uma tutora alegrinha e saltitante que aaaaaaaaaama todos os professores/ coordenadores/ porteiros da escola e adora contar histórias chatas e compridas que não tem nada a ver com a aula. E por causa das histórias chatas e compridas ela se perde, esquece onde estava, pula textos inteiros, enfim. Além disso tenho colegas de sala que pronunciam "curse" quando deveriam pronunciar "course" ( e cada vez que fazem isso matam um bebê panda, que fique claro) e o ar condicionado da sala desconhece meio termo - ou nos matará congelados ou carbonizados.

Pelo menos tem uma maquininha de nescafé free no térreo.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Te conheço?

Já tinha acontecido antes. Numa famigerada "peruada" (um carnavalzão fora de época da faculdade de Direito do Largo São Francisco) uma menina me puxou de lado e berrou: "LEMBRA DE MIM?????????".

(Parênteses: quem aborda um incauto no meio da rua e pergunta "lembra de mim?" não vai pro céu. Porque a chance do incauto não lembrar e passar por uma situação muito constrangedora é, digamos, 99%.)

Enfim. Olhei, olhei e aos poucos (apesar de alcoolizada) fui me lembrando:"Claaaaro. Você é amiga da P... (um minuto) irmã do... M... (mais um minuto)... lá de Varginha... (mais dois minutos - berra) LEMBREI! VOCÊ É A PRIMA DO ROGÉRIO FLAUSINO!!!!! "(porque, sim, essa era a única maneira pela qual nos referíamos a ela - a prima do vocalista do Jota Quest). Lembrei o nome da pessoa? Claro que não.

Hoje aconteceu de novo. Na sala de espera do médico um sujeito de meia idade me aborda:
"Ooooooooi! Tudo bem?" Pergunta da minha mãe, da minha irmã, da cidade da minha mãe. Ele obviamente me conhece. Eu? Não faço a menor idéia de quem seja. Vou respondendo às perguntas, com aquela cara de pastel, enquanto ele segue falando: "puxa, sua irmã está em Brasília? Brasília é muito bom, você conhece?" Eu quase morrendo por dentro, olhando para a porta do consultório e xingando a décima geração do médico que não me chamava. Cinco minutos mais longos da minha vida. Sou finalmente chamada e, quando saio da consulta, graças a deos o cara não está mais lá.

Só horas depois, voltando pra casa, me lembro que é o marido de uma prima (não me culpem, eu tenho uns 30 primos) que eu não via sei lá, há uns dez anos. E ele deve, a esta hora, estar comentando com a mulher dele o quanto eu sou mal educada, que nem perguntei dela e dos dois filhos deles.

Memória pra quê, minha gente?

terça-feira, 13 de julho de 2010

Alice meets o Senhor dos Anéis

Eu sei que este post está terrivelmente atrasado, mas só consegui assistir a Alice do Tim Burton hoje, numa cópia pirateada. Até pensei em assistir no cinema, 3D, crianças a rodo gritando na minha orelha, mas depois de ouvir algumas opiniões pouco abonadoras sobre o filme acabei desistindo e optando por esperar uma "cópia alternativa" mesmo.

Eu amo a Alice. Desde sempre. Desde que eu tinha cinco anos, nem sabia ler ainda e ganhei uma edição do círculo do livro com as ilustrações do desenho da Disney (que é na verdade uma mistura do 'País das Maravilhas' e do 'Através do Espelho') - aquela Alice de vestidinho azul e tiara preta, o gato cor de rosa, as rosas brancas pintadas de vermelho, as flores falantes. Mais tarde, a história completa e finalmente o original, em inglês. Também sempre fui fascinada pela figura e pela história do Lewis Carroll, por toda a criação dele. É claro que, quando soube que o Tim burton seria responsável pela versão cinematográfica do livro, fiquei ansiosa.

Porque eu também amo o Tim Burton. Desde Edward Mãos de Tesoura assisti cada filme que ele fez salivando, encantada com os universos que ele criava. E neste quesito ele não decepcionou - a Alice dele é visualmente belíssima, arrebatadora e fez com que eu me arrependesse de não ter assistido no cinema. Mas a história...

Eu já tinha sido avisada e não, não vi o filme esperando ver a minha Alice de infância retratada nele. Todo mundo sabe que o Tim Burton se apropriou dos personagens e criou outra história. Esse não é o problema. O problema é que o que ele criou é uma bosta. Um clichezão da heroína em busca de si mesma que nem de longe lembra a clima de sonho e de brincadeira do Lewis Carroll. Ele fez um filme sisudo, sem graça, um arremedo de Alice meets Senhor dos Anéis, um roteiro tão desleixado, tão sem surpresas que dá até nervoso.

A Fantástica Fábrica de Chocolate já tinha sido bem mais ou menos e agora isso. Tim Burton, faça-nos um favor: pare de mexer com a nossa infância.


Update: achei isso aqui no blog Puxa Cachorra! e estou rindo muito.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Gosto é como...

Post inspirado pela coleguinha Bruna

Um dia, quando eu ainda morava com a minha irmã, ela se virou pra mim, muito séria, entre uma cerveja de fim de sexta feira e outra e disse:
"Olha só, preciso te falar uma coisa."

"Fala."

"Eu não gosto do Woody Allen."

"Oi?"

"Eu detesto o Woody Allen. Eu não gostei de nenhum dos filmes dele que você me fez assistir. Não achei graça nenhuma. Aliás, tenho meio nojinho dele, com aquela cara de velho-pedófilo-tarado-comedor-de-enteada."

"Tá."

"Pronto, desabafei. Agora nunca mais me abrigue a assistir nada dele, ok?"

Claro que na minha concepção egoísta de mundo eu não tinha obrigado ninguém a assistir os filmes do Woody Allen. Tinha apenas sugerido que eles eram ótimos e que deveriam portanto ser considerados como opção válida para a sessão pipoca do domingo. Mas minha irmã, percebendo (ou concluindo, vá) que os tais filmes eram importantes pra mim, os assistiu por anos sem reclamar, até que um dia não suportou mais (deve ter sido depois de Desconstruindo Harry) e teve coragem de por fim àquela tortura.

Um tempo atrás fiz queridão assistir a um dos meus preferidos do diretor, A rosa púrpura do Cairo. Meu namorado tampouco achou a coisa mais sensacional do mundo. Depois desse vimos O sonho de Cassandra e Vicky, Cristina Barcelona, e queridão dormiu no meio de A era do rádio. Acho que vou desistir antes que ele se rebele, como fez minha irmã. Se bem que se rebelar as vezes é saudável, faz bem para o fígado e para a consciência.

A propósito, de uma vez por todas - eu não acho a menor graça em Star Wars e pra mim Fellini só presta La dolce vita, tudo bem?

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Histórias de Copa

Lembrei de uma história bem oportuna para essa época. 2002, copa do mundo no Japão e Coréia. Geral acordando de madrugada para assistir aos jogos da seleção e xingando que não dava para matar o trabalho. Eis que o Brasil chega na final contra a Alemanha. Jogo no domingo, tipo sete horas da manhã.

Eu e minha irmã estávamos na casa da minha mãe no interior. Combinamos de ver o jogo no vizinho, sem esculhambação já que era muito cedo e tudo. Mas aí nossos amigos bebuns não colaboram e um deles, dono de uma pizzaria na cidade, nos telefona no intervalo - vem pra cá que eu abri a chopeira!

E daí que não eram nem nove da manhã? Se um cidadão de bem não pode se comportar como um vagabundo irresponsável em uma final de Copa do mundo, quando vai poder, não é mesmo? Toca para a pizzaria. E toca encher a cara muuuito antes do meio dia. E toca seguir bebendo depois do apito final. E toca pegar uma kombi velha do pai de não sei quem, encher de bêbados e sair pela cidade batendo na lataria, porque senso de ridículo é para os fracos. Depois de horas naquele estado deplorável e vendo que a bagunça no centro da cidade ameaçava miar, alguém teve a idéia mais brilhante de todas - pegar a kombi e ir até a cidade vizinha, onde, diziam, a festa estava mais animada.

Claro, mas antes decidimos (eu e irmã) passar em casa. Precisávamos de um banho, almoço e roupas limpas para seguir em frente. Mal abri o portão minha irmã subitamente se lembrou de que sua última refeição tinha sido uma porção de provolone na pizzaria do nosso amigo, cerca de cinco horas antes, e correu em desabalada carreira em direção à cozinha. Lá, deparou-se com uma fumegante panela de feijoada e atirou-se a ela como a uma tábua de salvação. Enquanto ela batia aquele prato de pedreiro minha mãe entrou na cozinha e reparou em um detalhe que até então passara despercebido por nós duas:

"Patrícia, onde está sua calça?"

Só então minha irmã percebeu que, realmente, naquele momento, ela não vestia a parte de baixo do seu traje. Desesperou-se:

"Minha calça? Sei lá onde está minha calça!" Começou a chorar, mas sem desgrudar do prato de feijoada "Porra, mãe, perdi minha calça!"

Inconformada com a situação, dona Neide vai até a varanda e retorna, pouco depois, com um jeans nas mãos:

"Estava na porta da sala, sua pinguça! Ave Maria, que vergonha!"

Patrícia respira aliviada se segue comendo. Cinco segundos depois começa a chorar de novo:

"E a minha bandeira do Brasil? Porra, perdi minha bandeira!"

E esta realmente não foi mais encontrada. Preciso responder se conseguimos sair de casa depois dessa?

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Meme literário: 10 livros

Vi no blog da Amanda e não resisti, pois taí uma coisa que eu amo - livros. Lá vai:


O livro que você mais gostou

Não consigo escolher um livro só, porque os meus contos preferidos do Cortázar estão espalhados em volumes diferentes, mas o argentino tinha que estar na minha lista. Ler Cortázar é uma viagem, é assustador, emocionante, recompensador. No começo não é fácil, dá um certo trabalho, um estranhamento. Mas no final vale cada linha.

Toco tu boca, con un dedo toco el borde de tu boca, voy dibujándola como si saliera de mi mano, como si por primera vez tu boca se entreabriera, y me basta cerrar los ojos para deshacerlo todo y recomenzar, hago nacer cada vez la boca que deseo, la boca que mi mano elige y te dibuja en la cara, una boca elegida entre todas, con soberana libertad elegida por mí para dibujarla con mi mano por tu cara, y que por un azar que no busco comprender coincide exactamente con tu boca que sonríe por debajo de la que mi mano te dibuja.
Me miras, de cerca me miras, cada vez más de cerca y entonces jugamos al cíclope, nos miramos cada vez más de cerca y nuestros ojos se agrandan, se acercan entre sí, se superponen y los cíclopes se miran, respirando confundidos, las bocas se encuentran y luchan tibiamente, mordiéndose con los labios, apoyando apenas la lengua en los dientes, jugando en sus recintos donde un aire pesado va y viene con un perfume viejo y un silencio.
Entonces mis manos buscan hundirse en tu pelo, acariciar lentamente la profundidad de tu pelo mientras nos besamos como si tuviéramos la boca llena de flores o de peces, de movimientos vivos, de fragancia oscura.
Y si nos mordemos el dolor es dulce, y si nos ahogamos en un breve y terrible absorber simultáneo del aliento, esa instantánea muerte es bella.
Y hay una sola saliva y un solo sabor a fruta madura, y yo te siento temblar contra mi como una luna en el agua.

(O jogo da amarelinha)


O livro que você mais odiou

O Xangô de Baker Street – Jô Soares. Taí um livro que é um desperdício, pois parte de um pressuposto ultrainteressante e tinha tudo para ser divertidíssimo, mas é chato. Irremediavelmente chato. É ler e ter a impressão que única coisa que o Jô Soares quer é nos mostrar como ele sabe tudo sobre qualquer assunto e como ele teve trabalho pesquisando cada detalhe milimétrico das histórias do Sherlock Holmes e da vida no Rio de Janeiro no século XIX. Fique puta ao ver uma história tão legal ser atropelada pelo ego do gordo.

O livro mais barato que você comprou


Demian – Hermann Hesse. Eu tenho um tio muito querido, engraçado, paciente, bom cozinheiro, culto e me lembro de, quando criança, ter visto vários livros do Hermann Hesse na prateleira dele. Quando vi esse livro no chão, em cima de um plástico, no meu caminho até a Barra Funda, lembrei dele na hora e não pensei duas vezes. O vendedor queria dez reais mas não tinha troco pra cinquenta – acabou me vendendo por cinco.
Foi há um tempão, então me lembro pouco da história – lembro que é um livro forte e bonito. Queria ler outra vez, mas perdi meu exemplar numa das minhas muitas mudanças.

O livro mais caro que você comprou

Casa Grande e Senzala – Gilberto Freyre. Como eu compro muito livro em sebo e adoro um pocket, meu livro mais caro nem foi tão caro assim. Acho que é mais uma questão de custo-benefício. Comprei para fazer um trabalho de Literatura Brasileira V na faculdade, imaginem. Era uma matéria optativa, faltavam pouquíssimos créditos para eu me formar e eu sei lá o que me deu na cabeça de comprar um livro caro e que eu podia tranquilamente ter emprestado da biblioteca. Achei que seria um bom investimento, sei lá. Talvez fosse, se eu fosse socióloga, não professora de inglês, né?
Enfim, li dois capítulos, abandonei a matéria e esse tijolão, por incrível que pareça, sobreviveu às mudanças e continua na minha estante.

O livro que mais te fez ter a atenção nele
O Senhor das Moscas – William Golding. Eu tinha acabado de ler “O apanhador no campo de centeio” e comentei com um professor de inglês, que me disse: “Quer se surpreender mesmo? Leia O Senhor das moscas”. Peguei o livro sem pretensão nenhuma e acabei lendo em dois dias, sem parar. É realmente surpreendente, original e tenso, muito tenso. Fala do despertar da agressividade em um grupo de meninos perdidos em uma ilha (e apesar de não ter assistido Lost sinto que eles beberam um pouco nessa fonte). Não tem como largar antes do final.


O livro que menos te fez ter a atenção nele

O Estrangulador – Manuel Vázquez Montalbán. Um amigo me emprestou porque ele adorava. É cheio de referências,o que eu acho ótimo, é sempre uma oportunidade de ir atrás de coisas novas. Mas no caso deste aqui são tantas, tantas, e tão obscuras que chega um momento em que a gente começa a achar que o autor está tirando uma a nossa cara, rindo da nossa ignorância. E começa a dar preguiça de procurar tudo e a gente acaba ficando perdido. Enfim, terminei de ler assim, nas coxas, para poder devolver logo (porque meu amigo realmente gostava do livro) e não prestei a menor atenção.

O livro que você mais recomenda

O Túnel – Ernesto Sábato. Recomendo porque Sábato é um escritor argentino não muito conhecido por aqui (pelo menos tenho a impressão que não) e o Túnel é um dos livros mais fodas que eu já li. Começa com o personagem principal na cadeia confessando um assassinato. A partir daí ele começa a descrever as situações que o levaram a cometer este crime (o ciúme que ele sentia da amante) e é impossível não se identificar com as pequenas neuroses cotidianas que culminaram naquele ato extremo. E aí é que está a genialidade da coisa – dá uma aflição terrível se identificar com um cara que desde o começo nós já sabemos que matou alguém.

O livro que você menos recomenda

As vinhas da ira – John Steinbeck. Há pouco tempo falei deste livro para uma amiga e comentei que era o Vidas Secas americano. É a história de uma família de pequenos produtores rurais que, em plena Depressão, decide abandonar o miserê do meio-oeste dos Estados Unidos para tentar a sorte na Califórnia. São mais de 600 páginas do mais puro sofrimento, não porque o livro é ruim, mas pela sucessão de desgraças que acontecem na história. O final deve ser o mais triste que eu já li, fácil. Se você não é masoquista, passe longe.
Detalhe: essa capa aí ao lado é a edição que eu li, do meu pai, aquelas capas duras do Círculo do Livro.

A série que você mais gosta

Para gostar de ler. Amo essa coleção. É feita para ensino fundamental (quinta a oitava série) e faz exatamente o que ela se propõe – ensina a ler. Através dela na sexta, sétima série, conheci Drummond, Rubem Braga, Lygia Fagundes Telles, Luís Fernando Veríssimo, Paulo Mendes Campos, Fernando Sabino, Stanislaw Ponte Preta, enfim, a nata do conto e da crônica brasileira. É delicioso, inclusive para adultos.

O livro mais velho que você já leu

A Odisséia – Homero. Não se sabe exatamente quando ele foi escrito, mas diz que foi antes de Cristo, então bota velho nisso. E é um livro ótimo, muito, mas muito legal mesmo, com uma história comprida e cheia de detalhes dos quais eu não lembro direito. Mas o grande barato de ler os clássicos gregos é descobrir que milhares de referências que nós temos até hoje vieram dali, de algo que foi escrito há tanto tempo.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Mais um capítulo da novela TIM e eu

A TIM já tinha dado provas de que, como empresa de telecomunicações, deveria baixar as portas e vender limonada, mas não é que eles continuam me surpreendendo?

Mês passado recebi um torpedo avisando que, "excepcionalmente em maio" o vencimento da minha fatura, que é dia 10, seria adiado para dia 18. Ok. Dia 15 de junho, outra vez sem sinal da fatura do mês telefono para a o serviço de atendimento. (Nota: desde o mês passado a única opção no menu de atendimento da TIM é falar com um atendente - ou seja, se eu for assaltada ou meu celular desaparecer eu terei que ouvir minutos de musiquinha chata e tentar me comunicar com os atendentes surdos da operadora até conseguir cancelar minha linha).

Enfim, depois de cinco tentativas (já que os atendentes surdos desligavam na minha cara por não conseguirem me ouvir) comunico à moça que ainda não recebi a fatura, ao que ela me responde "ah, é que nós alteramos o vencimento da sua fatura para dia 21." Oi, alguém me perguntou se eu queria? Alguém me comunicou? Uma empresa de telecomunicações se deu ao trabalho de me enviar um torpedo? Claro que não.

Mas o pior veio depois. Aproveitei o telefonema para reclamar do defeito no menu de atendimento, ao que a moça responde:
"Ah, é, outras pessoas já reclamaram que isso vem acontecendo há alguns dias..."

"Alguns dias não, moça, desde o mês passado."

"Ah, certo, desculpe pelo 'alguns dias'"

"Mas então, vocês tem alguma previsão para a solução desse problema?"

"Não senhora." Assim, como se o problema não fosse com eles.

"Ah, não?"

"Não."

TIM, só não te dou um chute na bunda por causa do plano Infinity, beijos.

A cada quatro anos

Em 78 eu cheguei cinco meses atrasada para o evento.

Em 82 eu estava ocupada demais desenhando nas paredes da sala e não tive tempo de acompanhar toda a movimentação.

Em 86 eu me lembro de um domingo (devia ser domingo, pois eu estava em São Caetano na casa da minha tia). Lembro de estar no colo do meu pai, entre meu tio e minha mãe. Lembro de um pênalti perdido (França? Itália?) e do meu pai e meu tio se segurando para não falar palavrão na frente das crianças.

Em 90 devia ser dia de semana, pois meu pai não estava. Lembro de deitar no canto entre a parede e a cama no quarto da minha mãe, com minha irmã e o vizinho de cima. Lembro que era contra a Argentina. Lembro de um gol dos hermanos e de um chinelo atirado na TV em um momento de indignação.

Em 94 meu pai, um homem sábio, não me deixou ir à Paulista comemorar com meus primos.

Em 98 meu pai não estava mais por perto mas houve churrasco, porradinha com vodca vagabunda, um francês FDP e marmanjos chorando feito criança.

Em 2002 houve madrugadas em claro, briga de bar no jogo contra a Inglaterra e litros de chope as oito da manhã na final.

Em 2006 o Bussunda morreu e eu passei o último jogo em um velório.

Em 2010 faço questão – Ainda que muita gente se ache superior por detestar, Copa do Mundo pra mim não pode, não deve passar em branco. Até a final, Brasil, pra gente ter mais dias de trabalho pra enforcar.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Papo de criança

Os dois tem sete anos. Ela é gordinha, pinta uma unha de cada cor e nunca traz as canetinhas. Ele é baixinho, invocado e tem um sotaque baiano que dá vontade de embrulhá-lo e levá-lo para casa.

"Antônio, quando você for pra Bahia você traz um cacau pra mim?"

"Pra que você quer um cacau?"

"Pra fazer um trabalho da escola."

"Mas eu acho que não tem mais cacau na Bahia."

"Não? Por que?"

"Porque as abelhas e as formigas comeram todos."

"Mas será que não tem mais nenhum?"

"Vai ver na fazenda do meu tio tem."

"Onde fica a fazenda do seu tio?"

"Oxe, sei lá. Sei que demora."

"Quanto custa um cacau?"

"Treze."

" Então eu te dou dez e você traz um pra mim?"

"Trago."

"E não esquece do troco."

"Mas é cacau de verdade, não é chocolate não."

"Eu sei, a tia da escola mostrou uma foto. Ah, Antônio, já sei. Eu te dou mais dinheiro e aí você traz um cacau pra mim e um monte de cacau pra você."

"Quero não, eu não gosto de cacau."

"Não?"

"Eu só gosto de chocolate."

"Então eu tive uma idéia. Traz um monte de cacau, aí eu faço chocolate e te dou pra te agradecer."

"Tá bom."

"Tiiiia, acabei o desenho! Posso beber água?"

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Conversando sobre música com o sétimo ano

"Quando eu tinha a idade de vocês não tinha google nem vagalume pra procurar letra de música. A gente fazia na raça mesmo, ouvindo o CD e parando depois de cada frase para anotar. Aprendi horrores de inglês assim."

"Você gostava de Menudo, tchítcher?"

"Um pouquinho, mas eu era bem criança. Na idade de vocês eu curtia New Kids on the Block."

"Quem?"

"Era tipo cinco Justin Biebers que dançavam e cantavam."

"E você gostava de Dominó?" (Nota: Dominó deve ter surgido na conversa porque outro dia os ex integrantes apareceram no Gugu e a molecada deve ter assistido. Eles obviamente nunca tinham ouvido falar deles antes disso.)

"Gostava, tinha o disco e tudo."

"Hehehe, credo, tchítcher."

"Credo nada. Daqui a quinze anos certeza que os moleques do Restart vão estar no Gugu, todos carecas, barrigudos e cheios de filhos."

"Aaaaah, Restart não!"

quinta-feira, 3 de junho de 2010

Uma noite no videokê

Pelos meu amigos eu já fui a show do Guns n' Roses cover no Morrison, já fiquei em um hostel xexelento no Rio de Janeiro, já bebi cerveja Glacial quente, já assisti apresentação do Angra em um porão em Sorocaba. Pelos meus amigos eu fiz coisas das quais me arrependi bastante depois.

E pelos amigos fui parar ontem em um videokê.

Um videokê é um lugar tão coalhado de clichês que mal sei por onde começar, mas vamos lá. Chegamos antes do aniversariante e fomos recebidos por aquele aroma característico de fritura. Não sei o que é mais detestável: antes da lei antifumo voltava-se pra casa cheirando cigarro, agora volta-se cheirando pastel. Os frequentadores do lugar eram basicamente o pessoal da "firma" fazendo um happy hour pré-feriado. Dentre estes, uma penca de tiozões esquisitos tomando uísque, que queridão logo classificou como a turma dos divorciados. Por que alguém escolheria celebrar seus 27 anos num lugar daqueles, meu deos? Com fome, pedimos dois chopes e o único sanduíche do cardápio que não parecia ter saído de uma cantina de colégio e esperamos o resto do pessoal, que chegou logo.

Mas um videokê, como todo mundo sabe, não é feito apenas de cheiro de batata, tiozões e comida ruim. Há o motivo pelo qual as pessoas decidiram se reunir lá - a "música", assim mesmo, entre aspas, porque o que saía da garganta de certas pessoas dali só com muita boa vontade poderia ser classificado como algo vagamente musical. Grande parte das vezes, eram só berros mesmo. Berros e música chata, cantada por gente esquisita.

Mas alto lá, dirão vocês - música chata e gente esquisita são parte integrante dessa experiência social chamada videokê. Quer ouvir música boa vai a um bar de jazz, ué. E mais uma vez, repito a minha pergunta: Por que alguém escolheria celebrar seus 27 anos num lugar daqueles, meu deos? E eu lhes digo, coleguinhas, a coisa estava feia. Alternava entre pagodes dos anos 90, sertanejos completamente desconhecidos e as "must-sing" de qualquer videokê de respeito: Kid ABelha, Djavan, Lulu Santos e assemelhados.

Não é que eu não consiga me divertir em um lugar assim. Eu consigo, juro. Depois de umas cervejas sou bem capaz de subir no palco e mandar o pior Like a Virgin que um ser humano já produziu porque pra mim essa é a essência da coisa - avacalhar. Quanto mais melhor. O problema é que naquele bar, especificamente, o pessoal parecia ter ido pra cantar mesmo. A sério. E aí vira tortura. As tentativas do meu grupo de introduzir a veia tosca no recinto com um Always desafinadíssimo e um Mamonas Assassinas foram inúteis. A galera seguiu firme e forme no Andrea Boccelli. E quando as aulas na faculdade ali ao lado acabaram, piorou. O bar foi invadido por universitários boçais que acham engraçado subir em 20 no palco pra cantar Asa de Águia. Diante deste cenário aterrador, só nos restou o álcool. E este também não colaborou.

Depois de litros de chope que não estavam surtindo o efeito desejado (nos deixar bêbados o suficiente para nos divertirmos de verdade), queridão decidiu apelar e pediu um gin tônica. Gin tônica já é, por natureza, uma bebida do diabo - é levinha, fresquinha, e tem um teor alcoólico de assustar o Boris Yeltsin. Feita com gin vagabundo, como imagino ter sido o caso, torna-se letal, ou quase. A ressaca que me acompanhou hoje entrou com folga no meu top cinco "piores ressacas da história" e briga ferozmente pelo primeiro lugar. Passei o dia imprestável.

Ao contrário do que as chances apontavam, chegamos em casa salvos (porque sãos não é exatamente a palavra) e prometendo não voltar a um videokê tão cedo. Mas ó, se tem um casal que gosta de quebrar promessas nessa vida, somos nós.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Venha ver o pôr do sol

Entrei na sala do nono ano e vi, perdida sobre a mesa, uma coletânea escolar de contos da Lygia Fagundes Telles - estre eles um dos mais famosos e meu preferido, Venha ver o pôr do sol. Devolvi a seu dono e eles me disseram que fariam prova do livro na segunda aula. Perguntei se tinham gostado. Respoderam que não porque, segundo eles, o livro "não tinha mensagem nenhuma."

O que eu poderia dizer? Talvez pudesse explicar que Lygia Fagundes Telles não desenvolve arquivos de pps nem escreve livros espíritas. Que literatura não precisa, necessariamente, ter uma mensagem - pelo menos não uma tão óbvia e clichê quanto a que eles estão acostumados nas letras do NXzero. Que uma boa história não tem a obrigação de ensinar nada, só de fazer pensar, só de atiçar a curiosidade para coisas maiores.

No final eu não disse nada. Tinha a idade deles quando li Lygia Fagundes Telles pela primeira vez e digo: essa mulher mudou minha vida. Ela me mostrou que havia um universo muito maior e mais importante do que a minha vidinha solitária e problemática de adolescente e que não, eu não estava sozinha - outras pessoas compartilhavam meus medos, minhas angústias e minha busca pelo pleno, pelo essencial. Parece piegas e clichê, mas aos 14 anos faz um sentido enorme.

Talvez a culpa seja nossa mesmo. Adianta atirar Venha ver o pôr do sol no colo deles, fazer uma prova e dormir tranquilo com a certeza de que "incentivou a leitura"? Eles pertencem a uma geração (que deve ter começado com a minha mas da qual eu tive a sorte de me desvencilhar) que foi treinada para só enxergar o óbvio - que recebeu tudo muito fácil, mastigado, e que não consegue ver a beleza e a profundidade das coisas nas entrelinhas das histórias mais simples, como as que eles tinham acabado de ler. Precisam de um guia. Precisam de alguém que os ajude a compreender.

E nós estamos falhando.